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A voz serena

Vicente Serejo
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O ex-presidente Michel Temer – o político e o poeta – não é santo do meu altar, como já se usava dizer no tempo nos velhos clichês. Nem por isso, este cronista deixou de protestar, à época, contra a sua prisão, pelo detalhe da grande calhordice da Operação Lava Jato: quando a Polícia Federal chegou ao edifício do seu apartamento, nas primeiras horas da manhã, já estavam jornalistas e cinegrafistas, para surpresa dos próprios policiais, numa deplorável e desastrosa espetacularização.
Agora, anos depois, a palavra do ex-presidente Michel Temer no seminário promovido pelo grupo Lide, em Nova York, mesmo mantendo as melhores relações pessoais com o ex-presidente Jair Bolsonaro, quebrou o silêncio da intolerância complacente, e declarou: “Não é de agora, mas já do passado, de muito tempo atrás, incorporou-se ao nosso sistema a ideia de que se eu perdi a eleição, o meu dever é destruir aqueles que ganharam a eleição, e isso não contribui com o país”.

Temer não precisava ser sincero a esse ponto, se da sua consciência de professor de Direito Constitucional não fizesse parte a experiência de ter presidido o Legislativo e o Executivo, quando assumiu, no impedimento por impeachment de Dilma Rousseff, a presidência da República. Houve quem tentasse fazer a leitura da intriga, como uma posição contra Bolsonaro. Temer, sem perder a serenidade, desmentiu. E argumentou que esse é, desde sempre, o modelo de oposição no Brasil.
O episódio, pela serenidade, não deixa de ser, de forma consciente ou não, um exemplo prático da teoria de Norberto Bobbio, autor do grande Dicionário de Política, no ensaio o ‘Elogio da Serenidade’, traduzido no Brasil pela Universidade Estadual, Unesp, edição de 2000. Bobbio não propõe que se revoque a ética das regras para atender às exigências do mundo contemporâneo. Seria propor o desrespeito ao conjunto de direitos e deveres. Mas defende a ética da moderação.
A erudição e a habilidade do cientista político servem para, em certo momento, Bobbio ir buscar no exemplo da história do leão, do lobo e do cordeiro o contraplano que deseja levar ao seu leitor. Lembra que os dois animais que representam o homem político são o leão e a raposa, como está em ‘O Príncipe’, de Maquiavel. Já o cordeiro, reconhece: não é animal político. Mas, adverte aos esquecidos, lembrando uma lei da sobrevivência: “O lobo devora quem se finge de cordeiro”.
A declaração do ex-presidente Michel Temer pode não agradar a lulistas e bolsonaristas, mas por isso perde a força. Ao contrário: flagra a miséria da vida política. Bobbio tem razão ao tentar mostrar que a serenidade é contrária à insolência. Ostentar a arrogância fere a grandeza da vida política. Talvez por isso, afirme, no ‘Elogio à Serenidade’ – o homem sereno não é submisso. A serenidade há de ser a grande virtude política. Já o seu contrário, é o deplorável abuso de poder.

PALCO

FIBRA – Uma coisa não se pode jogar nos ombros de José Dirceu, tenha ele os defeitos que possa ter: a deplorável condição de delator. Nunca aceitou delatar. Nem sob a promessa suja dos prêmios.

LIÇÃO – Os ministros do Tribunal Superior Eleitoral deram uma lição de equilíbrio e justiça ao hoje senador Sergio Moro. Tudo quanto, como juiz, ele não soube fazer. Mesmo sendo um dever.

ALIÁS – O então juiz Moro excedeu-se: demitiu-se para ser ministro da Justiça do candidato Jair Bolsonaro, saiu denunciando o governo, mas acabou um assessor de Jair nos debates da televisão.

PIOR – O desmonte da Lava Jato mostra que seu grande erro foi exatamente tentar desmoralizar toda a classe política. Nem em nome de punir a corrupção se faz uma democracia sem Legislativo.
REBELDES – Nas livrarias, o novo livro de Heloisa Teixeira – antes Buarque de Holanda – que documenta os ‘Rebeldes e Marginais’. Com várias ilustrações dos agitados anos sessenta e setenta.

ALIÁS – Heloísa, recentemente eleita para a Academia Brasileira de Letras, é a maior estudiosa da produção literária naquele Brasil sob a mão morte da ditadura militar. Tudo bem documentado.

POESIA – De Caetano Veloso os versos de ‘Alegria, Alegria’, que ainda ressoam na geração dos anos rebeldes: “O sol nas bancas de revista / me enche de alegria e preguiça / quem lê tanta notícia”.

MISTÉRIO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, amolando nas pedras da própria alma a lâmina do velho ceticismo, entre vícios e virtudes: “Ninguém vai sozinho quando morre”.

CAMARIM

AVISO – A Arquidiocese formou uma comissão que deve estudar as condições para a criação de uma quarta Diocese, além de Natal, Mossoró e Caicó. Macau é uma das alternativas, mas não há decisão nesse sentido. Na Santa Madre Igreja, tudo é muito discreto, sempre longe dos refletores.

POR… – Falar em refletores: tem petista convencido de que a governadora Fátima Bezerra comete um erro quando não investe na comunicação e mostra as unidades em construção para o sistema de ensino profissionalizante. Mesmo com elevados índices negativos na avaliação do seu governo.

LUTA – Os artistas que atuaram no carnaval continuam sem garantia de data para o pagamento dos seus cachês. A área cultural municipal sequer cumpre o dever ético de lutar por quem confiou na palavra oficial. Sob o silêncio de todas as instituições culturais, sempre cúmplices dos governos.

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