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“Amor a Roma”

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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Os sentimentos revelam o coração, a alma e a razão dos homens. Somente a consciência pode devassar e exibir a predominância do sentir ou do racionalizar ante o mundo e a vida. Desde os tempos de Homero, Virgílio e Horácio, consagrou-se o entendimento de que os poetas falam, escrevem e pensam exclusivamente com o coração. O espírito se expõe em cada percepção ou sensação que os leva a criar, conceber, divagar, projetar e sonhar. Exaltar a condição humana.


Não sou poeta. Nunca o fui nem serei. Apesar de ter ascendentes poetas. O mais ilustre foi Gotardo Neto (tio-avô). Mas me sinto poeta e minha alma explode em exultação, êxtase e deslumbramento todas às vezes ao visitar Roma. Petrônio, o mestre da elegância, poeta, vítima das crueldade e insanidade de Nero, proclamava que amar Roma é desfrutar do sentimento de partilhar uma civilização. Mas, antes do “Anno Domini” (Ano do Senhor, ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo), Cícero disse que “Roma é a rainha das cidades, ornamento do Universo, asilo comum das nações”. Ao longo dos tempos, outros, inumeráveis, também a decantaram, como Dante, Petrarca, Rabelais, Montaigne, Padre Vieira, Goethe, Madame Staël, Lord Byron, Chateaubriand, Napoleão, Stendhal. Mas, universalmente, ninguém a exaltou como Afonso Arinos em sua obra-prima “Amor a Roma”. Soberba e magnificente.


Amigos como Ernani Rosado, Sanderson Negreiros e Valério Mesquita atribuíram meus sentimentos por Roma a uma identidade espiritual, fruto da fé cristã. Na primavera, um céu incomparavelmente azul envolve a cidade. Nenhuma nuvem assombreia qualquer ponto daquela abóbada belíssima, fascinante e infinita. Uma claridade mística parece guiar milhares e milhares de visitantes. Peregrinos ou turistas de todas as partes do mundo. Os romanos possuem uma alegria contagiante. São acolhedores e prestimosos. As sete colinas, como na época dos cézares e da república anterior ao império, resplandecem até hoje fascinantes e esplendorosas. Geram um cenário que o fluir dos tempos não alterou. Parecendo espetar o infinito. Mas a História apenas testemunha grandeza, fragilidades e contradições dos líderes romanos.


Roma é insuperável no mundo como museu a céu aberto. Basílicas, igrejas, praças, monumentos históricos e arqueológicos, esculturas, escadarias e calçamentos (como os do Campidoglio, concebido por Miguel Ângelo), infundem a convicção de que a cidade atesta a irrefreável e surpreendente capacidade do homem para criar e se superar. Miguel Ângelo, Bernini e Rafael ali iluminaram com sua genialidade. Em todos os cantos da cidade, da Piazza della Rotonda ao Campo dei Fiori (onde decapitaram São Paulo e queimaram Giordano Bruno), do Quirinale a Laterano, do Aventino ao Trastevere, do Gianicolo ao Vaticano. O mestre Cascudo, em “Civilização e Cultura”, advertiu que os sinais da civilização romana persistirão na maneira de ser, agir e pensar dos povos latinos e neolatinos. Em “Dante Alighieri e a tradição popular no Brasil”, gestos, padrões de comportamento, palavras, superstições, descritos na “Divina Comédia”, originaram-se em Roma e, ainda hoje, manifestam-se entre brasileiros. Eis por que Roma é também um estado de espírito.


Já tínhamos visitado algumas áreas da cidade quando chegamos à Praça São Pedro, no Vaticano. Um gigantesco presépio estava montado no centro da “piazza”. Era o mês de janeiro. Mas o dia começara com a visita à capela Quo Vadis, onde S. Pedro teve a visão de Jesus. Nero perseguia os cristãos Era provavelmente o ano 67 d.C; Responsabilizava-os pelo incêndio de Roma, que, ele próprio, insano e sanguinário, urdira e determinara. Os cristãos suplicaram a Pedro para deixar a cidade até cessarem as hostilidades. O Apóstolo transigiu, mas não foi muito longe. Ao chegar à Porta Áppia encontrou outro viajante, que se apressava por chegar a Roma. S. Pedro reconheceu Sua figura, Seu rosto. Tinha-O ouvido pregar, caminhar com Ele, testemunhara suas pregações e milagres, Sua crucificação, Sua ressurreição e ascensão aos Céus: – Quo vadis, Domine? (Para onde vais, Senhor?). O Outro respondeu: – Vou a Roma para ser crucificado pela 2ª vez. – A visão desapareceu, mas em algumas largas pedras da via gravaram-se marcas dos pés. Ali está a capela, ao lado das marcas. S. Pedro deixou seu cajado e retornou a Roma.


Um lindo céu, sem nuvens, entre azul e violeta, encobria a cidade. Frio de 12 graus. Uma sensação de infinita paz invadiu-nos por todo o dia. Depois de rezar na Basílica de São Pedro, visitamos a sepultura de João Paulo II. Emocionados, sentimos uma ternura contagiante e arrebatadora. Pelos dias seguintes desfrutamos a paz que nos dominou. Plenamente. Mais um ato de amor a Roma. Enleante e prodigioso.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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