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A sede da alma

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Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal

“Como a corça bramindo por águas correntes, assim minha alma brame por ti, ó meu Deus!” (Sl 42, 2)
O Salmo 42 expressa poeticamente a angústia de um exilado devido ao seu afastamento do Templo de Jerusalém, onde Deus reside, e das festas que lá eram celebradas. No exílio, clama por Deus, desejando visitar o Santuário e contemplar a face do Senhor. Antropologicamente, o Salmo retrata uma realidade intrínseca à alma humana: a sede de absoluto, a sede de Deus. O ser humano é estruturalmente aberto e tem um desejo inato de eternidade.

A metáfora do exílio permeia a fé cristã, sugerindo que vivemos exilados neste mundo. Nele estamos, mas não somos dele. No mundo, sentimos uma profunda inadequação, como se estivéssemos longe de casa, desejosos de retornar à pátria de origem. “Não temos aqui cidade permanente, mas estamos à procura daquela que está para vir” (Hebreus 13,14). A angústia do exilado é expressa pelo Apóstolo Paulo na Segunda Carta aos Coríntios, destacando a tensão entre a fé e a visão, entre habitar neste corpo e ansiar pela morada junto ao Senhor: “Por conseguinte, estamos sempre confiantes, sabendo que, enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão” (2 Cor 5, 6-7).

O Salmo 63 retrata vividamente a sede da alma, apresentando-a como uma terra árida clamando por água: “Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra árida, sem água” (Sl 63, 2). Essa imagem é poderosa para retratar a condição humana, profundamente marcada por um desejo de eternidade, como se na alma houvesse um grande buraco que nada preenche, exceto o Absoluto. Santo Agostinho expressa essa condição quando exclama no início de suas Confissões, em sua invocação a Deus: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”.

A inquietude, a insatisfação, denunciam a inadequação do ser humano no mundo. O ser humano tem sede de absoluto e de Deus. Quando não compreendemos a natureza dessa sede, orientamos nossa busca para realidades efêmeras que jamais cumprirão suas promessas. Buscamos e nada nos sacia, e, quando conseguimos algo, somos remetidos para uma nova busca. Essa situação de busca incessante aponta para um termo último, indica para algo que possa definitivamente saciar nossa sede e dar um novo norte à nossa vida. Esse termo absoluto é Deus!

A atual sociedade de consumo leva em conta essa condição existencial do ser humano, trabalhando com o desejo e sede do absoluto, remetendo-os para o consumo. A sociedade de consumo, conforme apresentada por Bauman, capitaliza essa busca, mantendo a insatisfação como pilar fundamental para sua sobrevivência. “A sociedade de consumo tem por premissa satisfazer os desejos humanos de uma forma que nenhuma sociedade do passado pôde realizar ou sonhar. A promessa de satisfação, no entanto, só permanecerá sedutora enquanto o desejo continuar irrealizado” (BAUMAN, Z. Vida Líquida, 2009, p. 105). O consumo tem como estratégia perpetuar a insatisfação, criando alvos inatingíveis e alimentando a compulsão. Assim, o consumismo torna-se uma economia do logro, do excesso e do desperdício, onde a promessa de satisfação é constantemente quebrada, mantendo viva a busca incessante.

A massificação das drogas em nossos dias não estaria apontando para o mal-estar de uma sociedade imersa na imanência em que se perderam os horizontes da transcendência? Quando nos falta uma experiência de transcendência, transferimos nossa angústia de exilados para o consumo e para as substâncias psicotrópicas.

A conexão entre a falta de transcendência e o recurso ao consumo e substâncias psicotrópicas é como uma resposta à angústia do exílio na imanência. Contudo essa tentativa não responde à sede da alma e aprofunda ainda mais o seu abismo. Somente em Deus, nossa alma encontra repouso!

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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