quinta-feira, 23 de maio, 2024
24.4 C
Natal
quinta-feira, 23 de maio, 2024

Figura

Na fase heroica dos anos de 1950/60 a arte concreta se mobilizava. Surgiam atuações teórico-criativas próprias de quem se inseria num sistema subdesenvolvido. Waldemar Cordeiro e mais artistas se organizaram em grupo: o “Ruptura”. Período em que o Brasil dava salto na modernidade industrializadora. Aparecia a poética visual. Imbricada na linguagem urbanística de Juscelino Kubtschek se articulava nos talentos dos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Discípulos do urbanista, escultor e pintor franco-suíço Le Corbusier. A Bossa Nova de João Gilberto vibrava em toques dissonantes: a música silenciosa de João. O combate comportamental antiburguês e individualista estava em curso. A utilização ampliada das mídias foi premissa para romper a imobilidade da comunicação de massa. Fazer uso de meios não convencionais: do desenho industrial a Bauhaus aos poemas-cartazes.


Nesse contexto se destacou a participação do crítico trotskista Mário Pedrosa. Produzia conferências, ensaios e artigos. Estimulava absorção de demandas do momento. a Ele reconheceu a “máquina cinética” do artista Abraham Palatinik. O aparelho cinecromático rejeitado pelo júri de seleção nacional da 2ª Bienal Internacional-SP. Mas, aceito pelo júri internacional. Escreveu Pedrosa: “Abraham Palatinik, nascido em Natal, em 1928, representará no grande certame internacional a ponta extrema do movimento moderno”!


Na revista paulistana -Diálogo, 1957- Haroldo de Campos revela o interesse do irmão Augusto, em interligar experimentos cromáticos de poemas as experiências cinéticas de Palatinik: “…já considerava a possibilidade de utilizar luminosos ou filmletras em cores (…) tendo chegado a escrever, nesse sentido para Abrão Palatinik. É de 1953, o poema policromático “Lygia fingers”. Da série POETAMENOS. Totalizando seis poemas plurilíngues multicores publicados a partir de 1952 (entre eles “dias, dias dias” gravado por Caetano Veloso).

Em visita a Augusto de Campos em seu apartamento em Sampa perguntei sobre o fato-Palatinik. Respondeu: “Escrevi, mas por alguma razão não obtive retorno”. Lygia de Azeredo sua companheira -que fez sua passagem no último domingo- se colocava na roda de conversa. Fina, discreta e cordialmente presente. Ela… a musa generosa que ensejou a criatividade poemática: “Lygia finge / rs ser digital / dedatt illa grypho… mãe felyna com ly”… onde o verso e a sintaxe discursiva foram dispensados. Discurso em parataxes. Palavras dispostas no plano retangular do papel evidenciando estruturas gráficas-espaciais incomuns.

Augusto e Cid Campos realizaram leituras e tratamentos sonoros. Estão nas plataformas digitais. O poema aparece na última faixa -lado A- no antológico álbum vinil “Trem dos Condenados”. Do cantor pernambucano Marcus Vinícius. A figura de Lygia Azeredo está literariamente expressa em “Passos e Expassos”. Plaquete da Galileu Edições-2019. Irmã de Ronaldo Azeredo -autor do histórico poema VELOCIDADE- colaborou em pesquisas e ações definitivas exemplificada na participação em “Pagu: vida e obra”. Mulher para mulher. Em discrição e legado. Deixando cortes qualitativos na cultura brasílica.

*Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

Últimas Notícias
Notícias Relacionadas