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Cantiga

Vicente Serejo
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A mania de culpar o jornalismo é a mesma, há décadas. É como a cantiga da perua. Quando governos e instituições públicas se perdem no emaranhado dos próprios erros ou mesmo por dificuldades naturais, é fácil culpá-la. Como se gestores e assessores não fossem responsáveis e determinantes na gestão da informação, matéria prima do jornalismo. E a partir dos conflitos e contradições, quando as revelações ainda estão fora dos olhos e dos ouvidos da opinião pública.
Ou, para voltar, e sempre, a Luiz Mariz Alves: quando os governos e as instituições caem nas valas inconfessáveis, e nem precisa ser por temor, só por conveniência, o caminho a tomar é a conspiração do silêncio. Não foi à toa que Samuel Johnson deixou para o mundo meditar sua lição, não para condenar o patriotismo, mas para revelar o homem: “O patriotismo é o último refúgio do canalha”. Olhe, Senhor Redator, a pátria tem servido de escudo para muita coisa feia.

Ora, se o Diabo não é mais inteligente do que ninguém, é apenas velho, e, por isso, viu muita coisa desse mundo sem eira e nem beira, não perderá, na mesmice desses dias, sua aptidão para perceber certas manobras, mesmo as mais discretas. É que as coisas feias não se escondem entre as bonitas. O belo é justamente o que denuncia o feio. O jornalismo, se fosse viver da voz dos satisfeitos e dos prestidigitadores, esse mundo seria pior, mesmo ungindo santos e demônios.
E há prestidigitadores para tudo. Ninguém pode opor-se ou impor obstruções à liberdade de expressão. Mas, não será Elon Musk seu defensor ideal. Quando faz negócios com ditaduras, a começar da China, não exige respeito à liberdade. O lucro, se conquistado honestamente, sequer é pecado, quanto mais crime. Só que a liberdade é um direito universal conquistado pelo homem e não pomada de uso tópico – aqui sim, ali não. Nem pode ser usada ao sabor de fortes e fracos.
Todas as atividades precisam ter regras claras. A lei que protege a dignidade humana, o respeito à privacidade, pessoal ou empresarial, o direito de viver, ao contrário do que pensam, é justamente o instrumento que protege a liberdade de expressão. Para que não se transforme em privilégio. A pior ameaça contra a liberdade de expressão são as hegemonias que sempre servem muito mais à massificação do que à informação, indispensável à formação da consciência crítica.
Vivemos no terceiro milênio o reinado das dissimulações, dos simulacros quase perfeitos. Nunca os robôs e a robotização foram tão convincentes. Não foi à toa que o neurocientista Miguel Nicolelis, acatado nos grandes centros de estudos da neurologia das maiores universidade norte-americanas, declarou a respeito do chip cerebral de Elon Musk: “É invasivo e ficção científica de segunda categoria”. Sua entrevista está na Folha de S. Paulo, edição de 01.02.24. Confiram.

PALCO

PESO – Os tucanos representam hoje o maior e mais estruturado partido no RN. A posição que vier a assumir nas majoritárias de 2026 poderá ter um peso inegável. Desde que desça do muro.

ALIÁS – Nas eleições municipais pode disputar em mais de cem municípios, mas ainda mantém o silêncio formal, mesmo como aliado do PT, sobre o apoio à candidatura Natália Bonavides.

SUBIU – O monsenhor Waldir Cândido de Morais, hoje vigário episcopal da Catedral, em Natal, foi nomeado reitor da pela Santa Sé do Pontifício Colégio Pio Brasileiro, Roma. Assume em julho.

GUERRA – Confirmado: será no dia 18, amanhã, no salão nobre do Instituto Histórico, a palestra do historiador João Ferreira Neto sobre a ‘Guerra Naval na Costa Nordestina. E começa às 17h.

CINEMA – Marcado para dia 11 de maio, no sebo Gajeiro Curió, no Mercado de Petrópolis, o lançamento do livro ‘Efemérides Cinematográficas’. Homenagem ao autor, Anchieta Fernandes.

GOLPE – A revista ‘História’, nas bancas, lança uma edição especial sobre os sessenta anos do Golpe Militar de 64. São dez páginas com imagens e depoimentos. O RN, como sempre, ausente.

POESIA – Do poeta Múcio Leão, do Recife, estes versos assim, arrancados do poema ‘As Luas’: “Sobre a população desta amarga cidade / pairam, longínquas, a sombra de duas grandes luas”.

LIÇÃO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, consolando o amigo desconfiado do amor, repetiu o conselho do poeta Carlos Drummond de Andrade: “Amar se aprende amando”.

CAMARIM

RUAS – Já em fase de impressão, pela editora da Universidade Federal, a ‘História das Ruas de Natal’. Um dos originais inéditos de Câmara Cascudo Localizado na sua biblioteca. A edição dos outros inéditos depende do Instituto Ludovicus, o detentor legítimo dos seus direitos autorais.

PÉRIPLO – O diplomata e escritor potiguar Almino Afonso inicia sua série pelas dezoito cidades nas quais viveu como diplomata, começando por Beirute em tempos de guerra. Os capítulos vão ser publicados pela revista Pernambuco. Agora em abril tem o dossiê sobre Augusto dos Anjos.

MACONHA – Ainda parece restrita a poucos leitores locais o novo livro ‘As Flores do Bem’, de Sidarta Ribeiro, numa bela alegoria sobre o título célebre de Charles Baudelaire. É o que de mais arrojado, mas simples, foi escrito no Brasil, até hoje, sobre a maconha. Inclusive para os leigos.

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