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Carnaval de cada um

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Meu carnaval será a repetição disciplinada de cada ano: leitura, cinema, recolhimento junto à família. Pretendo me pegar com a biografia de Luiz Carlos Miele, gênio do espetáculo no teatro, cinema, na televisão, na mesa de um bar, o apresentador mais importante do Brasil, cerimonialista de Elis Regina, ator fantástico e um gozador delicioso. De tiradas antológicas de colete, irrespondíveis. Um homem feliz. Miele morreu em 2015.

O carnaval é o retrato da alma de cada vivente. Sempre fui recolhido e, por timidez sanguínea, e em qualquer tempo, me consagrei brincalhão. Quebrei a regra algumas vezes quando Pirangi do Norte era uma praia deserta, de duas, três casas de veraneio e caiçaras de rosto talhado à faca.


A música ao vivo chegava no lirismo da voz do meu pai e do violão esplêndido de Roberto Maranhão, professor da UFRN e, a exemplo do meu pai, falecido, do jeito da praia que, em algumas alpendres, não todos, virou reduto de exibicionistas potentados e pouco afeitos a sentimentos não-comerciais ou meramente monetários.


À noite, uma radiola era ligada na bateria do carro e surgiam as velhas(já eram velhas no início dos anos 1970), marchinhas tradicionais de Braguinha, Lamartine Babo, Ary Barroso, Noel Rosa, João Roberto Kelly e Chacrinha. Balançava meu literal esqueleto escondido dos adultos. O som saía chiando, quase inaudível, mas sabíamos, todos, que o carnaval era a democracia soando naqueles tempos sombrios.


Nos anos 1980, adolescente, ficava pê da vida porque o carnaval significava quatro dias a menos de futebol. Quando muito, um jogo adiado era disputado no sábado com estádio vazio.


Lembro bem de um clássico Vasco 5×3 Fluminense em 1985. Nossa rua estava sossegada e assombrosa feito cemitério, afinal, os de algum a mais no bolso alugavam casas de veraneio e nós, da tribo mirim, ficávamos a andar de um lado a outro.


O jogo, que aconteceu fora de época por causa do adiamento em razão da morte de um grande zagueiro do Vasco, o uruguaio Daniel González, de acidente automobilístico, deveria ter durado os quatro dias momescos. Sempre achei tudo sempre igual nos desfiles das Escolas de Samba, exceto a poesia imaculada da Portela.


O Vasco tinha Roberto Dinamite, Cláudio Adão, Geovani, Acácio, Mauricinho e um juvenil que ficou na reserva e não entrou: Romário. O Fluminense, poderoso campeão brasileiro(em cima do Vasco) no ano anterior ostentava o goleiro Paulo Vitor, o lateral-esquerdo Branco, o meia Delei e a dupla de atacantes chamada Casal 20: Assis e Washington.


O Vasco passou por cima do tricolor e foi o samba que tocou no meu peito naqueles modorrentos dias. Assisti o jogo ao vivo, acompanhei o replay na TV-Universitária, decorei lances, especialmente os lançamentos de Geovani para Mauricinho e Roberto Dinamite, autor de três gols, comentei até cansar com um ou dois amigos que também se submetiam ao exílio caseiro.


Depois, esperava a hora passar cansada no velho relógio de parede, obedecia ordens maternas de não sair para lugar nenhum(como se em mim houvesse a ambição da farra), deitava a cabeça no colo de minha avó e dormia profundamente até a mesmice me despertar às 7 da manhã do outro dia.


O carnaval foi feito para os eufóricos, o festeiro legítimo quer dançar, brincar, vestir a fantasia sobre a rotina desigual, não conta vantagem nem exibe carro importante. O carnaval, para quem gosta e admiro quem gosta, é a liberdade exalando no suor do passo, do samba de raiz embalando sonhos e saudades.


Meu carnaval hoje me dá a chance de rever jogos antigos, gols de ídolos fantásticos, penso em dedicar a segunda ou a terça-feira exclusivamente a Pelé, em películas ou arrancadas, fintas patenteadas e tabelinhas simétricas com Coutinho pelo Santos.


Se antes era triste não ter futebol em quatro dias, hoje o jogo, no máximo, é uma monótona marcha-rancho, sem a eletricidade das baterias nem o ronco das cuícas produzidas pelas chuteiras que ditavam o ritmo do batuque em quatro linhas. Futebol bom é em ritmo e plástica foliã. Futebol sendo carnaval.

Recuperação Depois de três jogos sem ganhar, o técnico do Vitória, Léo Condé, conta com os três pontos amanhã contra o ABC para quebrar o ciclo negativo. Há soberba nos baianos. O ABC, em constante revezamento sem encontrar uma formação, poderia jogar com dez do meio para trás.

Parâmetro O jogo morno – mais um – contra o Potiguar, vitória magra de 1×0, não permite ao mais sábio analista definir um desenho tático para o alvinegro.

Inseguro A torcida mista no próximo América x ABC não me agrada. Regredimos da civilização ao primitivismo e os arruaceiros até podem poupar o estádio para a guerra na rua. Quem mata por futebol nega a própria razão de viver.

Betinho Longevo – e eficiente – o pivô Betinho será de imensa utilidade ao futsal do América, reforço às próximas lutas.

América SAF Vitória sobre Itabaiana. Inegociável.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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