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O poder e a massa

Vicente Serejo
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Vou envelhecendo, Senhor Redator, no compasso dos dias e das noites que já vencem a casa dos setenta, sem acreditar em formador de opinião pública. Nem na sua manifestação mais recente, o tal do influencer digital. Ainda tenho nos ouvidos a frase de Luiz Maria Alves todas as vezes que o hoje finado Diário de Natal sofria, embora bem raras, uma refrega indesmentível. Colocava as duas mãos nos quadris, espigando a escoliose, e dizia: ‘Ninguém engana o leitor”.

E não engana. Desde que não se confunda a adesão, por admiração a ídolos, no caso das consagrações pelo voto nas eleições estrondosas de jogadores de futebol, artistas e que tais. Ainda assim, são raros os ídolos que brilham no campo dos plenários e dos cargos executivos. Daria um exemplo, um só: do figurista Clodovil Hernandez, para citar um ícone forjado no glamour da alta moda. Eleito deputado federal, foi um raio passageiro sem marcar em nada a sua passagem.

Seria fácil ir mais além e lembrar de como é pífio o desempenho de pastores e militares. Eleitos pelo corporativismo, nem garantidos pelas urnas deixam de ser estranhos no ninho de ferro da política. Nem mesmo os habilidosos usuários de microfones e câmeras vão muito além do histrionismo e do estreito limite de uma vocação artificial que se revela por si mesma no calor do dia-a-dia. Caem no estilo repetitivo e cansativo, e logo bem cedo fenecem, entre risos gaios.


O influencer influencia como propagandista de perfumes, batons, cremes, desodorantes. Ou roupas da moda, sapatos modernos e lingeries sedutoras. Não duvido. Mas há de existir, antes da pleonástica influência do influencer, um sentimento de pré-disposição. Se uma influencer sugerir um modelo de sutiã – ou seria melhor sutien? – que por acaso a mulher não goste ou não lhe caia bem, não sensibiliza. Como uma opinião que desagrade não será nunca bem absorvida.


A força das redes sociais na consagração popular de Jair Bolsonaro, antes de vê-lo como um líder, exerce fortemente escape que milhares de seguidores que antes já conservavam um halo de expectativa até então invisível para os olhos. Bolsonaro é fruto desse escapismo e um indutor de extravasamento. Mais do que os milhões e milhões de mensagens, ele emprestou a coragem de assumir ser o vetor de um processo de massificação sem compromisso com a própria política.


Eleito com seu opositor nas grades da prisão, sua vitória foi coletiva, mas massificada. E como a massa não conduz, é conduzida, não bastou para vencer outra vez. Não se pode duvidar das suas multidões, mas, para entendê-las, talvez fosse útil a leitura de ‘Massa e Poder’, de Elias Canetti. O prêmio Nobel que levou trinta anos para entender como as massas foram conduzidas naquela louca Alemanha nazista e, ao lado de Adolf Hitler, o Führer, sonharam dominar o mundo.

PALCO

ÁGUA – Os bombeiros já jogam água na frase fumegante do ex-prefeito Carlos Eduardo Alves quando do alto da prepotência disse que estava eleito, com ou sem apoio de Álvaro Dias. É fogo.

AVISO – O novo bispo de Mossoró, Dom Francisco de Sales Alencar Batista, é monge carmelita, mas também um gestor que chegou a Prior da Província. E hoje preside o Regional II da CNBB.

MISSÃO – De formação erudita, com cursos de teologia em Dublin e Roma, foi escolhido para substituir Dom Mariano Manzana, considerado como um gestor que realizou uma grande gestão.

PLACAS – Chega a esta coluna uma reclamação: centenas de placas sinalizando os nomes das ruas foram apagadas pelo sol e a chuva. E em muitos casos sequer estão fixadas nas suas esquinas.

JABUTI – Abertas até dia 18h do dia 19 de março as inscrições para o Prêmio Jabuti Acadêmico, a nova modalidade criada para premiar a produção universitária de obras científicas e técnicas.

HUMOR – De JLM que há semanas e semanas não dava o ar de sua graça: “Se alguém juntar as fotografias 3×4 dos nossos proxenetas oficiais daria para montar um painel de quatro séculos”.

POESIA – Do poeta Cacaso o pequeno poema ‘Reflexo condicionado’, da antologia ‘50 Poemas de Revolta’, edição de 2017: “Pense rápido: Produto Interno Bruto / ou / brutal produto interno?”.

GLÓRIA – De Nino, filósofo melancólico do Beco da Lama, no jeito escatológico de enxergar a vida: “Todos os dias um pouco da gloriosa vaidade também se esvai pelo ralo do bojo sanitário”.

CAMARIM

ATENÇÃO – A fiscalização sobre o uso indevido de viaturas oficiais, no caso, do governo do Estado, inclusive o abastecimento de combustível, se for pra valer, vai mostrar muita novidade. É possível sejam revelados figuras de terceiro escalão, estranhamente, com direito a ter carro.

COMO? – A ajuda oficial do carnaval multicultural às escolas de samba serão pagas em julho próximo. Mas, não faltam recursos para as grandes estrelas do axé e do rebolado que recebem antes do show. É o reclamo que já chega a esta coluna com um apelo ao prefeito Álvaro Dias.

FOLHA – O governo já tem muito bem equacionada a receita do governo para manter em dia o pagamento da folha de pessoal. O resto é pantim. Aliás, sabe do sinal de insatisfação de alguns setores do funcionalismo. Deve saber que os anos eleitorais são propícios para as lutas grevistas.

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