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O tempo, esse aliado

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Vicente Serejo
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Convenhamos: se o tempo cura os bons vinhos e os bons queijos, quanto mais as boas verdades. Digo assim, a la Camões, e até meio convencido, não por adivinhar, mas pelo saber de experiências feito. O falso até se põe em pé, mas demora muito pouco. Basta que os dias e as noites tenham o tempo necessário para a usinagem. Um dia, sem aviso prévio, pousa suave nos olhos e ouvidos. Ora, os doces e jubilosos encômios, por babaquice ou vindita, não duram muito.


Uma manhã dessas, o sol já ia no alto dos morros, o telefone quebrou o silêncio humilde desta caverna de livros velhos. Atendi e ouvi a voz de uma jovem que desejou bom dia, disse o nome e citou um amigo comum, de quem teve a sugestão para ligar. E a que se destinava com sua ligação? Queria saber se era possível ter a cópia de dois textos. O amigo – prefiro preservá-lo da citação – muito bem humorado, mandou dizer que o pedido era uma ordem para ser atendida.

O que desejava a jovem aluna, acho que de uma pós-graduação em literatura: a cópia do prefácio de Câmara Cascudo em ‘Rosa de Pedra’, primeiro livro de Zila Mamede; e do ensaio crítico de introdução à leitura da poesia de Zila, do professor Paulo de Tarso Correia de Melo, aquele da primeira edição UFRN, sob a direção do escritor Tarcísio Gurgel. Pediu, se possível, para fotografá-los e enviá-los em PDF. Como não sei fazer essas coisas, fui pedir a quem sabia.


Quando da nova edição da poesia de Zila, pela UFRN, um estrupício editorial, mas muito bem colorido, esta coluna reclamou dos muitos abusos, como desconhecer o título ‘Navegos’, escolhido pela própria Zila para nomear a reunião da sua poesia, antes de ‘A Herança, o último; e da ausência da fortuna crítica. Uma obra póstuma não pode ser lançada sem um bom cuidado editorial, como se bastasse uma nova capa que sequer traduziu a bela exatidão zilamamediana.


Claro que a crítica forte desagradou. Esta é uma aldeia sem crivos, bailando há quatro longos séculos entre elogios fáceis e silêncios cúmplices. Alguns, caídos no ridículo de imaginar a satisfação de Zila – quem sabe, consultada numa sessão espírita, e que a revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras acatou, no jogos das simpatias fáceis. Não tiveram o privilégio de conhecê-la – uma cabralina da melhor estirpe e que jamais admitiria os sobejos de literatice.


O resumo é simples: a nova edição da poesia de Zila Mamede, paga por uma universidade pública e federal, não cumpriu o rigor editorial de bem informar aos seus próprios pesquisadores e alunos. A Universidade não é lugar para recitar, mas de estudar poesia. O tempo, que não bate ponto em repartição, cedo comprovou. A lógica consagra e desconsagra, segundo seus próprios crivos. Por isso não teme os senhores do elogio ligeiro, no vício de fritar bolinho e fazer cocada…

PALCO

DESPREZO – Há mais de um ano que a fiação do mezanino do Mercado Público de Petrópolis foi roubada e até agora não teve sua reposição. O espaço para exposições não pode ser utilizado.

ONTEM – Dia 20 de março, 18h, o professor Doriélio Barrreto da Costa lança ‘Fatos de Ontem’. Será na Academia Norte-Rio-Grandense de Odontologia. Com prefácio de Armando Negreiros.

CENA – Defender imposto é difícil, mas não é fácil enfrentar o secretário da administração, Pedro Lopes, na fixação do ICMS nos 18%. Auditor fiscal de carreira, Lopes sabe fazer conta.

ESTILO – O arcebispo Dom João Santos Cardoso vem ouvindo todos os padres da Arquidiocese, mas, ninguém se engane com o maneirismo do estilo: vai fazer mudanças. Algumas inesperadas.

AVISO – Ser governador, mesmo por nove meses, é um privilégio. Por isso, não está descartada a indicação de Walter Alves para o Tribunal de Contas no lugar do seu tio, Paulo Roberto Alves.

EFEITO – Se o hoje vice-governador aceitar o TCE, já assume, amparado pela Constituição, o presidente da Assembleia, Ezequiel Ferreira. E com a legitimidade de ser candidato à reeleição.

POESIA – Do poeta Fabrício Corsaletti, Prêmio Jabuti de 2023, no Soneto 56 do seu ‘Engenheiro Fantasma’, assim: “Nesta mundo ninguém está seguro / meu destino eu decido de hora em hora”.

PECADO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, testemunha das lutas políticas nesta aldeia velha: “O marketing é um revólver. Tanto serve bem ao suicídio como salva a vida”.

CAMARIM

SÉCULO – O dezoito de fevereiro que acaba de passar marca os cem anos de nascimento do grande poeta e ensaísta Lêdo Ivo que tem na norte-rio-grandense Luiza Nóbrega uma de suas maiores estudiosas no seu ensaio “Quero ser o que passa – a poesia de Lêdo Ivo”, Rio, 2011.

PRESENÇA – O poeta de Emengarda, um dos sonetos mais conhecidos da poesia brasileira, é um dos habitantes desta caverna de livros velhos. Se a vaidade não fosse um pecado mortal, este pastorador até teria a coragem de dizer que aqui tem praticamente tudo que Lêdo escreveu.

EXPRESSÃO – Aliás, importância de Lêdo mereceu uma homenagem do editor José Mário Pereira – ‘Lêdo Ivo, um homem de letras (no melhor sentido da expressão)”, artigo publicado em ‘Pernambuco’, revista de literatura, livro e leitura. Ele conta o último encontro com o poeta.

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