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Os poderosos

Vicente Serejo
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Nos estados de apoplexia, vincados pelas paixões políticas, as reações contra e a favor não nascem nos neurônios do cérebro, mas nas células do fígado. Aquilo que no passado a medicina dizia ser a secreção da bile negra, como estranha forte da melancolia. O que agrada, mesmo que seja uma estupidez, tem o aplauso que anui e perdoa, e, o que desagrada, acende a ira com o fogo do ódio, e sequestra a frieza capaz de medir e pesar todas as afirmações e as suas consequências.
Quando a então governadora Wilma de Faria, no gesto ousado, aceitou disputar a reeleição para o governo e, como se não bastasse, contra o senador Garibaldi Filho, apontado um governador de férias, era tal a convicção que o ex-governador retornaria ao Palácio Potengi que reuniu ao seu lado todos os poderosos da política. Começou logo ali o jogo das alternativas do bem contra o mal, para um lado e para o outro, afinal a política tem razões e desrazões que desafiam a própria lógica.

Naquele instante, esta coluna, modéstia à parte, chamou a atenção dos seus leitores para o detalhe que, se não definiu o confronto, revelou o risco do jogo como estava armado, com sinais claros de que poderiam ser favoráveis a Wilma de Faria. Estava ali um exemplo da economia das trocas simbólicas, como advertem os teóricos da comunicação. O forte exemplo bíblico da luta do pequeno e fraco David que abateu o gigante Golias com a pedra certeira que lançou de sua funda.
Longe da leviandade de ser adivinhão, mas arrimado na tradição das narrativas épicas dos fracos quando lutam contra os fortes, não é impossível que o fenômeno venha a se repetir, esse que põe de um lado todos os fortes em torno do candidato Paulinho Freire e, do outro, a solidão do ex-prefeito Carlos Eduardo Alves e da deputada federal Natália Bonavides, e em que pese ser a candidata apoiada pela governadora Fátima Bezerra, enfrentando um desgaste superior a 70%.
A tradição popular, por sua vez, também adota um saber que não beneficia a candidatura dos fortes. Principalmente no eleitorado cristão, por abrigar, apesar de todos os perigos para a salvação da alma, uma velha lição que abriga e cultiva: a soberba é a mãe de todos os pecados. A ostentação é um juízo de valor de alta combustão e de uma plasticidade liquefeita, capaz de tomar a forma do vasilhame impulsionada pelas artimanhas que só o marketing eleitoral sabe engendrar.
Ninguém pode afirmar, com tanta antecedência, a eficiência das estratégias de marketing a serem postas num confronto que ainda vai acontecer. Só acontecendo, sob o crivo da prática, será possível aplicar qualquer avaliação qualitativa ou de mensuração dos efeitos sobre o imaginário coletivo. Nem por isso, o exemplo da vitória do pequeno David contra o gigante Golias deve ser afastado. O sentimento popular é sempre imprevisível. Muito mais nas sociedades dos espetáculos.

PALCO

GUERRA – Hoje, no Museu da Rampa, às 14h30, tem a audiência pública que vai discutir a indispensável importância, para a Rota do Turismo, da participação de Natal na II Guerra Mundial.

ALIÁS – Por falar em turismo, a Emproturn prometeu e não cumpriu brindes com as castanhas da terra aos mais de 1.300 pesquisadores de comunicação das universidades do Nordeste. Muito feio.

TÁTICA – Os gafanhotos vão ficar calados, mas todos torcem pela eleição de Carlos Eduardo. Já combinaram: ninguém pede demissão antes das urnas. Nada de acreditar em heroísmo sem futuro.

CARTAS – Acaba de sair do prelos da Universidade de São Paulo o nono volume, ilustrado, da Coleção da Correspondência de Mário de Andrade. Agora com as cartas de Mário e Murilo Rubião.

NOMES – A coleção reúne as cartas de grandes escritores para Mário de Andrade, organização e introdução do professor Marcos Antonio de Moraes, nosso maior estudioso da literatura epistolar.

IMORTAL – O escritor Aldo Lopes de Araújo assume sexta próxima como imortal da Academia Paraibana de Letras. Ele ocupa a cadeira que foi do médico e historiador Guilherme D’Ávila Lins.

POESIA – Do poeta Murilo Mendes, os dois versos que abrem o poema ‘Cantiga de Malazarte’: “Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo, / ando debaixo da pele e sacudo os sonhos”.

SINAIS – De Nino, filósofo melancólico do Beco a Lama, depois de um guisado de carneiro novo com farofa de cuscuz: “Os sonsos sabem que invejam e são ingratos, mas se fantasiam de amigos”.

CAMARIM

JOGO – O apoio do deputado Ezequiel Ferreira ao candidato Paulinho Freire é o nome que ainda faltava para completar o elenco dos poderosos na luta para evitar que o Palácio Felipe Camarão venha a cair nas mãos do PT. E não acaba ai, no apoio, o maior significado político dessa decisão.

PROVA – Freire sairá às ruas ao lado do senador Rogério Marinho, do prefeito Álvaro Dias, do presidente da Assembleia, Ezequiel Ferreira, e do ex-senador José Agripino. Quem quiser avaliar o peso é só somar os valores dos fundos eleitorais e dos tempos de tevê. Tem um peso considerável.

DRAMA – Chega ao Brasil, com o selo da Intrínseca, a tradução do ‘Sem Drama’, de Nedra Glover Tawwab. Como o próprio marketing da editora anuncia na capa do livro, é ‘um guia para gerir os relacionamentos familiares pouco saudáveis”. Família é porto, mas, também, é o cais das mágoas.

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