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Saudade morta

Vicente Serejo
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“João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda, com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro”. Primeiro parágrafo de ‘O Cortiço’.

Posto assim, Senhor Redator, sem os favos da saudade, parece só a transcrição pelo valor pioneiro e estético na formação da literatura brasileira. No íntimo, sua pequena história é outra. Foi no curso Clássico, naquele Atheneu de aulas noturnas, de rapazes atrevidos e moças bonitas, que um dia li o romance de Aluísio Azevedo. Quando vi um volume na estante de uma livraria em São Paulo, foi como se de suas páginas saltasse um tempo imenso de vida já perdido nas sombras.

É que naquela manhã, nas lembranças tangidas pelas águas velhas do mar da memória, lembrei daquele amigo muito magro, muito branco e muito tímido que carregava sempre um livro debaixo do braço. Leitor da biblioteca do Atheneu, era de lá, em idas e vindas todas as semanas, que trazia os nacos para matar sua fome de leitura, mesmo que todos estivessem mais interessados na Confeitaria Atheneu. Indagado, mostrava o livro e tentava, sem sucesso, incentivar sua leitura.

Foi levado por suas observações que descobri José Lins do Rego. Li, primeiro, ‘Pureza’, a história do cego Ladislau, sua rabeca, a inundar de melancolia a estação do trem e a alma daquele personagem tuberculoso que procurava a alegria de viver. A afeição ficou. Anos e anos depois, encontrei na Livraria Calil um exemplar autografado, encadernado em couro, da primeira edição – José Olympio, Rio, 1937. José Lins dedica ao modernista Murilo Miranda – “Com um abraço”.

Um dia, deixei a vergonha de lado, e pedi a Elenir Varela para tomar um café com Odilon Ribeiro Coutinho numa de suas vindas a Natal. E confessei o desejo: ouvi-lo falar sobre José Lins e o romance da cana de açúcar. Foi a manhã de um domingo inesquecível. Odilon e José Lins se viam quase todos os dias no escritório da Usina São João, no Rio. E, às vezes, com um terceiro grande personagem: o poeta Manuel Bandeira, molhado nas lembranças das águas do Capibaribe.

Dizem os que sabem dos segredos da arte de contar uma história que a crônica assim, tão banal, sem heróis e sem bandidos, desentranhada do sótão da memória, há de ter um desfecho para salvá-la. De preferência inesperado, se já não teve um bom começo. Devo dizer, o final é triste. Um dia, muitos anos depois, recebi a notícia de um colega, num encontro casual, que aquele rapaz muito magro, muito branco e muito tímido, tinha tirado a própria vida. Com um tiro no coração.

PALCO

DATA – Este 2026 marca os cinquenta anos da estreia, nas páginas da Tribuna do Norte, de um nome hoje nacional: o cartunista Claudio Oliveira, um traço já consagrado pela Folha de S. Paulo.

HISTÓRIA – Fiel ao princípio de que não existe humor a favor, lição que aprendeu com Henfil, jovem, e em Natal, Claudio venceu em São Paulo, o mercado profissional mais exigente do país.

PRESENÇA – Além de uma presença diária nas páginas da Folha, somando as edições impressas e as virtuais, mantém o blog https: //tinyurl.com/ysvjzybb, além de catálogo de e-books em PDF.

MAIS – Intelectualmente bem formado, com uma sólida consciência democrática, ainda jovem estudou em Praga durante três anos, voltou a Natal e depois conquistou seu espaço em São Paulo.

DÚVIDA – Para um velho e fiel agripinista, o prefeito Paulinho ao sair do União Brasil “não deixa só o partido, mas o exemplo de que a paixão, às vezes, é tão forte que derrota o dever da gratidão”.

CULPA – Do dramaturgo Walcyr Carrasco sobre a culpa, ele que mostrou na novela ‘Vale Tudo’ que conhece os mistérios da vida nesses tempos de danação: “O horror já virou produto cultural”.

POESIA – De Deífilo Gurgel, dois versos do soneto ‘Gênese’, como se fora um simbolista a olhar o velho mistério do mundo: “A tarde morre e sobre a verde folha, / o sol derrama um raio colorido”.

AVISO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando a vida que mesmo ardilosa não engana a quem sente a dor que dilacera a alma: “O falso perdão faz mais mal do que o rancor”.

CAMARIM

PAGU – Poucos sabem do valor de Peregrino Júnior na história literária do Brasil e do Rio Grande do Norte. Seu livro mais citado, ‘Mata Submersa’, mereceu um artigo consagrador de Patrícia Galvão, Pagu, publicado na edição de oito de janeiro de 1961, no jornal ‘A Tribuna’, Santos, SP.

REBELDIA – O artigo de Pagu – ‘Peregrino da Mata Submersa’ – está na antologia ‘Palavras em Rebeldia’, de Kenneth David Jackson, 2023. A sua única reedição aqui foi iniciativa do professor Pedro Vicente da Costa, quando dirigiu a Editora da UFRN, com um prefácio de Dorian Gray.

HISTÓRIAS – A edição original de ‘A Mata Amazônica’ foi lançada pela José Olympio, Rio, 1960, capa criada por Luís Jardim que também ilustra as histórias. Reúne quatro livros: “Puçanga’, ‘Matupá’, ‘Histórias da Amazônia’ e ‘Mata Submersa’. Livro que teve, até agora, quatro edições.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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