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Um almoço

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Vicente Serejo
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Uma manhã, numa conversa com João Ururahy, na agência Expo, em Potilândia, ouvi que estava vindo a Natal o ex-deputado Márcio Moreira Alves, a convite de Geraldo Melo, então vice-presidente do Senado. Disse que gostaria de conhecê-lo. Aquele que Djalma Marinho defendera a não cassação do mandato pela ditadura. Mas, em revanche, os generais fecharam o Congresso, o que levou Djalma a invocar a frase célebre de Calderon de la Barca: “Ao rei tudo, menos a honra”.
O almoço foi num sábado, na casa de Geraldo. Uma mesa nordestina, com a carne de sol indispensável. Antes, no alpendre, sob o olhar da imagem de São Pedro, homenagem de Geraldo ao seu pai, uma conversa amena, rica dos episódios vividos por ele antes e depois da sua cassação. Falou da redemocratização, do papel de Ulisses Guimarães na luta pelas Diretas, a Constituinte, e sentia, convicto, que a eleição de Tancredo Neves, mesmo morto, seria um marco sem retorno.

Quando senti o espaço para uma pergunta, fui direto a um assunto fora da política, mas que sabia ser do seu agrado. Ele e a irmã, se a memória não tropeça, tinham em Petrópolis, no Rio, uma livraria antiquária, a Sebo Fino, especializada em livros raros, principalmente da literatura brasileira. Anos depois, a conheci, em Fortaleza, quando fui receber a Medalha José Mindlin, da Associação Brasileira de Bibliófilos, mas com a honra de ter sido indicado pelo próprio Mindlin.
Aliás, chegar a Mindlin foi um gesto de Genibaldo Barros, seu amigo. Pedi para conhecer Mindlin e acompanhei Genibaldo numa viagem a São Paulo. Nos recebeu com fidalguia na sua casa, no Brooklin. Fizemos, poucos anos depois, uma segunda visita. Tinha na memória o registro de alguns ícones do seu acervo e pedi para vê-los – os originais de ‘Vidas Secas’, de Graciliano Ramos, quando o título era ‘A vida coberta de Penas’, e algumas preciosidades do modernismo.
Márcio era colecionador de Mário de Andrade. Tinha edições originais autografadas, como de outros modernistas. Um detalhe me fez ganhar a sua atenção quando confessou que faltava na coleção a edição original de ‘Os Filhos da Candinha, 1943, lançado dois anos antes de sua morte, 1945. Disse então que tinha uma duplicada e que mandaria por Geraldo no próximo retorno a Brasília. Dias depois, Geraldo levou o livro e ele agradeceu, por telefone, do gabinete do senador.
A sobremesa foi uma torta de mangaba que D. Edinólia sugeriu provar antes das outras. Ele levou uns dois ou três bocados à boca, e ficou ali, pastorando a sensação do gosto. E perguntou o que era. Geraldo disse: é uma fruta nossa, nativa dos tabuleiros costeiros nordestinos, numa aula completa que se estendeu sobre outras frutas. Ele olhou para Geraldo e D. Edinólia e disse, entre surpreso e convicto, que era uma iguaria digna dos melhores restaurantes de Paris. Nunca esqueci.

PALCO

PROSA – Natal está na rota da série Natal Bom de Prosa, da tevê Record, a partir do roteiro de Mariano Trindade. Com a apresentação do ator Rogério Ferraz. Esta Natal que viveu a II Guerra.

NOVENTA – O poeta de cordel Mané Beradeiro acaba de lançar um cordel saudando os noventa anos de ‘Casa Grande & Senzala’, de Gilberto Freyre. Mané tem Whatsapp. Este: 84.98719.4534.

HISTÓRIA – Dia oito de maio, nas sede do Crea, na Avenida Salgado Filho 1840, a partir das 18h, o lançamento do novo livro do engenheiro e historiador Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto.

AQUI – Manoel Neto retoma a tese inicialmente lançada por Lenine Pinto e mostra: a descoberta do Brasil foi no Rio Grande do Norte. Com prefácio consagrador do jornalista Alexandre Garcia.
VIRADA – É mais do que bolsonárica a virada do deputado Paulinho Freire ao assumir o discurso da extrema direita. A bancada militar hoje parece menos radical do que Freire. É a luta pelo voto.

ALIÁS – Na sua nova posição, ele deixou claro ao votar pela soltura do deputado que teria contratado o assassinato de Marielle Franco. E mesmo o União Brasil tendo três ministros no governo Lula.

POESIA – De Muhammad Chaqfa, em ‘Revelação Ébria’, antologia dos poetas de Gaza, ele um jovem, poeta de Gaza: “Cambaleava, não como um bêbado, / e tragava a morte / sem entregar-se”.

DESTINO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando a aldeia toda cercada de muitas autoridades ditas constituídas: “Só o talento dispensa anel de formatura e broche na lapela”.

CAMARIM

REAÇÃO – Os setores mais conservadores da Igreja de Natal não gostaram muito da ideia do padre Murilo de Paiva, Paróquia de Parnamirim: a entrada triunfal de um malabarista e um palhaço de pernas-de-pau louvando Jesus Cristo. Mas, e será que Jesus Cristo não gostou daquela alegria?

CAICÓ – Os padres de Caicó dão como certa a transferência de Dom Antônio Carlos da Diocese de Caicó para Petrolina. Alguns chegam a acreditar que pode ser a hora da elevação do padre Valquimar a bispo. Hoje é o vigário geral de Natal, por escolha do arcebispo Dom João Cardoso.

MAS – Há outros nomes cotados. Como o padre Luís, atual vigário geral de João Pessoa ou, até, um nome de muito mais perto e discreto: o padre Edson Araújo, pároco de Parelhas. Na verdade, nada se pode garantir. A Santa Madre Igreja tem seus ritos, como o inviolável Segredo Pontifício.

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