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Contando Viagem e Cantando Vantagem

[Instagram @alexmedeiros1959]

Está fazendo 40 anos. Foi durante a passeata do Dia da Poesia, em março, que eu combinei com Marília Mesquita, ela ainda aos 18 anos e já antenada e atiradora de versos, uma viagem no rumo de Minas e São Paulo. Partimos nas primeiras horas de julho de 1984 a bordo de um ônibus da empresa Gontijo e ao pisar em Belo Horizonte iniciei envio de correspondência para a tropa do Movimento Aluá de Poesia, endereçada quase sempre a Lenilton Teixeira, que fazia papel de nosso editor e arquivista (não à toa viraria ator e diretor teatral) e que de vez em quando resgata aqueles anos, como os versos abaixo.

Brasil afora, 3 de julho de 1984

AS ÚLTIMAS
Imagine o que me aconteceu
Ao chegar na terra do Tiradentes
Encontrei dois poetas dissidentes
Me esperando na porta dum motel
O mais alto levou as mãos ao céu
Me olhou com um olhar de sacristão
O baixinho beijou a minha mão
Me puxou, me levou pra um comício
Onde o povo gritava em estrupício
Salve Alex, o consenso da nação

Eu gritei: peraí! Tem um engano
Vocês devem estar equivocados
Pois não sou senador nem deputado
Nem tampouco Tancredo ou Aureliano
Vim aqui pra curtir o meio do ano
Viajar pelas terras das Gerais
Nesses papos não vou me meter mais
Eleição só me trouxe frustração
No Aluá eu gastei meio milhão
E fiquei na suplência dos demais

Foi aí que um crioulo gorduchinho
Conhecido pela alcunha de Bituca
(na cabeça uma touca tão maluca)
Me chamou cochichando prum cantinho
Me explicou já meio embriagadinho
Que eu não tinha razão pra me frustrar
Na verdade, o que houve no Aluá
Não foi nada assim tão anormal
Pois perdi só nas urnas de Natal
Mas ganhei do Chuí ao Jequiá

Realmente fiquei muito espantado
Com tamanha receptividade
Tinha faixas por toda a cidade
Nas paredes, meu retrato colado
Me levaram pro Norte do estado
Onde fiz discursos e cantoria
Debati futebol, filosofia
Rajneesh, macumba e emergência
Sucessão, supletivo, previdência
Recital, receita pra economia

Quarta-feira cheguei na Pauliceia
Fui levado pra pracinha da Sé
Antes disso trouxeram-me café
Com biscoitos melados de geleia
Dei um pau num conhaque de Alcateia
Recebi centenas de jornalistas
Um rapaz com jeitinho de comunista
Perguntou sobre o boo do PDS
Respondi bocejando: oh, yes
Michael Jackson is mallufysta

A viagem tem sido essas andanças
Em contato direto com esse povo
Té aqui não recebi nenhum ovo
Mas apenas sorrisos de crianças
A campanha a cada horavança
Pros otários começo a fazer pose
Ontem mesmo fiquei até às doze
Lendo cartas de apoios importantes
Recebi um poema apaixonante
Assinado pela Roberta Close

Amanhã vou falar no Morumbi
Já se espera record de renda
Vou lançar um remendo pra emenda
Proporei eleições no FBI
Revisão pro leito do Potengi
E acesso do povo ao show de Arrigo
Petrobras não será mais um perigo
Cubatão não terá mais acidentes
Cada tanque de óleo frio ou quente
Vai virar uma escola da libido

Até logo, lembranças pra moçada
Um abraço nos zome do Zumbar
Outro abraço nos gay que encontrar
Um arrocho aí na muierada
Pra você a chefia da bancada
Logo assim que eu for em empossando
Falar nisso vá logo preparando
Um comício lá na Gentil Ferreira
E poe na rua aquela zoadeira
No instante que eu for me aproximando

Abraços sucessórios
Maluf aBluesou e Jazz era
Tixau
(Alex Medeiros)

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