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Dias

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Dácio Galvão
Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal

Doado a causa cultural, Sebastião Dias, fez da vida ativismo artístico. Profissão de fé: literalmente desembainhou a viola do saco e foi para frente de batalhas. Para os infindáveis desafios em duplas. Emplacando embates nos pés de paredes, em festivais… Desfiando estilos: Sextilhas na levada Mourão. Sete Pés na rítmica do Brasil Caboclo. Rimando décimas no Martelo Agalopado… Voz voando nas inúmeras formas de cantorias. Destilando gêneros: Quadrão, Dez de Queixo Caído, Gemedeira, O Que é Que me Falta Fazer Mais, Rojão Quente, Coqueiro da Bahia, No pé da Cajarana… Andarilho das regiões norte, centro oeste, sul e sudeste. Soltava a voz nas estradas e não parava. Militante. Seridoense nascido em Ouro Branco-RN, se radicou em Tabira-PE. O Nordeste era berço. Duelando junto a Oliveira de Panelas, Zé Cardoso, Louro Branco… Nos sertões brabos nas terras de Icó-CE -parte do relevo Depressão Sertaneja- a caatinga arbórea espinhosa foi cúmplice da despedida. Na cantoria que dividiria com a fera Ivanildo Vila Nova… Dias silenciou.


Foi ao encontro de Maria Tebana, Fabião das Queimadas, Dona Militana, Onésimo Maia, Severino Ferreira… e que cantoria não deve ter rolado no céu desses artistas encantados. Que entranharam definitivamente saberes criativos -depositados no inconsciente coletivo- no nosso acervo-memória. Tudo vincado na mais profunda construção de uma tradição constituída. Resistente ao histórico processo de apagamento imposto pela indústria cultural. Manifestações excluídas remando na contracorrente dos meios dominantes de comunicação massa. Nem por isso deixando de ser o tutano. O cerne localista. Fulcrado na contribuição ancestral de povos e povos: dos aedos e rapsodos gregos. Dos bardos célticos. De menestréis medievos. Da joglaria provençal. Do trovadorismo galego-português. Das modalidades de cantadores árabes conceituados por Luís Soler, no livro “Raízes árabes, na tradição poético-musical do sertão nordestino”. É preciso ouvir e conferir o som da viola -ou sitar?- do mossoroense Edísio Calixto. Genuína sonoridade oriental. Em Natal o virtuose violeiro mineiro, Roberto Correa, ao escutá-la ficou muito bem impressionado. Se oriente…


Dias se destacou em duas -entre outras- ações do Projeto Nação Potiguar. Participou do CD duplo “Repente Potiguarino” -que reuniu 44 violeiros- fazendo faixa com Zé Monte no Meio Quadrão: “Quando eu disser meia quadra / Você diga quadra e meia / Quando eu disser quadra e meia / Você diga que é meio quadrão”. E esteve no Desafio de Repentistas Potiguares no palco do América FC quando cantou com Domingos Matias. Presentes: Zé Cardoso, Antônio Lisboa e Chico de Assis. Gilson Pessoa, Zé Ribamar, Miro Pereira e Zé Gomes. E Sebastião da Silva-PB. Viajante no cancioneiro popular S. Dias compôs a “Canção da Floresta”. Gravada por Fagner & Zé Ramalho. Numa pegada étnico-ambiental: “Tombam árvores, morrem índios / Queimam matas, ninguém vê / Que o futuro está pedindo / Uma sombra e não vai ter / Pense em Deus, alertem o mundo / Pra floresta não morrer”. Há anos reverberávamos: -a voz metálica do paraibano Valdir Teles e a potente do ourobranquense Sebastião Dias -sem plugins, mas ao vivo e em cores- eram as mais bonitas em cantorias. Essa dupla etérea pode ser associada aos fragmentos de um poema concreto -1953- de Augusto de Campos: “dias dias dias / sem uma linha / expoeta expira / fim confim sim / não partas.”.

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