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É preciso desarmar os ressentimentos

Valério Mesquita
Escritor

O conhecimento e as razões dos fatos da vida pública nós já temos. Mas, qualquer pessoa que procure entender é suspeito de estar contra eles. Não temos nenhuma ideia preconcebida sobre as pessoas e as coisas que nos rodeiam. Não serão as versões de terceiros que irão impedir que tenhamos nossa própria opinião. O orçamento estadual para 2024, por exemplo, foi tão convulsivo que não impediu que fosse desligado o redutor de ansiedades. Mas é isso mesmo, em estado depressivo foram criadas sinfonias, poemas comoventes e pinturas imortais. Da maneira como o legislativo concebeu e aprovou desembocou em questionamentos. Virou para o executivo potiguar um monólogo shakespeariano: ser e não ter. Passamos a compreender que orçamento público é metamorfose. São constituídos de números cheios de contradições.
Não vamos exagerar a impressão de parecer medíocre, trivial, para ser popular. Quem absolve o político não é o povo, é a confissão. Na complicada arte de governar ser natural é a mais difícil das poses. Nenhum político e/ou empresário são suficientemente ricos para comprarem o seu passado. Quantos não podem dizer “nada anseio, nada temo – sou livre”. Por isso, é que definem dinheiro como adubo: só serve quando espalhado. O escritor Oscar Wilde colocou na boca de um rico, a seguinte frase: “não quero ir para o céu. Nenhum dos meus amigos está lá”. Ora, como no Jardim do Éden, Franz Kafka disse que “a mediação da serpente foi necessária. O mal pode seduzir o homem, mas não pode se transformar em homem”. Delírio kafkeano, delírio, apenasmente…
O homem social hoje virou ambiguidade ficcional. Previna-se o leitor: não confundir amizade social com solidariedade humana. São manifestações caracterológicas do vivente completamente heterogêneas. O egoísmo, a acomodação, modificados pelo tom da luz reinante destruíram o sentimento cristão do mundo. O homem cresce, vive e morre numa jaula, limitado às imposições de sua vida miúda, repleta de frustrações e às circunstâncias. Há pessoas que pensam que não vão morrer nunca. Principalmente os que são ricos ou que, pelo menos, pensam. Assim imaginam muitos empresários, políticos, socialites, médicos, usineiros, juristas e outros nomes, renomes e pronomes suspeitos.
Às vezes, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras no mais profundo silêncio e na mais abominável indiferença. A postura ante o mundo é de desamparo e desalento. Não há lógica própria nessa conduta centrada unicamente na anormalidade do desvio comportamental porque a amizade virou interesse, esbulho, vantagem, lucro.
E eu pensava nesse turbilhão do tempo, dos modismos, que o exercício da amizade fosse contínuo, mas é tão “imortal” quanto a hipocrisia de acreditar nos homens que integram as instituições públicas e privadas (culturais, políticas, empresariais etc). Daí deduzir que toda celebridade no Rio Grande do Norte quando não é célere é celerada. A corrosão cotidiana da busca pelo dinheiro e pelo poder enferruja com rapidez as “glórias e grandezas” de alguns profissionais que se julgam donos do mundo, quando pensávamos justos e coerentes. As mutações históricas dos valores da personalidade humana, ao que me parece, foram provocadas pela “revolução” dos costumes sociais, principalmente o comodismo, a apatia pelo semelhante, o medo de morrer, as fobias e a falta de religiosidade.
Aí, instaura-se um jogo de buscas. O coração desumanizado do selvagem habitante da cidade, que segrega o próximo jamais conhecerá qualquer modalidade de amor, principalmente na noite sem face e derradeira do ataúde, porque em vida foi ausente, insensível, reduzido à condição de bicho. Esse será o calvário do insensato, do que utiliza a política como negócio, como moeda de troca. Vai vagar como Caim na noite gelada do tempo sem jamais achar abrigo. Isso tudo porque desamou os frutos e deixou prevalecer os rancores.

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