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Enquanto passavam…

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Vicente Serejo

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Estou sentado numa mesa que olha para a Rua dos Douradores. Velha e forrada de pedras portuguesas, como as calçadas de Lisboa. Peço um café, e como estou a céu aberto, posso acender um charuto, o único de toda a viagem. Como dizem os cronistas daqui, e eles ainda existem nos jornais diários, é uma tarde estival e cumpre as últimas horas de um outono que vai indo embora. Agora, resta um sol fraco, lavado de chuva, suave e quieto, como a tristeza de todas as despedidas.


Há turistas passando, todos muito bem agasalhados, como se tivessem desejado o frio para a glória exibicionista dos grossos e volumosos casacos e seus xales enrolados no pescoço. Uns, é justo reconhecer, apenas protegem, e talvez seja esta a sua função mais natural. Mas, há aqueles, principalmente nas mulheres, jogados com uma falsa displicência, como se desarrumados e apenas caídos sobre os ombros, com um toque que só muito levemente acentua a sensualidade da graça.

Há muitos brasileiros em Lisboa e não é tão difícil identificá-los. Há um jeito todo nosso, principalmente nos mais jovens. Mais alegre, quase tagarela, de conversas sonoras e olhos jogados para um lado e outro. Os portugueses mais velhos são geralmente sisudos, meio taciturnos, mas não saberia dizer se eles são assim mesmo, ou se há, por acaso, um pouco de tristeza. Talvez um resto da velha melancolia, aquela que parece escorrer dos fados cantados como se fosse lamento.


Acho até que há um novo tipo de português na juventude que explode nas ruas de Lisboa. Já não carrega as rendas românticas dos velhos xales que adornavam a beleza feminina. Bem ao contrário. Há nas moças não mais o recato do início dos anos oitenta, quando conheci a cidade. Os jovens estão muito iguais. Aqui e no mundo inteiro. Como os velhos. A roupa também tem idade. Não é mais a segunda pele, aquela de que falava o teórico Roland Barthes. Agora é a própria pele.


Peço outro café e vou rabiscando o que vejo passar. Estou certo de que esse jeito jovem e universal de vestir-se, de um lado sugere uma uniformidade de adornos, cores, cortes e estampas. De outro, não chega a fazê-las iguais, aqui e em Paris, por exemplo. Há nas francesas o toque de uma certa e bem escondida sensualidade. Como notou a antropóloga Mirian Goldenberg, e ao contrário das brasileiras, quanto mais vestidas mais sensuais as mulheres francesas. É seu mistério.


Depois, e sem querer negar a verdade, a beleza da nudez não está nos olhos, mas na carne. Só a harmonia das formas pode garantir. Diferente da nudez imaginada. De quando os olhos, livres e ousados como são, desnudam e revelam no esplendor da imaginação. Só o desejo, com sua força, inventa deusas. E foi a capacidade de invenção que salvou a humanidade da melancolia que nasceu ainda naquela perfeição do Paraíso. Para fugir, Eva mordeu a maçã. E salvou a vida de todos nós.

Palco

RENDIÇÃO – De um deputado independente, depois de três anos de mandato: “A Assembleia foi o segundo gabinete da governadora Fátima Bezerra. Desde a sua primeira campanha que é assim”.

PAGA – O Tucanato estadual paga o preço do seu jogo duplo contra e ao mesmo tempo a favor do governo. Inclusive com indicações em todas as instâncias da administração. Não tem posição clara.

PERDAS – Depois, há anos, de dispensar Wilson, seu mais antigo e experiente livreiro, a livraria do Campus perde Adriano. Sem ter incentivo para permanecer, aceitou convite da livraria Leitura.

ABUSO – A cooperativa proibiu que um aluno da UFRN fotografasse a capa de alguns livros. Ora, todas as livrarias do Brasil e do mundo reproduzem a capa dos livros que vende. É uma maluquice.


ALIÁS – A Universidade negou o Centro de Convivência para a tradicional feira dos sebistas que pagavam o aluguel dos stands, mas manteve a feira de artesanato. Quem lá é contra livros usados?

PRELO – O editor Abimael Silva já trabalha na edição, na forma de livro, da reportagem de Osair Vasconcelos sobre o método tradicional da carne de sol que foi publicada na revista Globo Rural.

POESIA – Do poeta Eucanaã Ferraz, verso de abertura do seu poema ‘Monumento’, olhando um leão de pedra, estático, inútil e sem vida: “Nada pode o leão contra a pedra em que está esculpido”.

TRISTES – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama no reinado Safadão, entre cifrões reluzentes: “No jogo da falsa vanguarda a única coisa sincera é o incenso ao poderoso de plantão”.

Camarim

PREGO – O prefeito Álvaro Dias bateu o prego e virou a ponta: só anuncia seu candidato em fins de março ou início de abril. Ele sabe que a força de um anúncio neste instante anteciparia o fim de sua gestão com grandes obras a concluir. O jogo não é para amadores. É duro e nele não cabe erro.

LUTA – Os pequenos comerciantes da Redinha temem não terem o mercado funcionando até fim de dezembro. O verão é o inverno dos que vivem naquele pequeno mundo, ali na embocadura do Potengi. O prefeito precisa controlar de perto a reta final da obra. Até pelo mérito de tê-la erguido.

AVISO – Esta coluna não afirmou, em momento nenhum da nota, que a Assembleia e o Tribunal de Contas podiam obrigar o governo a provisionar as parcelas do 13º salário. Tinham o dever, sim, de procurar saber e deixar a sociedade informada. Afinal é a sociedade que mantém a AL e o TCE.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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