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Escrever, terapia e mística

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João Medeiros Filho
Padre

Em determinados momentos, terapeutas e orientadores espirituais de diferentes matizes psicológicos ou religiosos aconselham pacientes e orientandos a registrar seus sentimentos. Nascem daí poemas, diários, romances, crônicas, autobiografias etc. Um dos propósitos é ajudar a lidar com emoções que assaltam a mente humana. Por vezes, escrever torna-se um instrumento de resistência diante de sofrimentos, que ultrapassam o suportável, ameaçam o equilíbrio psíquico e a continuidade da própria vida. Há milênios, Deus dissera ao profeta Jeremias: “Escreve num livro todas as palavras” (Jr 30, 2).


Assim agiram pessoas, em meio ao horror do holocausto. Na escrita, encontraram um modo de continuar vivendo diante da dor e ameaça de morte iminente. Foi o caso de Edith Stein, convertida ao cristianismo e canonizada pela Igreja Católica. Há o exemplo da filósofa Simone Weil. Faleceu aos 34 anos, legando-nos uma obra de dezenove volumes, destacando-se “Attente de Dieu” (Espera de Deus). Inclui-se, dentre elas, Etty Hillesum, morta com apenas 29 anos, em Auschwitz. Deixou-nos três tomos de um diário e inúmeras cartas, as quais impressionam pela profundidade de suas manifestações místicas. Sua produção literária motivou a brilhante pesquisa de Michael Davide, intitulada “Etty, humanidade enraizada em Deus.” O Diário de Anne Frank foi leitura indicada em colégios religiosos, nas décadas de 1950 e 1960. Anne passou meses escondida no porão de um prédio, em Amsterdam. Durante esse tempo, escreveu suas memórias. Após sua morte em Bergen-Belsen, a obra foi reconhecida mundialmente como um hino de fé na humanidade diante das ingentes atrocidades perpetradas pelo nazismo.


Escrever tem sido o caminho encontrado por muitos para lidar com o sofrimento e o luto. Assim aconteceu com Joan Didion, cuja saúde se fragilizava pela tristeza com a enfermidade de sua filha Quintana. Em seu livro O ano do pensamento mágico, pode-se encontrar reflexões sobre a limitação humana, a doença e a própria morte. Escrevendo, Joan encontrou forças para enfrentar a angústia, a tristeza, o luto e continuar vivendo. Assim conclui: “Sem a escrita, não teria sido possível a superação do infortúnio.”


A escuta de si mesmo, colocada em textos, é algo que o homem pratica, há séculos e em várias circunstâncias. Autores de ficção projetam seus tormentos e inquietudes nos personagens por eles criados.

Deste modo, exorcizam medos e ajudam os leitores a identificá-los, aprendendo a viver com eles. Em situações difíceis, escrever é a maneira que muitos encontram para resistir aos opressores e eventualmente vencê-los. O texto literário carrega a experiência da aflição e do desespero. Registra igualmente a esperança que conserva a vida, mesmo sob a espada inexorável da morte ou destruição. Belíssimos escritos são produzidos por autores em regimes de exceção, ditaduras, exílios, privação de liberdade. Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere emocionou seu defensor Sobral Pinto. Em circunstâncias análogas de prisão, pode-se citar Miguel de Cervantes com Dom Quixote, Oscar Wilde em “De profundis” etc.


Isabel Allende, vendo sua filha em coma, afirmou: “O meticuloso exercício de escrever torna-se nossa salvação.” Quem decide redigir, mesmo sob a arrogância de outrem, reafirma a força da vida, que teima em acontecer sob a navalha da violência. O escrito produz algo que servirá de legado às gerações futuras. Importa gravar as próprias experiências e oferecê-las, como espaço no qual outros poderão refletir suas perplexidades e alegrias. Diante da efemeridade da existência, a escrita é terapêutica por ser algo que se fixa para não desaparecer. Nos casos mencionados, a morte ou o tempo interrompeu a vida, mas o texto faz reviver seus atores e autores. O livro não deixa perder na noite do tempo preciosas vivências e resistências. Com ele, outros aprenderão. A leitura será uma visita dolorosa ou aprazível, produzida por aqueles que viveram e narram os fatos. Poder-se-á evitar a repetição de tragédias e dramas. E até criar universos novos, em que a vida triunfe sobre a morte. Jeremias fez dos pergaminhos sua grande terapia, clamando ao Altíssimo: “Cura-me, Senhor, e ficarei curado. Salva-me, e serei salvo, porque Tu és a minha glória e meu refúgio” (Jr 17,14; 16).

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