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Essência da amizade

Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

As ações humanas são definitivas. As circunstâncias e o conteúdo, entretanto, impõem-lhes uma diferenciação. As que se perdem na poeira do tempo por não criarem laços. Não se projetam no infinito. As que se perpetuam e se perenizam, exatamente por adquirirem uma dimensão universal. Pouco importa o cenário de sua germinação: um lugar recôndito, ignorado, anônimo, isolado, adstrito a duas ou poucas pessoas, ou o ambiente febricitante em que uma coletividade, pequena ou grande, testemunha a grandeza da condição humana. Há um sentido que irmana essas manifestações: a solidariedade, a força da doação de uns pelos outros, a partilha de coisas e sentimentos. Eis o fundamento da sentença de Jesus: “não há prova maior de amor do que dar a vida pelo irmão” (o semelhante). Essa é a amplitude insuperável, inesgotável, ilimitadamente justa da vida, vida e eternidade. v silêncio, ternura e paz. Os homens dormem ou vigiam na noite. Por diversas e múltiplas razões. Na cidade coexistem e conflitam provincianismo e cosmopolitismo. Mas as circunstâncias da noite são universais. Ernest Hemingway, ícone da “geração perdida”, Nobel da literatura, dizia que a intensa prática do amor em Paris, genialmente devassada nos contos de Guy de Maupassant e Colette, não sobrepunha, em mesma coisa, a mais ignorada aldeia da África. Contraponto entre dois livros excepcionais, que perscrutaram a intimidade de paixões, conflitos e perplexidades do homem: “O sol também se levanta” e “As neves do Kilimanjaro”. Sua abrangência universal ainda não se esgotou. É atualíssima. A genialidade do escritor, em todos os tempos, reside em sua capacidade ou dom para desvendar a complexidade e a multiplicidade de caracteres da condição humana. Cada vez em que o gênio realiza essa imersão, projeta a dimensão dos vínculos e das relações humanos. William Shakespeare tipificou exuberantemente essa vocação.
Antônio Maria, Nelson Rodrigues, Rubem Braga e Fernando Sabino, para não falar na ousadia pioneira de João do Rio, pinçaram, detectaram e revelaram dramas, tragédias, romances, “causos” e deslumbramentos da noite carioca. Dissecaram a condição humana que ali predominava, revelando-a como ela é. Como dizia o mestre Cascudo, a natureza humana se impõe pelos sentimentos. Enfim, conclui-se que o homem é o mesmo. Em qualquer tempo e lugar. O que o distingue e o consagra, em toda a vertente dos tempos, é seu ilimitado potencial para amar, reunir, convergir, harmonizar, partilhar e sonhar. A solidariedade de uns com os outros, sem condicionamentos egoístas e materiais, é privativa dos que amam Deus e a vida. As relações humanas explicitam, assim, esses laços indestrutíveis. Eis sua verdadeira e incontrolável finalidade: ampliar a espiritualidade entre os homens. Abrir-lhes caminhos de sua ascensão espiritual, cultural, ética e moral. É um processo de interação sem fim. A dignidade implica em ter consciência da efemeridade de coisas materiais. Nelas reconhecer um meio com limites éticos e morais. Identificar no outro a si mesmo, a quem Jesus chamava de “o próximo”. A amizade é uma irmandade por escolha. Opção do livre arbítrio. Convergência entre o mundo e a vida. É busca sem fim do sentido da vida. Sobretudo nas turbulências atuais, que revelam dramática e tragicamente o contraponto entre o bem e o mal. A humanidade, diante disso, está confusa, perplexa e intranquila. Muitos, em escala universal, são dominados por medo e desesperança.
Levantei-me da cadeira de “papai” às três horas da manhã. Subitamente, vi na estante um dos livros mais belos, expressivos, cativantes e profundos já lidos: “As grandes amizades”, de Raissa Maritain. Também um dos preferidos dos queridos e saudosos Sanderson Negreiros e Ivoncísio Medeiros. Aquela inesperada circunstância significava algo além do momento vivido. Remetia-me a pensar, avaliar e sentir o peso e a contribuição das grandes amizades. Não somos o que somos por nós mesmos. Desde o nascimento partilhamos, desfrutamos e incorporamos laços que não se medem nem se exaurem. Dão corpo e substância, pouco a pouco, à percepção de que o amor não é individual, egoísta. É coletivo. Na madrugada, quando terminei de digitar este texto, o dia exibia mais uma explosão de vida. Os primeiros ruídos romperam o silêncio. A claridade, ainda tênue da manhã, revigorava sonhos e esperanças. Infundia-me uma energia inebriante, incontrolável, que envolvia a alma e o coração. Solitariamente, eu, apesar de tudo, estava em paz comigo mesmo.

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