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Êxtase proustiano

Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN
  
A cidade dorme. Seus encantos se revelam aos pastores da noite. Uma chuva cai sobre Natal. Derramam-se sobre a cidade lágrimas do céu. Partilho sentimentos e imaginação com o silencio, entrecortado por vozes imaginárias, do vento forte em contacto com as telhas das casas, das folhas das arvores e das pétalas de rosas. Vento disputando com o ruído da chuva essa forma de devassar e perturbar a calmaria de sonhadores e noctívagos incuráveis. Fui surpreendido no ato de ler e sonhar de olhos abertos. Sanderson Negreiros, semeador de amizades e navegante ousado, insatisfeito e singularmente ávido de conhecimentos, fascinado pelos mares revoltos da literatura e da filosofia, do memorialismo, da poesia e da crítica literária, sugeriu-me, anos atrás, a leitura de um livro primoroso e original: “As obras-primas que poucos leram”, organização de Heloisa Seixas. Artigos de notáveis da cultura brasileira, publicados na “Manchete” entre 1972 e 1977.  A literatura também era essencial à revista.
Estou em estado de êxtase. Releio artigo de Paulo Mendes Campos sobre “Marcel Proust e “Em busca do Tempo Perdido”. A chuva realizava em mim uma transposição. Relembrava, mais uma vez, Saint-Exupéry contemplando do céu noturno os pampas argentinos em seu frágil avião. Pontos de luz lhe revelavam vida, sonhos, sentimentos, esperanças e dignidade humana de tantos quantos ali habitavam. Crianças com a face da pureza absoluta. Jovens com o semblante da esperança e do destemor. Homens e mulheres que albergavam o amor, distribuindo-o como semente infinita de Deus. Velhos que contemplavam o passado com a singeleza do carinho e descortinavam o futuro com a luz da fé. Essas circunstâncias revigoraram-me a convicção de que aquilo que é grande no homem alimenta indefinidamente sua grandeza. As coisas materiais, infelizmente objeto de injustiça, ódio, mentira, ressentimento, ambições, fraudes, intrigas, medo, traições, ingratidão, solércia, rapina e felonia, geraram no homem e nas civilizações retrocesso espiritual. Assim voo e contemplo a cidade de hoje e a da minha infância. Em clima proustiano.
Eis-me na cidade provinciana, de jardins e sonhos que animaram a minha geração. De sinos que repicavam dos campanários logo cedo. Cidade cujas casas, grandes e pequenas, sobrados e casebres, ostentosas e humildes, possuíam jardins de jasmins, margaridas, dálias, “sorrisos de Maria” e alecrins. Aroma peculiar afetava o humor das pessoas. Enquanto “bem-te-vis”, andorinhas, beija-flores, “galos” de campina e sabiás cantavam. Era um pomar germinado pela natureza. Infundiram a certeza de que “quando o homem sonha o mundo pula e avança”. A dimensão humana se revelava em extensão e perenidade dos laços de uns com os outros. Eram visíveis os primados do Homem sobre os egoísmos. A existência era legitimada pela percepção e busca de uma felicidade simples e cristã. Imune a rivalidades, disputas, cobiças e vaidades. As contradições existiam como algo previsível em qualquer agrupamento social. Nada abalava ou erodia esse estado de espírito. Não havia miséria, mas a pobreza de muitos não lhes suscitava infelicidade. Manifestava-se o que o sociólogo André Trevoidjré, em seu livro “Pobreza, riqueza dos povos”, definiu como parâmetro divisor entre a dignidade e o aviltamento da condição humana. Havia mobilidade social. A acomodação não sofreava anseios individuais. A face da pobreza não violentava a dignidade de ninguém. É possível que tudo começou no primeiro governo de Alberto Maranhão. Cursos noturnos para adultos (da alfabetização ao ensino básico completo) foram oferecidos. Talvez pioneiros no país. Não havia violência. Vagueava-se a pé pela cidade de madrugada sem risco de assalto. Poetas, seresteiros e trovadores transpunham os limites da madrugada. O silêncio era rompido por cânticos distantes…       
Pessoas, acontecimentos e circunstâncias inundaram o meu ser. Essa nostalgia me suscitou máxima que André Gide proferiu através de Jacques em “A sinfonia pastoral”: “aquele que é fiel nas pequenas coisas sê-lo-à nas grandes”. Como a vida seria se os homens valorizassem o Ser e não se submetessem ao Ter? A violência atual emerge da injustiça e do ódio. Mas a vida é amor. sua essência imperecível.    

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