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Grandes amizades

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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

 
A percepção e o entendimento do mundo e da vida se ampliam com o passar dos anos. George Bernard Shaw, gênio universal em dois séculos (1856-1950), identificava na mocidade e nos primeiros tempos da idade adulta a predominância de sentimentos, emoções, ideais, sonhos e preferências subjetivas, que revelam um estado de espírito ou de circunstâncias psicológicas. Mas ressalvava que nada no comportamento humano é absoluto, definitivo, imodificável, irreversível. Pois um dos traços da condição humana é ser imprevisível, surpreendente, indomável. Mesmo assim, exaltava a maturidade e a velhice, distinguindo-as da senilidade ou decrepitude. A maturidade é o tempo em que a pessoa se despoja de uma série de condicionamentos, legítimos ou ilegítimos, pessoais, egoístas, susceptíveis de afetar sua visão das coisas e da vida. Ingressa em nova fase da existência.

Pode desfrutar plenamente de um atributo, dádiva de Deus: a plena lucidez, que descortina a eternidade e o amor sem fim. Assim o homem ergue dentro de si o templo da morada de Deus. Erradica ódios, vaidades, orgulhos, mentiras, falsidades, hipocrisias e crueldades. O “homem novo”, preconizado por São Paulo, exorciza seus egoísmos. Distingue o efêmero do permanente, o falso do verdadeiro. Alcança dimensão transcendental.
A madrugada avança e cobre a cidade com seu manto de silêncio, ternura e paz. Deliberadamente busquei essas circunstâncias para chorar a perda do meu amigo e irmão Ivoncísio Medeiros. Enquanto os homens dormem ou vigiam na noite, assomam em meu coração, em minha saudade e minha memória, os laços que plantamos ao longo de nossas vidas. Convergência espiritual, que partilhamos com tantos quantos nos relacionamos no percurso existencial. Não se perdem nunca os vínculos que emergem de sentimentos, ideais, percepções, valores e buscas sem fim. Tudo isso transpõe os limites  do visível e se projeta na eternidade. Na nossa querida cidade, cenário e circunstância das nossas vidas, ainda hoje coexistem e conflitam provincianismo e cosmopolitismo. Fenômeno comum em qualquer parte do mundo. Pois o homem – dizia Ralph Linton – é um ser portador de cultura. Carrega consigo, por toda a vida, os valores e as tradições de mundo do lugar de origem. Mesmo agregando, posteriormente, outras concepções e se submetendo aos novos condicionamentos do lugar onde viva. Ernest Hemingway, ícone da “geração perdida”, dizia que a intensa prática do amor em Paris, genialmente exibida em contos e novelas de Guy de Maupassant e de Colette, não sobrepunha a mais recôndita aldeia da África, abrigando primitivamente os mesmos sentimentos. Contraponto objeto de livros excepcionais, que imergiram na intimidade de paixões, conflitos e perplexidades: “O sol também se levanta” e “As neves do Kilimanjaro”. Sua dimensão universal é atualíssima. Mas não nos esqueçamos que os personagens de Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Mário Vargas Lloza, Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, entre muitos e muitos no cenário literário da América Latina, também vivenciam relações que abrangem a humanidade em todos os tempos. 


 Antônio Maria, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, para não falar na ousadia pioneira de João do Rio, pinçaram e descreveram dramas, tragédias, romances, “causos” e deslumbramentos da noite carioca. Dissecaram ali a condição humana, desvendando-a plenamente. Dizia o mestre Cascudo que a natureza humana se impõe pelos sentimentos. Enfim, o homem é o mesmo em qualquer tempo e lugar. O que o distingue, consagra-o, é sua ilimitada capacidade de amar, reunir, convergir, harmonizar, partilhar e sonhar. A solidariedade de uns com os outros, sem condicionamentos egoístas e materiais, é privativa dos que amam Deus e a vida. As relações humanas residem em laços indestrutíveis. Abrem caminhos de ascensão espiritual, cultural, ética e moral da humanidade. Nesse processo de interação inesgotável cada um identifica no outro a si mesmo, a quem Jesus chamava de “o próximo”. A amizade é uma irmandade por escolha; exercício do livre arbítrio. É convergência. É busca conjunta do sentido da vida. Estas citações e reflexões a elas inerentes compuseram o vagar humanístico de Ivoncísio Medeiros. Cidadão do mundo, escritor, historiador, pesquisador, professor, mas sobretudo e principalmente amigo e devoto incondicional da dignidade humana. Tudo nele foi partilha sem fim…


Levantei-me da cadeira de “papai” às três horas da manhã. Subitamente, vi na prateleira um dos livros mais belos, expressivos, cativantes e profundos já lidos: “As grandes amizades”, de Raissa Maritain. Também um dos preferidos de Sanderson Negreiros e de Ivoncísio Medeiros. Neste momento avalio o peso e a contribuição de grandes amizades. No decurso de 30 dias dois amigos se foram: Ticiano e Ivoncísio. O que dizer? Não somos o que somos por nós mesmos. Desde o nascimento sedimentamos, desfrutamos e incorporamos vínculos que não se medem nem se exaurem. Dão corpo e substância, pouco a pouco, à percepção de que o amor não é individual, egoísta. É coletivo. Quando terminei de extravasar no computador o meu sentir, o dia exibia mais uma explosão de vida. Suas cores se refletiam nas plantas, nas árvores, nos pássaros, nos rostos dos homens, nos céus. Rompeu-se o silêncio. Eu estava em paz comigo mesmo. Senti-me fortalecido por laços perenes e eternos.

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