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JÓIAS

Dácio Galvão
Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal

Na minha frente saltam aos olhos dois exemplares de livros disfarçados de plaquetes: “Um Panfleto para Godard” de Moacy Cirne em segunda edição de 2023. Sendo o número 03 de um total de 55 exemplares. O outro a tradução de “Nesgas de Terras Vermelhas”. Poéticas de Alice Corbin Henderson em tradução de Victor H. Azevedo. Também número 03. Tiragem de 100 exemplares numerados. Publicações que se assemelham as da paranaense Galileu Edições. Que publicou várias “extraduções” de Augusto de Campos. Renomeações textuais de Emily Dickinson, Rimbaud e Sylvia Plath. Primeiras tiragens de apenas 30 exemplares. Prato cheio para bibliófilos.


De cara -Panfleto e Nesgas- se destacam no refino da programação gráfica. Nas capas as cores de fundo são os pigmentos dos próprios papéis. O preto em tom de grafismo indígena -navajo, asteca, tolteca, maia… – impresso no cartonado vermelho. Ou o preto da tipologia artesanal pulsando sobre cartão creme. Contrastes na linha de Wlademir Dias-Pino. Perceptível na seleção que fez -de sinaléticas, geometrias…- junto a João Felício dos Santos em “A marca e o logotipo brasileiros”. Pontapé para seu projeto da Enciclopédia Visual Brasileira. Consta posfácio do ex-ministro da Cultura Antônio Houaiss. Tradutor do Ulisses, de Joyce. Delicadas costuras manuais se mostram externas partícipes do design capista. Aplicadas em pontos largos e amarradas em nós no interior de páginas. Livros-objetos podem atrair sentimentos distintos. Em certa ocasião um amigo narrando andanças parisienses -sem nenhum domínio da língua francesa- resolveu adentrar uma livraria. Especializada em autores culturalmente consagrados. Se surpreendeu ao folhear, mirar e aspirar sentidos olfativos de livros absolutamente inesquecíveis. A histórica vanguarda artística europeia tradicionalizou e influenciou os denominados “livros de artistas” no Brasil.

Oswaldo Lamartine de Faria etnógrafo-escritor se preocupava com o livro resultando em objeto de arte. Além de conteúdos, papel, tipos, formas, créditos… a tiragem limitada. Farejava o rareamento. Mesmo sem ter levado a efeito idealizou por duas vezes o “Indez da Ema”: Coletivo de Escritores interessados em Bibliofilia.

Tanto Moacy quanto Alice nasceram em terras montanhosas distante do litoral. Ele no Caicó sertão arcaico. Da viola e do repente. Ela em St. Louis de penhascos e cavernas arqueológicas. Do blues, jazz e ragtime. Cidades banhadas por rios: Seridó-Barra Nova e Mississipi-Missouri. Ambos por razões diferenciadas vivenciaram cidades. Nelas se identificaram: Rio de Janeiro e Chicago/Santa Fé capital do Novo México. Sem desvinculação de seus chãos originários. Os editores potiguares da Munganga Edições -Ayrton Alves Badriah e Victor H. Azevedo por vias paralelas buscam uma tal literatura que pode ser epigrafada por Jean Luc-Godard: “Um caderno não existe sem margem. A margem é um lugar necessário”. Esses dois livros cosmopolitas -a margem das margens- exemplificam literatura empenhada como conceituou Antonio Candido. E essa consistência implica em editoração qualificada. Produssumo. “O mundo do consumo substituído pelo mundo da informação, onde se travarão as grandes lutas”!

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