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Mulheres natalenses

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Oito de março foi o Dia Internacional da Mulher, anotado nas redes e camas sociais. Pelo que andei olhando pra fora da janela não vi nenhuma comemoração nesta aldeia cascudiana. Nem mesmo em Igapó, do outro lado do Potengi, onde nasceu Clara Camarão, dos nossos grandes vultos femininos.

A memória, ainda em atividade, me levou a uma saudação que fiz à escritora Clara Ramos que andou por Natal em novembro de 1992, participando de um seminário em homenagem ao centenário do nascimento do seu pai, o grande Graciliano Ramos. O evento foi promovido pela UFRN, na gestão do reitor Geraldo Queiroz. As palestras e conferências estão reunidas no livro “Graciliano Revisitado”, organizado por Eduardo de Assis Duarte e publicado em 1995 pela UFRN.


Na minha saudação a Clara Ramos faço referências a duas mulheres natalenses citadas por Graciliano em seu livro “Memórias do Cárcere”. Começo a minha fala assim:


“Memórias do Cárcere” tem a mesma importância da obra ficcional de Graciliano Ramos. É difícil dizer qual a mais importante das duas. Do memorialista ou do romancista. Em ‘Memórias do Cárcere’ há páginas inteiras ligadas ao Rio Grande do Norte. Na minha primeira leitura identifiquei várias figuras do meu cotidiano. Isso me emocionou muito porque eu estava encontrando nas páginas do livro pessoas com quem eu conversava quase todos os dias, amigos do meu pai. Eram os revolucionários de 35.


A palavra ‘revolucionário’ me levava a indagações curiosidades do adolescente. Vocês sabem que o livro “Memórias do Cárcere” é a história fracassada da revolução comunista de 1935, em que Natal foi um dos três palcos brasileiros, conta a prisão de Graciliano Ramos, em Maceió, de sua viagem no navio prisão para o Rio de Janeiro e depois para Ilha Grande. É um painel que mostra os personagens que conviveram com ele durante anos de prisão. São personagens reais da História do Brasil. E entre eles há inúmeros natalenses, sendo duas mulheres.


Essas duas figuras de mulheres vão se apagando da memória de todos nós. E eu me pergunto: por que os pesquisadores do Rio Grande do Norte ainda não se debruçaram sobre a vida dessas duas mulheres? Chamam-se Leonila e Maria Joana. As duas viajaram presas no porão do navio Manaus. No livro de Graciliano tem uma cena marcante envolvendo as duas. Ele descreve o porão, que ele chama de curral flutuante, com as redes armadas em zigue-zague, a sujeira, o fedor, o calor sufocante, as pessoas. É quando se depara com Leonila e Maria Joana:


“Duas mulheres achegaram-se. Uma branca, nova, bonita. Uma pequena, cafuza, de olhos espertos. Fiquei sabendo que a primeira se chamava Leonila e era casada com Epifânio Guilhermino”;
Epifânio foi uma das figuras proeminentes da Intentona Comunista de Natal. Comandava um grupo e é apontado, na versão oficial, nos depoimentos da Polícia, como um sanguinário, frio, brutal. Leonila era sua mulher e vestia roupas de homem e andava armada. Era também uma revolucionária.


Graciliano continua a cena dando a palavra a Leonila que apresenta Maria Joana: “Esta é a nossa amiga Maria Joana. Se o senhor tiver negócio com ela, procure o camarote do final. Maria Joana desdenhou a pilhéria. Não se escandalizou. Mostrou seus dentes alvos. Contraiu no sorriso infantil suas pálpebras oblíquas, e se afastaram. ”


Na obra de Graciliano ele é sempre afável, carinhoso quando se refere às mulheres. Verdade, que um carinho meio desconfiado ou meio sem jeito do “matuto” do interior de Alagoas. Quando fala sobre Olga Prestes, diz: “Olga era branca e serena”. Quando fala sobre Maria Verneck, que esteve recolhida na cela 4 do Presídio do Rio de Janeiro, a mesma cela de Maria Joana e de Leonila, além do carinho há uma forte conotação sensual: “O rosto ardente de Maria Verneck. Seu corpo magro, anguloso, de longe adivinhava intensa vibração. ”


Faço essas referências e percorro essas veredas apenas para ressaltar a ligação forte que existe em ‘Memórias do Cárcere’ com figuras do Rio Grande do Norte. E nesta peroração, que já vai demorada, me permitam que eu traga para vocês – e a maioria desta plateia é de mulheres – essas duas mulheres revolucionárias do Rio Grande do Norte. E em nome delas presto a minha homenagem, como professor desta Universidade e como cidadão, a esta revolucionária das letras e das artes brasileiras, que é Clara Ramos. ”

Política Na calçada da política as conversas da semana deram destaque à pesquisa Brâmane/BG no rastro da eleição para prefeito de Natal. O candidato Carlos Eduardo Alves lidera com folga nas duas: Espontânea e Estimulada. Na primeira, aparece com 27,3% das intenções de voto, seguido de Natália Bonavides (PT) com 5%; Paulinho Freire (União Brasil), 4,2%; Rafael Mota (PSB) e General Girão (PL), cada um com apenas 1,8%.
Na Estimulada, Carlos Eduardo encosta nos 40% (39%). Natália Benevides, 18,4%; Paulinho Freire, 13,8%, e o general Girão, 3,6%. Carlos Eduardo, sozinho, tem mais votos do que a soma dos outros 3 candidatos. A pesquisa foi realizada entre os dias 29 de fevereiro e primeiro de março.

Não vota Deu na Folha de S. Paulo, edição de terça-feira, 12:

Pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira mostra que 63% dos eleitores da cidade de São Paulo não votariam de jeito nenhum em um candidato apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A rejeição a um nome vinculado ao presidente Lula (PT) é menor, mais significativa: 42% segundo o instituto.

Helio Galvão Para não esquecer: amanhã, 18, lua em quarto crescente, é o aniversário de nascimento de Helio Galvão (Tibau do Sul, 1916), advogado, jurista, escritor, historiador, dos maiores nomes de nossas letras. Ocupou a cadeira 2 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Faleceu em Natal, no dia 20 de outubro de 1981, aos 65 anos.

Livro Quinta-feira que vem, dia 21, tem o lançamento do livro de Cassiano Arruda: “Jornal de Cassiano Arruda: 50 anos de reportagem”. Será no Thomé Galeria & Bistrô (Hermes da Fonseca, 1062, Tirol) começando às 19 horas.

Sangria Açudes e barragens, públicas e particulares, sangrando nos sertões do Rio Grande do Norte. Entre eles a Barragem Campo Grande, de São Paulo do Potengi. O Rio Potengi descendo de Cerro Corá com cheia sob as bênçãos do Monsenhor Expedito Medeiros, o “Profeta das Águas”.
Há 13 anos não acontecia tal festa.

*Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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