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O futebol e Zé Lins do Rego

José Lins do Rego é um dos mais importantes escritores brasileiros. Seus romances marcaram (continuam marcando) várias gerações de leitores e influenciaram outros escritores. Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, Usina, Fogo Morto, Água-Mãe, Pedra Bonita, Cangaceiros, são referências nobres da ficção brasileira. Também escreveu crônicas, ensaios e memórias. Menino de Engenho, romance de estreia, foi dos meus primeiros livros de leitura, meu primeiro alumbramento literário. Lendo o romance, me vi no próprio Carlinhos, personagem-narrador, menino da mesma idade do menino leitor. O primeiro livro ninguém esquece.

Além da literatura, a outra grande paixão de José Lins do Rego, nascido no Pilar, na Paraíba, foi o futebol. Era flamenguista roxo. Foi diretor do Flamengo e viajou com o clube em excursões pelo Brasil e pelo exterior, presidindo a delegação. Tinha cadeira cativa no Maracanã, onde viu o Brasil perder do Uruguai, na Copa de 50,  assunto de algumas de suas crônicas: “A Copa do Mundo, que se acabou tão  melancolicamente, deu-me uma experiência amarga, capaz de completar as minhas observações sobre o caráter do nosso povo”.

José Lins do Rego não viu a primeira grande alegria do povo brasileiro com a conquista da Copa do Mundo de 1958, jogada na Suécia, pois morreu um ano antes (12 de setembro de 1957). Tinha apenas 56 anos. Deixou vasta e rica obra literária.

Em seu livro Poesia e Vida, publicado em 1945, José Lins do Rego escreveu uma crônica com o título “Fôlego e classe”, da qual destaco alguns trechos:

–  Muita gente me pergunta: mas o que vai você fazer no futebol? Divertir-me, digo a uns. Viver, digo a outros. E sofrer, diriam os meus correligionários flamengos. Na verdade uma partida de futebol é mais alguma coisa que um bater de bola, que uma disputa de pontapés. Os espanhóis fizeram de suas touradas espécie de retrato psicológico de um povo. Ligaram-se com tanta alma, com tanto corpo aos espetáculos selvagens que com eles explicam mais a Espanha que com livros e livros de sociólogos.

– Os que falam de barbarismo em relação às matanças de touros são os mesmos que falam de estupidez em relação a uma partida de futebol. E então, generalizam: É o momento da falta de espírito admirar-se o que os homens fazem com os pés. Ironizam os que vão passar duas horas vendo as bicicletas de um Leônidas, as “tiradas” de um Domingos. Para esta gente tudo isto não passa de uma degradação. No entanto, há uma grandeza no futebol que escapa aos requintados. Não é ele só o espetáculo que nos absorve, que nos embriaga, que nos arrasa, muitas vezes, os nervos. Há na batalha dos vinte e dois homens no campo uma verdadeira exibição da diversidade da natureza humana submetida a uma comando, ao desejo de vitória.

– Os que estão de fora gritando, vociferando, uivando de ódio e de alegria, não percebem que os heróis estão dando mais alguma coisa que os pontapés, cargas de corpos; estão usando a cabeça, o cérebro,  inteligência. Para que eles vençam se faz preciso um domínio completo de todos os impulsos, que o homem que é lobo seja menos lobo, que os instintos devoradores se mantenham em mordaça. Um preto que mal sabe assinar a súmula, que quase não sabe que é gente, assume uma dignidade de mestre na posição que defende, dominando os nervos e músculos com uma precisão assombrosa. Vemo-lo correr de um lado para o outro, saber colocar-se com tal elegância, agir com tamanha eficiência que nos arrebata.

– Vi Fausto, aquele que o povo chamava de “Maravilha Negra”, dentro de um campo, com trinta mil pessoas, com os olhos em cima dele, vencendo adversários, distribuindo “passes” com o domínio de um mágico. Era um rei no centro do gramado, dando-nos  a impressão que tudo corria para os seus pés e para a sua cabeça. Ouvi, outro dia, um torcedor, homem do povo, dizendo: “Ah! como o finado Fausto não aparece outro. Aquele comia a bola”. Aí está bem a imagem verdadeira, a imagem que diz tudo. Comer a bola. É como se a bola só fosse dele, uma comida de seus pés de maravilha.

– O que havia em Fausto é o que há em Brailowsky; é a perfeição da virtuosidade, é o gênio do artista que venceu as dificuldades com mais alguma coisa que o exercício. Fausto não era só o homem feito pelo treino, era o dono de uma fabulosa força nativa. O que dá a Brailowsky a sabedoria não é o cuidado com  sua preparação, é o seu poder de ser da música como um instrumento feito de carne e nervos. Um Fausto não se faz, nasce, projeta-se como obra de Deus.

Do tempo

Fez um friozinho na madrugada natalense, que é do jeito de junho, mas a chuva foi pouca. Apenas 12 milímetros. Isto de quarta-feira para o amanhecer de ontem. No interior do Estado, chuvas finas em uma dúzia de municípios: Tibau do Sul, 9, Parnamirim, 7, Georgino Avelino e Maxaranguape, 6, Baía Formosa, 4,8. Pras bandas do sertão, nada.

Academia

Quem esteve na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, noite de terça-feira, quando da sessão para o necrológio do acadêmico Dom Nivaldo Monte, saiu de lá fazendo rasgados elogios ao discurso do acadêmico e padre José Mário. Outro discurso bastante elogiado foi o do acadêmico Cláudio Emerenciano.

No dia 22 haverá o necrológio de Nilson Patriota. A Academia oficializa, assim, duas vagas. Há mais duas ainda a serem declaradas. Eleições para depois da Copa.

Livro

Hoje, coisa das 11 horas, na livraria da Cooperativa Cultural da UFRN, haverá o lançamento de dois livros de Nelson Patriota: “A estrela canta” (Glorinha Oliveira) e “Colóquio com um leitor Kafkiano” (contos).

Devoto

Entreouvido num desses restaurantes metido a besta, conversa em tom baixo em roda caixa-alta:
– O voto da região agreste ficou muito caro. Anda acima do acertado.

Do Jardim

A confraria do Jardim de Infância reuniu-se noite de quarta-feira na varanda do Bomgustaio. Dominaram o papo a copa e a política. Houve até pesquisa. Pra presidente, ganhou Serra. Marina teve um voto. Dilma, nenhum.

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