sábado, 2 de março, 2024
33.1 C
Natal
sábado, 2 de março, 2024

Marcas sem fim

- Publicidade -

Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Há circunstâncias, sensações, paisagens, manifestações da natureza, que envolvem a alma e o coração dos homens. Por todo o tempo. Não têm fim. Repetem-se ou se renovam na vida de cada um. Condicionam o estado de espírito. Eis uma peculiaridade nostálgica, evocativa, sentimental. Converte-se num elo entre passado e presente. As tradições lhe devem muito como fonte. Busca ou via para juntar, amalgamar, misturar, irreversivelmente, o velho e o novo, a experiência e a ousadia, a sensatez e o arrebatamento, a calma e a ansiedade, a prudência e o destemor, a alegria e o sofrimento, a tranqüilidade e a agitação, a presença e a saudade. Enfeixam a vida.


Érico Veríssimo, prefaciando “O tempo e o vento”, dizia que todas às vezes, vislumbrando os pampas, transportava-se para o passado heróico do Rio Grande do Sul. Irrompia em seu ser a saudade do cotidiano dos que legaram exemplos de bravura e patriotismo à nação. Lutaram e amaram. José Lins do Rego, ao sentir o cheiro da chuva nos jardins do Rio de Janeiro, anos 40 e 50, fechava os olhos, sentindo-se no meio dos canaviais de sua decantada Paraíba. Cenário de seus romances originais, como “Menino de Engenho”, “Usina”, “Bangüê”, “Fogo Morto”. Juscelino Kubitschek, em suas memórias, confessa que, no exílio, em Lisboa, todas as manhãs, invariavelmente, ia ao parque de “Campo D’Ourique”, em frente à “Basílica da Estrela”. Sentava-se num banco para ler. Quando ouvia o gorjear dos pássaros se emocionava, lembrando-se da Pampulha em Belo Horizonte. Mistura de saudade e solidão, serenidade e desencanto, amor e desprendimento, ternura e paz, esperança e ansiedade, confiança e perplexidade.


O mestre Cascudo dava aulas na Faculdade de Direito (Ribeira) nas manhãs de sábado. Em seguida, atravessava a rua para sentar-se num banco em frente à estátua de Augusto Severo. Um dia nos confessou que aquele era um momento de retorno, de evocação, de reconstituição, de nostalgia e saudade do que fora aquela área, então belíssima, bucólica, de primoroso estilo “belle époque”. Mutilada por desvarios da ignorância. Anatole France, em seu romance “Pierre Nozière”, diz que a colheita de uvas na Provence (França) gerou padrões de costumes nas vindimas de todo o mundo. E conclui: eis um ambiente de trabalho e amor, de vida e procriação, de paixões tão vibrantes quanto à claridade e o calor do verão (tempo da colheita). Alexandre Dumas, em suas “Memórias Gastronômicas”, exalta as tavernas visitadas por seus heróis em “Os três mosqueteiros”. Cenário: século XVII. Já consagravam, então, a insuperável variedade da cozinha francesa. Após escrever o romance, tornou-se um gastrônomo.


Domingo, de manhã, tomava café às nove horas. Chovera fininho, inesperadamente, de madrugada. Extasiei-me com o canto dos pássaros, livres e espontâneos. Uma sinfonia pastoral me reconduziu à adolescência.

Lembrei-me da Praça André de Albuquerque nos anos 50. Às 16 horas saía de casa e ia ler Machado de Assis, Eça de Queiroz, Tolstói, Walter Scott, Balzac, Dickens, Dostoiévski, Hemingway, num banco da praça. Pássaros cantavam sem cessar. As árvores encobriam de sombras o lugar. Um vento generoso, aliciante, confortava almas e corações. Ali o genial Machado me apresentou Capitu, o agregado, Quincas Borba, Brás Cubas, Helena, Esaú e Jacó. Eça me tornou íntimo de todos os seus personagens, do Padre Amaro ao Conselheiro Acácio, de Dâmaso ao Raposão, da Titi à Eugênia, o João da Ega, Gonçalo Ramires e Jacinto de Tormes. Gustave Flaubert me arrebatou com a descrição dos jardins de Cartago em “Salambô”. Enquanto Henry Rider Haggard, em “Cruzada – No Reino do Paraíso”, reconstituiu primorosamente a Palestina no século XII. Revelou a admiração e o respeito mútuos entre o legendário sultão Saladino e Guy de Lusignan, rei de Jerusalém. O ambiente integrou a gênese de marcas que a vida não destrói, mas amplia. Sempre…

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

- Publicidade -
Últimas Notícias
- Publicidade -
Notícias Relacionadas