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Marujo

Dácio Galvão
Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal

Semana passada ocorreu a apresentação musical de Jussara Silveira e Sylvia Patrícia. Teatro Castro Alves. Levaram a efeito o projeto lítero-musical “Balada de um Vagabundo”. Homenagem ao escritor Waly Salomão. Título homônimo da parceria musical de WS, Cazuza e Frejat-1985. O poema reapareceria no livro “Qual é o parangolé?”. Sobre Hélio Oiticica. Inventor do penetrável “Tropicália”. O texto de WS sempre espantou por alguma radicalidade. Eloquente. Beirando precipícios: cotidianos filosóficos, neorromânticos. Suscitando o irreprimível. Abundâncias semânticas. Discurso armador de ciladas no qual os disfarces das densidades se estabelecem na conjunção de oralidades frásicas e construções eruditas. Hiperbólico total sem “comedimentos, mesuras e constrangidos”. Proseando a teatralização da vida o textual metafórico se diz no “abismo do homem” e nas “máscaras que ele põe” assinala Antonio Cícero. O marujo lunático -se assinou Waly Sailormoon!- é navegador de mares da musicalização. Conectado nas melodias de Jards Macalé e Caetano Veloso. Adriana Calcanhotto. Lulu Santos e Cássia Eller. Itamar Assumpção…
A revista “Navilouca” editada por W. Salomão e Torquato Neto-1975 é mais que emblemática. Clivagem da produção das décadas alternativas de 1960/70. Interregno do pós-Tropicalismo e Poesia Marginal. Traduziu linearidade fixando feixe luminoso da cinematografia superoitista de Ivan Cardoso e Luiz Otávio Pimentel. Do design gráfico de Óscar Ramos e Luciano Figueiredo. Das participações de Lygia Clark, Rogério Duarte, Duda Machado, Chacal… unindo o concretismo e a estética da contracultura.
WS consta da primeira edição de 26 Poetas Hoje. Coletânea canônica de Heloisa Buarque de Hollanda. Seu livro “ME SEGURA QU’EU VOU DAR UM TROÇO” encontramos numa prateleira de estante metálica-rotatória numa drogaria. Na capa, fotografia de WS e José Simão na praia de Copacabana. Mais Rúbia Mattos. Moradora do Morro de São Carlos. O trio segura faixa com a palavra “FA-TAL”. Remessa ao espetáculo-happening que dirigira para Gal Costa-1971. Fez “Vapor Barato” canção metageracional. Nossa liga foi incondicional. Sempre relendo livraços: Do lado de Dentro. Gigolô de Bibelôs. Armarinho de Miudezas -lançado em Natal, com a presença do autor, pela Fundação Helio Galvão-. Retinas atentas em Algaravias: Câmara de Ecos. Lábia. Tarifa de Embarque. O Mel do Melhor…
Esse leitor drummondiano -conversava excessivo com o itabirano- apontava para releituras “luteranas” da produção do poeta mineiro. Na “milionésima vez” o procedimento atingia uma “aventura adâmica”. No vácuo de literariedade tudo se repete. Aí o espetáculo de Jussara e Patrycia vem ressignificar literaturas em canções seminais. Do discípulo de Arthur Rimbaud e Friedrich Nietzsche. Emplacado em fortunas críticas de Silviano Santiago e José Miguel Wisnik. Francisco Alvim. Antonio Risério, Davi Arrigucci Jr., Paulo Leminski…Assim o “Marujeiro da Lua” permanece.

*Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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