terça-feira, 18 de junho, 2024
27.1 C
Natal
terça-feira, 18 de junho, 2024

Muitas idas e voltas sem se completar a transição

Cassiano Arruda Câmara

A Petrobras é muito grande (e o Brasil maior ainda) para se aceitar como normal que a substituição do Presidente da maior empresa estatal do País, que havia sido uma escolha pessoal do Presidente da República, depois de 13 meses no cargo, fosse somente uma mal querência dele com o Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, (representante do Centrão, ele é do PSD, na equipe de Lula) além do Chefe da Casa Civil, o petista Rui Costa, um ex-governador do Estado da Bahia.

Na verdade, a ação do titular da pasta que engloba a maior empresa brasileira, e do Chefe da Casa Civil, aquele auxiliar mais intimamente ligado ao Presidente, e que geralmente fala por ele, patrocinassem uma ação de queimação de Jean Paul na presidência da Petrobras, processo que começou, sem a necessidade de nenhuma explicação com algum sentido, para justificar o que se transformou numa campanha, que depois de 13 meses determinou a demissão do escolhido pelo Presidente.
Prates representava o PT do RN no Governo (único cargo de relevância), em razão do papel que ele desempenhou, nos quatro anos que substituiu Fátima Bezerra (de quem era suplente), no Senado Federal, e demonstrou conhecimento de petróleo e gás, ao ponto de liderar toda a bancada petista e conquistar a confiança de Lula, que acenou com o cargo no futuro governo para ele desistir de disputar a reeleição.

INFLUÊNCIA DO INVESTIDOR

Paralelamente, o sentimento de aversão ao risco voltava a dominar os investidores da Petrobras, e do mercado brasileiro em geral, após a saída do indicado por Lula para a presidência da estatal e a indicação da ex-ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis) Magda Chambriard.
O anúncio da mudança na presidência da empresa ocorreu um dia após a divulgação dos resultados do primeiro trimestre da Petrobras, cujo lucro caiu 38% na comparação anual, para R$ 23,7 bilhões.
Antes que se configurasse no governo um descontentamento com os rumos da companhia e com a própria gestão de Prates, presidente da Petrobras, mesmo já tendo ficado ameaçado de demissão em outras oportunidades recentes, na mais recente delas depois de um embate público com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, sobre os dividendos extraordinários, cuja proposta de pagamento referendada em assembleia de acionistas acabou ficando como o sugerido pela diretoria comandada por Prates.

MUDANÇA DE CURSO

Contada desta forma a história omite um ponto fundamental: – o Discurso completo de Prates (então com total apoio de Lula) de promover a transição da Petrobras para os novos tempos de energia renovável, com o fim do combustível fóssil já decretado pelo conjunto das nações do planeta.
A visão do mundo financeiro tratou do assunto em seus próprios limites. O Morgan Stanley, por exemplo, apontou que, ao contrário das suas expectativas, o mandato de Prates não foi sustentável em meio ao intenso nível de ruído e conflito com o atual. Com isso, a Petrobras completa o 43º CEO desde a sua constituição, e o 10º na última década.
A impressão que se tinha é que Prates era o homem da transição preparando a Petrobras para a grande mudança, colocado lá com esse objetivo. Mas não era.

  • Quando Lula começou a falar, isso ficou muito claro.

TEMPO DE TRANSIÇÃO

A transição energética não deve escolher tecnologias, fontes ou combustíveis, mas deixar as empresas livres para encontrar a melhor forma de reduzir emissões, disse o presidente Jean Paul Prates numa de suas primeiras entrevistas, com total aprovação de Lula. Esqueceu de dizer que política não se faz sozinho. E ele não conseguiu agregar ninguém ao seu projeto; nem mesmo a companheirada do PT.
A saída de Prates “é uma deterioração da governança da Petrobras e um risco negativo para a tese de investimento”, afirmou o Citibank em relatório, acrescentando que a nova presidente chega “pressionada para cumprir o plano de investimentos e acelerar a expansão o que pode impactar negativamente no pagamento de dividendos da empresa”.
Em 10 anos, metade da receita da Petrobras virá de fontes eólicas, solares e de combustíveis renováveis – e a empresa está se preparando para fazer aquisições já neste ano para impulsionar essa mudança, disse Prates. A produtora brasileira também precisa gastar muito em exploração no país e no exterior para garantir que continue bombeando petróleo bruto ainda por vários anos
Prates disse que o Brasil tem melhores condições para projetos eólicos offshore do que os EUA ou os países do Mar do Norte, e que o desenvolvimento do setor no Brasil proporcionará uma nova linha de negócios para os mesmos tipos de prestadores de serviços que o país utiliza para projetos de petróleo. E não se ouviu uma voz de apoio do PT e muito menos dos petistas do RN.

A TRILHA DE LULA
Na medida que os índices de fritura atingiam Jean Paul Prates, o inviabilizando como presidente da companhia, o discurso de presidente Lula mudou completamente, resumido em dois planos que não haviam merecido qualquer referência, enquanto o PT permanecia calado sem defender o Presidente da Petrobras.
1 – Reativar a indústria naval brasileira, com a Petrobras bancando todos os investimentos. Em abril, a companhia apresentou um plano de investimento de 73 bilhões de dólares em apoio à indústria naval, sem nenhuma salvaguarda para evitar o Mensalão II.

2 – Expandir a capacidade de refino da Petrobras, o oposto da gestão Bolsonaro, que privatizou refinarias. No início de maio, a estatal lançou licitação para a conclusão do Polo Gaslub, refinaria em Itaboraí (RJ) com obras paradas. Conclusão da revista Veja: “A demissão do presidente da Petrobras abre caminho para o governo usar a empresa com fins políticos.”

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

Últimas Notícias
Notícias Relacionadas