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No outro mundo

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Nunca pensei que visitar um amigo seria a experiência de conhecer um outro mundo, nem perto, nem longe, mas diferente de tudo. Já faz algum tempo. Cheguei na hora marcada diante de um vasto blindex, e apertei o que imaginei, pelo jeito, ser a cigarra. Silêncio. Depois de alguns segundos, uma voz, como se viesse de muito longe, dos mais recônditos esconderijos, perguntou meu nome. Disse. Com medo, disse logo o nome todo e ainda ditei, número a número, o CPF.


Era um domingo, de um meio-dia deserto, como se todos ainda descansassem dos dias de luta da semana. A primeira porta se abriu e vi que segundos depois fechou-se, automaticamente, às minhas costas. E abriu-se a segunda. Finalmente, entrei num imenso saguão. Todo escuro, a não ser iluminado por um tênue raio de sol meio encabulado que descia, filtrado pelas frestas de um pergolado muito estreito, se é que as arquitetas de hoje, tão modernosas, ainda chamam assim.

Cada vivente tem a sua hora de viajar a outros mundos. Pelo jeito, estava ali a minha vez. Com cuidado, comecei a caminhar na solidão daquele salão comprido – seria um living ou um hall? – e notei que os focos de luz acendiam no ritmo dos meus passos. A escuridão ia ficando para trás, como se só o futuro merecesse ser iluminado. Poucos móveis, todos planejados, mas como se avisassem, na monumentalidade do grande vazio, que ali começava um outro mundo.


Aquela escuridão programada que nascia e morria a cada passo acabou lembrando uma figura pública da província. Tinha o falso requinte de lançar os mais estranhos proparoxítonos nas conversas. Das palavras comuns, só as inevitáveis. Parece que escandia as sílabas desde o mais profundo das entranhas. Nos elogios, era o mais transbordante possível, e, se descrevia algo trágico, alcançava vibrações tremendas, como se nada pudesse escapar dos guturais cavernosos.


Uns poucos minutos e vi o elevador. Parecia normal. Ledo engano. Os olhos logo foram puxados pelas luzes das teclas e caíram num painel luminoso. Segurei a porta com o corpo, com medo de nunca mais voltar para casa, e fui decifrá-lo. Olhei os números e os avisos, e então pude mais uma vez constatar que a tecnologia pós-moderna é lacônica. Pensei, pensei… e, com toda cerimônia, toquei no número desejado. Ele começou a subir, suave e silencioso como uma nave.


Lá no bem alto da torre a nave pousou, tão calma e surpreendente, feito um módulo lunar, que a porta se abriu. Vi o rosto do amigo e fiquei de coração manso e apascentado. Não confessei meu drama de homem desqualificado para o mistério da vida moderna, e a conversa, de tão boa foi como um velho bálsamo. Quando cheguei em casa, de volta ao meu mundo, tomei um uísque, fumei um charuto e fiquei pensando como a velhice, aos poucos, vai nos deixando medrosos…

Palco

VALOR – Vai a leilão, em São Paulo, uma gravura de Dorian Gray que pertenceu ao acervo de Hebe Camargo. Com o lance inicial de R$ 500 reais. Sob o martelo do leiloeiro James Lisboa.

DUAS – Em fase de estudos, uma proposta do novo arcebispo, Dom João dos Santos Cardoso, propondo a criação de duas Dioceses, desdobradas da Arquidiocese de Natal. Só Roma decide.

MAS – Fontes das mais importantes sacristias admitem que suas sedes seriam em Nova Cruz e Macau. A extensão geográfica da Arquidiocese de Natal hoje torna a sua gestão muito difícil.

ESTILO – A ex-prefeita de Macaíba, Odileia Mércia, ainda procurou assinar a ficha do partido União Brasil para ser candidata a vice na chapa de lá. Pelo desinteresse, logo sentiu o descarte.

MEMÓRIA – ‘Eu Me recordo’, o livro das lembranças afetivas de cinco macaibenses vai ser lançado numa festa no Pax Club de Macaíba, dia oito de março, 19h. Um encontro de amigos.

SAUDADE – Neste sábado, por volta das 11h, diante das águas do Potengi, nos alpendres do Iate Clube, o encontro de sobreviventes e dinossauros do Diário de Natal. Ideia foi de Salésia Dantas.

POESIA – Do poema ‘Remorso’, de Castro Alves, cavando no fundo da alma as dívidas que a memória não deixa pagar: “Mesmo oculto nos véus do infinito / tua sombra te morde nos pés”.

FUGA – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, alisando a memória com a mão da lembrança: “O injusto tenta esconder a injustiça com a tintura do agrado para fugir do remorso”.

Camarim

BRASIL – Este 2024 marca a tradução no Brasil, um ano depois de lançado nos Estados Unidos, do livro ‘O Brasil desperta, de John dos Passos, edição Record. Dividido em oito parte, ao longo de 174 páginas. É um relato da viagem do autor ao Brasil, principalmente àquela Natal de 1962.

AQUI – Hóspede do governador Aluízio Alves, com quem esteve no então Palácio da Esperança, pediu para conhecer Dom Eugênio Sales. Viu a pobreza do Nordeste na sua viagem de carro de Recife a Natal e seu guia foi o advogado José Augusto Othon, o assessor de gabinete de Aluízio.

NAVARRO – Ao jantar na antiga Rampa, conheceu um poeta que foi até sua mesa. “Um poeta ébrio”, como anota, meio malicioso. Mas fica surpreso com a sua cultura: “Revela um espantoso conhecimento da literatura norte-americana”. Era Newton Navarro, embora não tenha nominado.

*Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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