sábado, 2 de março, 2024
33.1 C
Natal
sábado, 2 de março, 2024

O Diabo

- Publicidade -

Vicente Serejo
[email protected]

Foto: Reprodução

Em Lisboa, todos os dias, era agradável descer um pouco a rua ao lado do hotel e ir à banca de jornais e revistas. Não abria cedo. Quase nunca antes das nove. Lá estava sempre a portuguesa meio idosa, cabelos bem grisalhos e desalinhados. Era simpática no trato e por isso deixava que os clientes conferissem sem pressa o que havia de novidade. Lembro de um dia de chuva, quando um senhor pediu um jornal. Ela respondeu com aquele humor meio sisudo: “Virou papa com a chuva”.


Numa das manhãs, vi na ponta da fila de jornais, na parte mais inferior da banca, um título em vermelho forte: ‘O Diabo’. Sobre o ‘i’, uma figura minúscula do Diabo com o seu tridente, encimado, no lado esquerdo superior, por um aviso: “Semanário Político Independente”. E logo depois: “Sai às sextas”. Do outro lado, tudo em vermelho, um aviso sobre a letra ‘o’: ‘Fundado em 1976’. Tabloide com 24 páginas de noticiário entre denúncias formais e duras análises políticas.

Talvez seus traços singulares estejam aqui: foi fundado por uma jornalista, Vera Lagoa, e a diretora também é uma mulher: Cecília Alexandre. Inusitada é a capa na edição que corresponde à segunda quinzena de novembro: a foto do primeiro-ministro de Portugal, Antônio Costa, de cabeça para baixo em toda a página. Acima, a crise da saúde em colapso e, logo abaixo, sobre um chapado vermelho: “O país está farto de socialismo e dos infiltrados em todas as instituições”.


E é forte a presença do Brasil. Um jurista, de nome Antônio Valente, bate duro no ministro Flávio Dino pela declaração ao responder à portuguesa que agrediu uma brasileira no aeroporto de Lisboa, ao afirmar que agora é a vez dos brasileiros invadirem, como os portugueses fizeram em 1500. Classifica como bobagem e cobra do seu governo uma resposta enérgica ao ministro. E atira, irônico, citando brocardo da sabedoria popular portuguesa: “Vozes de burro não chegam ao céu”.


Tem mais Brasil nas páginas de ‘O Diabo’. À página sete, um artigo do advogado Nuno da Costa Nata cita a última história do papagaio Zé Carioca, criação bem humorada de Walt Disney com seu refrão – ‘Só com magia’, para criticar a dança das cadeiras nas eleições proporcionais. Nas páginas doze e treze grande análise sobre o modernismo no Brasil e em Portugal: “Metástase do horror: o projeto revolucionário da arte moderna”, com citações do poeta Menotti del Picchia.


De tintura que mistura os tons de uma visão crítica, mas também anarquista, mas sem omitir o lado analítico do ponto de vista formal, publica artigo-homenagem de um jornalista brasileiro sobre o diplomata Paulo Carneiro, um nome que é uma “referência da vida intelectual brasileira”. E, à página vinte e três, o jornalista Francisco Ribeiro Soares usa como título um velho provérbio da oralidade brasileira: “Esta vida é um caso perdido”. Eis ‘O Diabo’, com as suas boas diabruras.

PALCO

LUTA – Cinco juízes titulares disputam a vaga de desembargador aberta com a aposentadoria da magistrada Joseane Dantas no Tribunal Regional do Trabalho. A eleição vai ser segunda, dia 11.

QUEM – Disputam a vaga os juízes titulares: Isaura Simonetti, Hermann Hackadt, Zéu Palmeira, Manoel Medeiros e Luciano Athayde. A luta é toda silenciosa, mas renhida. E exige merecimento.

VIU? – Por falar em Justiça do Trabalho: o que foi que a corregedora nacional viu em Goianinha quando de sua recente inspeção de rotina? Algo estranho numa instituição que defende o trabalho?

SACADA – Tota, nosso maior especialista em charutos, numa sacada perfeita, teve a ideia de homenagear Câmara Cascudo com uma emissão especial do charuto baiano Jamm. Ainda este ano.

APOIO – Uma homenagem sem fins lucrativos, com vendas sob inscrição prévia, numa ideia que vai contar com o apoio do Instituto Ludovicus. Homenagear a Cascudo é sempre um gesto maior.

FLORADA – Os ipês rosas floram nos morros anunciando a pequena primavera, enquanto nos canteiros da cidade as acácias derramam os cachos amarelos. As sucupiras, tardias, ainda dormem.

POESIA – Do cronista português Bruno Nogueira, puxando do mais fundo da angústia humana a dúvida de descobrir o que resta escondido no mundo: “Quantas primeiras vezes é que nos restam?”.

MEDO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, desnudando a fragilidade da pobre alma humana no seu velho desconsolo: “O medo é irmão da coragem, mas nem todos percebem”.

CAMARIM

RETRARO – O Curso de Comunicação Social da UFRN ficou fora do ranking dos dez melhores cursos nas universidades públicas brasileiras. Este baixo padrão não reflete a boa qualidade da Universidade que ocupa o 15º lugar no Brasil e também o 15º lugar entre as universidades públicas.

EFEITO – Fundado, nos anos sessenta, pelo então governador Aluízio Alves, e federalizada nos anos setenta, o curso não consegue cumprir o ensino do saber-saber e do saber-fazer, mesmo como supridor de mercado. Mestres e doutores, pelo visto, não bastam para formar bons profissionais.

SAÚDE – Pode não ser tão grave, como algumas fontes preconizam, mas não é das mais saneadas a situação da rede estadual da saúde. Como na educação, o governo caminha sem um projeto capaz de garantir eficiência na rede hospitalar em Natal e no interior. Com Lula no Palácio do Planalto.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

- Publicidade -
Últimas Notícias
- Publicidade -
Notícias Relacionadas