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O gosto e o vício

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A verdade é que estávamos ali, naquele fim de tarde, entre o prazer e o vício, provando os goles fortes de um uísque que descia molhado das águas mansas da conversa. Foi quando o amigo saltou, e perguntou: “Pelo que noto você gosta muito de ser jornalista?”. Gosto, respondi. Mas, notei que a curiosidade não acabava ali. Queria saber mais. Se em algum canto escondido da alma ou da carne não vive a frustração de não ter sido um escritor, desses donos da glória.


Vi que era hora de ser sincero. Enfiei a mão no balde de gelo, renovei a dose, e respondi que essa pode ser, sim, uma frustração de quem todo dia trava a luta com a palavra. Mas, cuidei de dizer que o tempo já havia curado o desejo com o unguento do pudor. Cheguei a fazer o vestibular e o primeiro ano de Direito, na UFRN, sonho de Seu Severino ter o filho mais velho advogado. Acabei frustrando. Um tio desembargador luzia nos olhos do meu pai como referência.

Rejane, a namorada, já aluna do curso na velha Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza, levou a culpa. Comecei como noticiarista, na Rádio Rural, 1970. Refogava as notícias locais que chegavam nos boletins oficiais que eram lidas pelos locutores de hora em hora. Cabia a Alderico Leandro as notícias nacionais e internacionais. Ele ouvia num rádio grande e antigo, de bancada, fones nos ouvidos. Um dia, o Diário anunciou um teste de seleção. Aprovado, lá fiquei 24 anos.


Mais de meio século depois, disse a ele o que sempre disse: não sei e não gosto de fazer outra coisa. Sou o sapateiro que não sabe ir além do sapato. De quicé e suvela nas mãos, fui indo e indo, e vou até hoje. Não nego as pequenas aventuras aqui e ali, fora da notícia e da opinião, no seu sentido mais rígido, talvez pela convivência com alguns grandes redatores no velho Diário de Natal. Mas nada que não seja no trato da informação, registrando, ordenando, confrontando.


Jornalista não é escritor nem intelectual. Pelo menos no sentido pomposo que dão aqueles oficialmente reconhecidos e carimbados. Merval Pereira é colunista político de O Globo, seus livros são reuniões de textos publicados antes. Como livro de cronista. Mas, e, no entanto, preside com sua força e altivez a Academia Brasileira de Letras, de Machado de Assis e Joaquim Nabuco. São muitos os pequenos ‘escritores’ desse livro de páginas grandes e soltas que se chama jornal.


Claro que diante deles enfrentamos o desdém e o dar de ombros. Somos até negados, muitas vezes, pelas instituições das quais fazemos parte. Ora, não importa. O nosso único compromisso é com o leitor nessa vida efêmera que joga o jornal no lixo todos os dias, depois da leitura. Somos anotadores de alegrias e tristezas, do bem e do mal. E só. Nosso pobre destino é esse mesmo e não há a quem mandar a conta, se vivemos, perigosamente, entre o gosto e o vício.

Palco

TRISTE – Ainda não foi desta vez que o RN fez ouvir, no palco nacional da política, voz de uma coragem serena. Djalma Marinho foi o nosso último grito em defesa da verdadeira democracia.

ESTRANHO – Alguém, e se há recursos aprovados e empenhados, vem travando, em Brasília, a liberação das parcelas para as obras do Mercado da Redinha e do Santuário da Pedra do Rosário.

JOGO? – Espera-se que os recursos estejam travados por falta de grana disponível e nunca pela ação politiqueira de algum parlamentar petista ou de oposição. Natal não merece essa violência.

AGENDA – O editor Abimael Silva azeita os prelos do seu Sebo Vermelho para relançar duas plaquetes. As homenagens a Câmara Cascudo, Oswaldo Lamartine e Raimundo Nonato da Silva.

QUAIS – Serão devolvidos aos olhos dos leitores o ‘Calendário de Festas’, de Cascudo, e já tão esquecido; e ‘Pseudônimos & Iniciais Potiguares’, de Oswaldo Lamartine e Raimundo Nonato.

MEMÓRIA – As mais de cem laudas do ministro Alexandre de Morais sopram vida numa antiga frase que já circulava nas velhas redações: “Não adianta esconder a verdade. Um dia ela flutua”.

POESIA – Do grande Eça de Queiroz, aquele pobre homem de Póvoa de Varzim, de olhos no mundo moderno: “Há mais civilização num beco de Paris, do que em toda a vasta New York”.

PERIGO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, diante dos exageros de Absalão, o intrépido, contra o casamento: “O perigo não vive na mulher ou no homem. Mora na paixão”.

Camarim

FALSO – Tem alguém enganando o prefeito Álvaro Dias com essa história de que Natal faz um carnaval etnográfico. Basta ligar a tevê: a mistura não tem rosto e não se destaca. No Nordeste, todo o brilho fica com Recife e Salvador, com forte identidade própria. Popular e não populista.

LEMBREM – Câmara Cascudo – o maior etnógrafo brasileiro – escreve: “A primeira coisa que caracteriza o frevo é ser, não uma dança coletiva, de um grupo, cordão, cortejo, mas da multidão mesma, a que aderem todos que o ouvem, como se por todos passasse uma corrente eletrizante”.

OITO – Depois de viver o trágico 8 de Janeiro, o Brasil vive o histórico 8 de Fevereiro, este para demonstrar o perigo da impunidade de golpistas militares e civis. Desde 1964 o golpismo nutre o monstro que tenta trair e subtrair o estado democrático de direito. A baioneta não substitui a lei.

*Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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