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Brinquedo

Dácio Galvão 

[Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural e secretário de Cultura de Natal]

Mês de novembro e as turbinas esquentam nos ensaios do Pastoril da mestra Lídia. Coro de vozes somados aos maxixes, marchas de frevos sanfonados, loas e as figuras em movimentações. Dançam: o Velho Palmeira, a Florista, Libertina, Estrela, a constelação Cruzeiro do Sul…  impressionante a capacidade de renovação e superação que esses artistas populares têm. Em torno de quatro ou cinco gerações se sucedem. Uma minoria vem atuando e mantendo certo padrão da cênica musical. Altíssima é a voltagem na absorção de valores estéticos da representação cênica. Tudo por transmissibilidade mnemônica. Não rola etarismo. Septuagésima, a mestra -aguerrida griô- incorpora naturalmente a vitalidade e receptividade de jovens dançarinas. Algumas delas pré-adolescentes. Lídia é oriunda há mais de meio século do Pastoril que brincava no terreiro de Seu Aristides, uma figuraça bem reconhecida por estímulos aos bailes e folguedos. Ela é mulher preta e potente. Difusora de tradições em Tibau do Sul: Coco de Roda e Drama também entram no repertório. Faz arte de ofício: a renda de Labirinto. É quem articula mobiliza e impõe a disciplina necessária para se obter o melhor resultado possível. Para o canto, dança, coreografia. Acompanha toques referentes as sequências de jornadas que orientam o sanfoneiro. O Palhaço. A Borboleta. Não se apropria de individualidades -antes libera- mas não desiste de fornecer regra e compasso para o coletivo.
Da melhor cepa ibérica a manifestação popular tem resistido às investidas da indústria cultural e consegue se inserir com expressão particular no contexto sacro-profano do ciclo natalino. Conservando raízes originárias reinventou-se no nordeste brasileiro num musical cuja narrativa se apoia obviamente nas canções, partes ou jornadas. Gêneros musicais e conteúdos literários genuinamente orais. Incorpora o maxixe e o requebrado sintetizando certo recorte afro.  Mistura a malícia pueril – “Meu balaio, balaio, balaio… meu balaio mandei fazer / vou arranjar um caroço para fazer você roer” – e a singularidade na santidade de apelo cristão – “…Pois nós viemos foi adorar / Jesus nasceu para nos salvar” -. 

O Pastoril Cabeceiras tem programa exclusivo. Não se apresenta utilizando recurso playback. O legado é advindo da oralidade e é constituído na referência local. Se sustenta na orquestra -sanfona, triângulo e zabumba- ritmando a encenação. Quando o ambiente é propício realiza leilão. Prendas: prato de galinha caipira, prato de camarão, de lagosta, cacho de banana, peixe frito… As pastoras pertencem as classes sociais periféricas. Artisticamente excluídas dos meios de comunicação de massas resistem com vitalidade incomum enfrentando radical e histórico processo de exclusão cultural. São visibilizadas dentro de perspectiva do olhar dominante sob o redutor enquadramento “de folclore”. Em última instância: produto para deleite descartável e eventual. Sem contribuição relevante. Entretanto a etnomusicologia de há muito vem dialogando com a etno dança incluindo esse tipo de contributivo para o caldo cultural diverso brasileiro. O auto do Boi de Reis e a Lapinha provocam enredos identitários dentro de uma perspectiva de retradicionalizações. Estimulam compositores intérpretes: maestro-violinista Osvaldo D’Amore, Danilo Guanais, Antonio Nóbrega, Walter Franco de sinalizações vanguardistas…

* Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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