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Cenas

Dácio Galvão 

[Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural e secretário de Cultura de Natal]
Ações artísticas transcorridas no Teatro Sandoval Wanderley encravado no Alecrim -um bairro popular- deixaram marcas definitivas. Parcas, mas viscerais. Memorial de ressignificações se desdobrando no localismo. Vejamos:
Palco italiano. A banda “Alcateia Maldita” liderada por Raul Andrade em  show incendiário executa “Jumpin Jack Flash”. Emblemática composição assinada por Mick Jagger e Keith Richards. Single dos Rolling Stones, lançado em 1968. Rock and roll e imersão no blues, matizes afro-americanas. A gestualidade corporal de Raul. a marca registrada.  Plateia embaladíssima, vibrava se divertia. Catarse de fãs protagonistas da contracultura potiguar. Espetáculo antológico. O cinegrafista José Casé – recém-chegado da TV Aratu da Bahia- empunhando câmera de 16 milímetros filmava e capturava imagens reveladas em película negativa. Sem trilha sonora. Projetaríamos no “Aconteceu” programa dominical da TV Universitária. Retrospectiva dos principais fatos e notícias da semana. Quase todo conteúdo enlatado. Havia um quadro sobre Literatura & Música do escritor Berilo Wanderley que generosamente nos permitia colaborar. Scripts, escolhas… só posteriormente aferíamos a grandeza do gesto do importante intelectual da cena cultural da cidade. A concessão de espaço para manifestação de uma geração que chegava e queria se expressar. Junto com ele. Grandeza! O Alcateia Maldita estreava na TV! 
Palco de Arena. Marco primeiro da presença de Zé Celso Martinez Corrêa no Rio Grande do Norte. O lendário ator diretor dramaturgo encenador agitador cultural e fundador do Teatro Oficina. Impacto. Na bagagem a adaptação ou encenação de Bertolt Brech, Máximo Gorki, Samuel Beckett, Oswald de Andrade, William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Euclides da Cunha… E voz ativa da antropofagia modernista no país. Zé Celso fez sozinho a performance. Se valeu de câmeras e projeções em tela. Sem pré-texto, improvisou. Evocou a santidade de Baco e o hedonismo em plenitude grega. Filosoficamente ético.  Nudez em crua pureza se expressando como manifesto libertador. Se deslocava ocupando o espaço cênico. Vestia branco e a luminotécnica ressaltava o permanente sorver do vinho tinto. Entre frases-manifestos. Ouvíamos e assistíamos oscilando no humor e na perplexidade reflexiva.  Queria a internet que não havia sido disponibilizada: o mundo podia se conectar com aquele momento! Lamentou. Desse quase-happening decorreria articulações que possibilitaria seu canto-interpretação do poema de Walt Whitman “I Hear America Singing” na tradução de Luís da Câmara Cascudo. O registro fonográfico consta no CD-documento sonoro do RN “Brouhaha – Câmara Cascudo: Poeta e leitor de poesia”. 
Palco de Arena: presença do poeta Fernando Brandt dentro do Projeto Retrato Sonoro. Que contemplaria também artistas do naipe de Tetê Espindola, Luiz Galvão, Abel Silva, Fausto Nilo… Brandt adentrou a cena recitando “Travessia” – poema-canção imortalizado na voz de Milton Nascimento-. Sentou-se numa pequena mesa-cenário e tomando cerveja conversou com os presentes extasiados. Discorreu sobre processos produtivos, o Clube da Esquina, de seus parceiros de inúmeras e clássicas composições: San Vicente, Maria Maria, Promessas do Sol, Saudade dos Aviões da Panair (Conversando no Bar) … 
Ao se despedir do encontro optou por cantar -não recitar- a obra-prima “Travessia”. Foi entoando e se retirando. Público cantando. Aplausos da geral. Inesquecível.
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