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Civilidade brasileira

Diogenes da Cunha Lima  

[ Escritor, advogado e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras (anL) ] 
Ser um povo que tinha a civilidade no seu fazer rotineiro, notadamente nas pequenas cidades, era algo que nos dava um legítimo orgulho. O mútuo respeito entre as pessoas obedecia a um código ético informal. Somos renovados portugueses, africanos, indígenas. 
Quando, numa feira no interior, uma pessoa se referia ao feirante dizia assim: essa menina ou esse menino. Seria um reconhecimento da individualidade, da privacidade do outro. Além disso, a identificação carinhosa de juventude. 
Fosse letrado, médico ou bacharel, nenhum deles deixava de ser chamado de doutor, e a todos como senhor e senhora.  Tudo era aprendido na família, que era ampliada pelo compadrio, indispensável à convivência comunitária. Não havia gesto mais bonito que o de pedir a bênção aos pais e padrinhos. 
A cooperação entre os membros da sociedade era natural, um dever do costume. O mutirão, a ajuda de muitos para enfrentar as dificuldades de cada um. Era trabalho desinteressado de qualquer vantagem, sem nada esperar em troca. 
Durante a pandemia, sentimos ter aumentado a nossa civilidade. Estivemos mais caseiros, apoiados mutuamente. 
A intolerância com quem pensa diferente de nós faz com que adversários se tornem inimigos. O desprezo é manifesto a quem não está do nosso lado. A violência tem aumentado sensivelmente. O que era detectado entre as torcidas de futebol, agora se dá no campo político, na polarização absurda, como se não fôssemos todos brasileiros.
Os agrupamentos sociais parecem ser superiores às normas legais. Não se protege patrimônio público. Enquanto nos países altamente civilizados, o que é da nação é mais do que protegido, é reverenciado, aqui se diz: “é coisa do governo, gaste”! Ignora-se a responsabilidade social. Todos se sentem protagonistas. 
Deveríamos inventar, talvez, outra palavra para significar o Direito. As pessoas acreditam ter somente vantagens, quando o Direito também abriga obrigações e deveres.
Continuamos com a cordialidade, no sentido negativo da palavra que lhe dava Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, ou seja, o individualismo exacerbado, o egoísmo, a ausência do servir ao interesse público. 
Somos cidadãos brasileiros. A cidadania nos dá o sentido de identidade e pertencimento, o dever de fazer o bem. 
O filósofo imperador Marco Aurélio (121 d. C. – 180 d. C.), em suas “Meditações”, ensina: “Dentro de cada pessoa está a fonte do bem. Que deve jorrar continuamente”. É bem fazer justiça a todos. A injustiça perverte quem a pratica. 
Em sua tese de doutorado, o juiz, professor e escritor Jarbas Bezerra defende com brilhantismo inédito que a cidadania é uma ciência, ou seja, é um sistema de adquirir conhecimento, com método científico. 
Um dia o Brasil será uma civilização solidária e exemplar. Com toda a razão, Câmara Cascudo afirma que o melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro. 
* Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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