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O Cristianismo e as elites

Cláudio Emerenciano 

[ Professor da UFRN]
 A condição humana enfrenta, em escala universal, dramáticos, dilacerantes e sombrios desafios. Apesar de fantásticos avanços científicos e tecnológicos, o homem ainda é submetido, aqui e ali, às circunstâncias que aviltam e subvertem o sentido de sua vida. A globalização não revelou nenhum compromisso com a vida. Vida no planeta. Vida do homem. Vida da natureza. Os desdobramentos do “efeito estufa” condenam países pobres a surtos de proporções inimagináveis. Incontroláveis na extensão da fome, miséria e epidemias. O homem é a mais bela de todas as criações de Deus. É, na visão do Cristianismo, alicerçada na pregação de Jesus Cristo, “templo vivo de Deus”. Se Jesus, o Filho de Deus, assumiu a condição humana, redimindo-a, a humanidade ainda não alcançou, nem dimensionou, a plenitude de sua dignidade. Também do seu papel e do seu lugar no âmbito da Criação.
O Cristianismo deflagrou, até hoje, a mais profunda e radical transformação espiritual, ética, moral, política, econômica e cultural na História. Um mundo estribado na escravidão de pessoas e povos, banalizando o mal e a impiedade, degradando a mulher e a família, ruiu ante as verdades universais da “Boa Nova da redenção pelo amor”. Essas mudanças revelaram e projetaram um tempo novo, em que cada ser humano, sem distinção alguma, passou a deter os mesmos direitos e a merecer o mesmo respeito. Desde seus tempos primitivos, a fé cristã proclamou, através do próprio Cristo, suas Promessas. Foi no “Sermão da Montanha”. As “bem-aventuranças”: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus; Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus; Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus, pois assim perseguiram os profetas (santos) que viveram antes de vós” (Mateus 5, 3-11).  A ética e a moral cristãs emergem, inquestionavelmente, da prática do amor, da paz, da verdade, da justiça e da fraternidade.
A solidariedade e a caridade são um imperativo da fé, que lhes são indissociáveis. A Igreja é Santa e Pecadora. Por isso, quando São Francisco de Assis (ninguém imitou o Cristo como ele) se apresentou ao Papa Inocêncio III, pobre, descalço, esfarrapado, de certo modo denunciava a própria Igreja, parte dela descomprometida dos pobres e humildes. São Francisco, no início de sua plena conversão, que o transformou, historicamente, no revolucionário do amor, da caridade e da paz, teve uma visão do Cristo, que o exortou a reconstruir a Igreja. O santo, inicialmente, interpretou aquela convocação em termos literais. Aconteceu assim. Num dia simples, mas muito especial, num momento em que Francisco rezava sozinho na Igreja de São Damião, em Assis, ele sentiu que o crucifixo falava com ele, repetindo por três vezes a frase que ficou famosa: “Francisco, repara minha casa, pois olhas que está em ruínas”. O santo vendeu tudo o que tinha e levou o dinheiro ao padre da Igreja de São Damião, pedindo-lhe permissão para viver com ele. Francisco tinha vinte e cinco anos.
Para reparar a Igreja de São Damião, Francisco pedia esmola em Assis. Terminado esse trabalho, reformou a Igreja de São Pedro. Depois, ele retirou-se para morar numa capela com o nome de Porciúncula. Ela fazia parte da abadia de Monte Subasio, cuidada pelos beneditinos. Ali o céu lhe mostrou o que realmente esperava dele. O trecho do Evangelho da Missa daquele dia dizia: “Ide a pregar, dizendo: o Reino de Deus tinha chegado. Dai gratuitamente o que haveis recebido gratuitamente. Não possuas ouro, nem duas túnicas, nem sandálias…” A estas palavras, Francisco tirou suas sandálias, seu cinturão e ficou somente com a túnica. Desde então, socorria os pobres e cuidava dos leprosos, que eram absolutamente excluídos de qualquer convivência social. Viviam deserdados em grutas. Francisco os limpava e realizava curativos em suas feridas e lesões. Onde houvesse sofrimento, injustiça e desalento, Francisco acorria, chegava com seus discípulos para levar amor, caridade, solidariedade, fé, esperança e paz.
A crise do Brasil emerge, sobretudo, de suas elites. Eis um país predominantemente de fé cristã, cujas elites não a praticam. Escândalos consternam o povo: a promiscuidade ampliou o conceito de crime organizado. Empresas, empresários, executivos e agentes públicos fraudam, criminosa e vergonhosamente, o governo. Debilita-se, como nunca se viu, a legitimidade. Põe-se em risco a credibilidade do próprio Estado. Lamentavelmente. A crise ética e moral precisa ter fim. Impõe-se estancá-la e erradicá-la. A superação da crise econômica e social exige que os agentes públicos, em qualquer nível, submetam-se à rígida e inquestionável lisura no exercício de suas responsabilidades. Não há condições para gastos supérfluos e inúteis. Milhões de desempregados e trinta e três milhões em situação de fome clamam por esperança. A retomada do crescimento é a via para que a nação se reencontre consigo mesma. Ideais, sonhos, sacrifícios e lutas que fizeram o Brasil ontem, não podem ser vilipendiados hoje, sob pena de perdermos a identidade nacional. Os cristãos não convalidam nenhuma forma de violência. Urge debelar e expungir, em todos os sentidos, a cultura do ódio e da violência. Basta de miséria, criminalidade, insensatez, indiferença e hipocrisia infames. Impõe-se exigir, pacificamente, o império do Direito, da Ética e da Justiça. O Brasil precisa de entendimento, harmonia, solidariedade, paz, enfim, AMOR.
* Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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