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Quando fala o coração

Cláudio Emerenciano 

[ Professor da UFRN]

Há um estado de espírito que alcança e domina toda a humanidade. O que configura esse contexto de âmbito planetário? São as perplexidades, as contradições, a violência, a insensatez, a miséria, as injustiças, as disparidades sociais, o ódio, o terror, a insegurança e a ineficácia governamental. Mas, apesar de tudo, subsistem os sonhos, os ideais, a fé, a solidariedade e as esperanças das pessoas em seu hábitat anônimo e solitário. Entretanto Chesterton (Gilbert Keith Chesterton), na monumental “Ortodoxia”, proclamou que o homem somente converge para Deus pelo amor, liame eterno entre o Criador e a Criação.

O homem do nosso tempo – creio eu – está confuso e visivelmente inseguro. Será que vivemos num daqueles retrocessos que Arnold Toynbee, em seu sempre atual “Um estudo da História”, chamou de penosa reversão de expectativas? Será que, mais uma vez, a violência sobrepuja a paz, o ódio dilacera o amor, os egoísmos ignoram a partilha, a insensibilidade soterra a caridade, a injustiça infelicita os justos e a ignomínia garroteia a verdade? Entretanto, em todas as culturas e lugares, há heróis que, cotidiana, rotineira, resoluta e incessantemente, são artífices do bem. Exercitam o amor como exclusiva forma de viver. Universalmente. Como Gandhi, João XXIII, Santa Teresa de Calcutá, João Paulo II e o Papa Francisco. E, no Brasil, destacadamente, Santa Dulce dos Pobres. Suas atitudes e seus legados aproximam os homens da obra da Criação. Vidas que testificaram: “Deus é caridade, Deus é amor”. Eis o testemunho universal do amor. Sem limites de qualquer natureza. Sem vacilações.

O amor, a humildade, a força da fé e a paz são atemporais. Desde o patriarca Abraão até aos nossos dias. Akennaton, no Egito, quase dois mil anos antes do Cristo, teve a percepção e a fé de que o universo é obra de um único Deus e do seu amor. E como tantos depois dele na História, foi imolado por sua transcendental concepção do mundo e da vida. Suas ações, sua caminhada e visão de vida se projetam na posteridade. Pesquisas e livros de Christian Jacq e Mika Waltari, entre muitos outros, comprovam que as crises de desagregação ética, moral e cultural, ainda na Antiguidade, foram revertidas por testemunhos de amor, fé e solidariedade.  Pois nada supera o amor. O amor não morre. Ascende ao infinito. 

Reverencio um homem simples, rústico, humilde, muitas vezes arrebatado, frágil e contraditório como qualquer um. Durante algum tempo, falava e lia precariamente sua própria língua, o aramaico, um dialeto do hebraico. Inseguro e, em certas circunstâncias, subjugado pelo medo. É um dos meus grandes heróis: São Pedro, o Apóstolo. Nele se conjugam quase todas as características da condição humana. Inclusive a faculdade de arrepender-se, pedir perdão e ser clemente com os outros. Talvez por isso, em Roma, uma das minhas primeiras visitas, invariavelmente, é à Basílica “San Pietro in Vincoli”. Seu acesso é facílimo pela Avenida Cavour. Em frente ao Hotel Palatino, onde me hospedo. Uma escadaria  leva diretamente à sua porta lateral. Pedro, após ser preso no Circo Máximo, onde desafiou Nero em defesa de cristãos a serem devorados pelas feras, foi levado à Prisão Marmetina. Lá se encontrava preso outro Apóstolo, Paulo de Tarso. Mas não se reviram. Duas correntes o prenderam. Após sua crucificação no monte Vaticano, dois escravos, libertos e convertidos, levaram as correntes para as catacumbas de São Calisto. Depois as transferiram para Constantinopla (Bizâncio). Voltaram definitivamente para Roma. Nessa Basílica se encontra, também, o “Moisés” de Miguel Ângelo que, em termos de escultura, juntamente com a Piettá e o Davi, são monumentais obras-primas. Dizem que Miguel Ângelo entrou em êxtase ao contemplar a própria obra. Então, com o cinzel, aplicou-lhe um golpe dizendo “fala Moisés”. Até as veias do corpo são perceptíveis. Quem a contempla com fé, sente-se arrebatado. 

São Pedro era dez anos mais velho do que Jesus. O Anno Domini (ano de nascimento de Jesus) teria ocorrido dois anos antes do 1º ano do Calendário Gregoriano.  Jesus teria sido crucificado no ano 31 e não no ano 33 da nossa era. O Apóstolo foi crucificado de cabeça para baixo no ano 67 d.C., provavelmente com 79 anos. Não há detalhes do seu martírio. Mas cristãos documentaram suas palavras no Circo Máximo, denunciando Nero e confortando os mártires: “Paz aos mártires. Paz a eles. Leve seus filhos, Senhor. Entorpeça suas feridas. Suavize a dor. Dê-lhes força, Senhor. Abençoados sejais vós, filhos que morrem em nome de Jesus. Saibam que, ainda hoje, estarão com Ele no paraíso. Aqui, onde Nero reina hoje, Cristo reinará eternamente”. Eis um momento sem nome. Fusão de vida, amor e fé. Sobretudo a face do amor. Ante tantas perplexidades, impõe-se refletir e vivenciar a paz.  

O pescador da Galileia  percorreu quase todo o mundo antigo. Conviveu com São Paulo nas comunidades cristãs da Grécia e em Jerusalém. Foi ele quem, pacientemente, prestou a S. Paulo e a S. Lucas informações que constam do Evangelho segundo Lucas e dos Atos dos Apóstolos. Tiveram divergência, mas depois convergiram: judeus e gentios foram igualados por Jesus. Aquele homem simples, de mãos calejadas pelo trabalho árduo e inclemente, curtido por sua vida apostolar, que negara o Cristo por três vezes, conheceu a sublimação de sua fé. Testemunhou-a até o último instante de sua vida. Amando aos homens e desafiando as injustiças do mundo. Conheceu como poucos a real dimensão da vida. Em 2021 foi lançado no Brasil “O apóstolo São Pedro”, de William Thomas Walsh. Obra definitiva.

Na Basílica de S. Pedro, diante de sua imagem (corpo inteiro) em bronze, nunca contenho a emoção. Os dedos do pé direito estão gastos pelo atrito das mãos dos peregrinos.  Tradição desde o século XVI. Suas feições, por coincidência, assemelham-se às que El Greco lhe atribuiu no quadro “As lágrimas de S. Pedro”, que se encontra na sacristia da Basílica de Toledo. Reverencio o pescador que, como profetizara o Cristo, converteu-se em “pescador de homens”. Pedro foi um homem humilde e voluntarioso, que testemunhou o que São Paulo sentenciou em Gálatas 5, 22: “o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, amabilidade, autodomínio”. Enquanto viveu, depois de sua convocação pelo Cristo em Cafarnaum, devotou-se à fé, ao amor e à esperança. Missão sem fim…

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