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Tempo sem identidade?

Cláudio Emerenciano
[Professor da UFRN]
Cada época tem sua identidade. Assim os chineses contam, há milênios, uma lenda. Dois velhos resolveram jogar uma interminável partida de xadrez. O tempo passava. Fluía sem que os jogadores se apercebessem. Suas barbas cresciam, arrastando-se pelo chão. De tempos em tempos, os velhos olhavam na mesma direção e alcançavam a linha do horizonte. Ali, na imensidade e na perspectiva do infinito, descortinavam e identificavam rostos de homens e mulheres, que revelavam o conteúdo espiritual, moral, político e cultural de cada época. Quando as pessoas expressavam violência, ódio, intolerância, miséria, injustiça e iniquidade, corvos e aves de rapina sobrevoavam a mesa do jogo. Em compensação, semblantes reveladores de paz, justiça, liberdade, ascensão cultural, ética e moral, espiritualidade, atraíam uma multiplicidade de pássaros, que enlevavam os anciãos com seus cantos maviosos e mágicos. Então o ambiente se transformava num jardim, repleto de flores com aromas inebriantes. O horizonte se revestia de um arco-íris, cujas cores, em sua harmonia, placidez e exuberância, infundiam ternura e felicidade. Pois a vida terrestre é envolvida por cores de todas as tonalidades e inimagináveis variações. Fenômeno que se estende às flores, aos milhões, exalando fragrâncias em todas as regiões do mundo. Entende-se, portanto, desde aqueles tempos, que as cores e as flores também ensejam à condição humana assimilar o sentido de sua existência. Essa estória é contemporânea de Confúcio, sábio que viveu no século VI antes de Cristo. Reveladora da sabedoria chinesa, anterior à ocidental.

A vida de um homem é a história de suas relações. Revelação dos laços que alicerçam sua grandeza. Eis a gênese de uma civilização, um país, um povo, uma nação. A verdadeira identidade do tempo detém verdades que aprimoram a condição humana. Em todas as dimensões fermenta ideais, sonhos, esperanças, alegrias e paz.  São Tomás de Aquino disse que o fim do homem é ser feliz. A infelicidade seria fruto do seu desamor e do caminhar por rumos que subvertem sua verdadeira vocação. São bíblicos os desvios de Caim e a maldade de Caifás. Mas Santo Agostinho invocou o Senhor Jesus, reiterando que o homem busca e encontra dentro de si a paz e a harmonia com o mundo: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não a dou como o mundo a dá. Não se agite o vosso coração, nem se desanime” (João 14, 27). Com a luz da fé o homem distingue o real e o falso, o perene e o efêmero, o sentimento e a paixão, a luz e as trevas. Sempre…  

O pós-guerra, em 1945, foi um novo tempo sob influência de homens excepcionais. Um deles, o maior estadista do século, morreu em 12 de abril daquele ano: Franklin Delano Roosevelt. Liderou seu país e o mundo livre numa cadeira de rodas.  Vítima da poliomielite. A dor e o sofrimento o ajudaram a identificar-se com os pobres, humildes e desvalidos. Instaurou em seu país um processo democrático amplo e irreversível. Inclusive na gravíssima questão racial, com desdobramentos até nossos dias. A nova ordem mundial, que deveria ser comprometida com a paz e o desenvolvimento dos povos, foi um dos seus legados. No dia 21 daquele mês, instalou-se na cidade de São Francisco a Organização das Nações Unidas, também por ele concebida. Winston Churchill, outro líder que marcou os novos tempos, assim o definiu: “O maior homem que conheci”. Outros também deram personalidade ao século XX: Mohandas Gandhi, Charles De Gaulle, Alcides De Gasperi, Konrad Adenauer, João XXIII, John Kennedy, João Paulo II, Mikhail Gorbatchev e Nelson Mandela. Homens que tiveram visão para detectar a planetização dos problemas e suas soluções. Em crises graves, a humanidade, como que atônita, vislumbra, ainda que circunstancialmente, uma realidade inamovível e intransponível: não há mais “ilhas” paradisíacas no mundo, alheias e indiferentes aos acontecimentos em outros lugares ou regiões (romance contraponto de Aldous Huxley em “A ilha” – 1962). Nada disso. Do mesmo modo que armas nucleares e a questão ambiental põem em risco a vida do planeta e da humanidade. Outros problemas, como violência, terror, insegurança, fome, miséria, ignorância e pandemias também são letais. Urge também erradicá-los.

Talvez devêssemos dizer como François Mauriac (Nobel da Literatura): “há um deserto de homens, de ideias e de sentimentos. Enfim, deserto de amor”. Tempo sombrio, incerto, estranho, desprovido de certezas. A ameaça nuclear, que se irradia da Rússia, não tem qualificação na conjuntura internacional. É uma chantagem comprovadora do descompromisso ético, moral, humano e civilizado da ditadura apocalíptica de Vladimir Putin. De algum modo, a fome que grassa no mundo se assemelha à premonição de Morris West, na década de 1960, em “As sandálias do Pescador”. Analistas de política internacional reconhecem que, nas atuais circunstâncias, Putin empreende contra a Ucrânia uma “guerra existencial”, sem dúvida alguma para varrer do mundo povo e país, que fecundam um dos celeiros da humanidade.   

Duas palavras definem o estado de espírito do cidadão comum, amante da paz em todo o mundo: perplexidade e insegurança. Graças a Deus ainda não há pânico. Mas a “aldeia global” anseia por condições capazes de substancial transformação na forma de viver da humanidade. Mas esse tempo não tem identidade. Os velhos chineses não mais vislumbram pássaros e flores. Onde está o arco-íris? Desapareceu? Não. Talvez esteja escondido no coração dos homens. Ainda bem.

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