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Quando as aparências enganam

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Valério Mesquita
Escritor

O Recife boêmio do final dos anos sessenta para o começo da década de setenta não se apagou da memória do então universitário de medicina Alcimar Torquato de Almeida. O bar do Derby foi o quartel da resistência da turma de estudantes da época. A frequência tornou-se matéria curricular. Uma ida a Recife, Alcimar sempre incluía uma passagem pelo Derby para matar a saudade. O tempo passou. Alcimar foi clinicar em Mossoró e elegeu-se deputado estadual pelo Oeste, chegando à presidência da Assembleia Legislativa. Na gestão de Tarcísio Maia assumiu o governo e enfrentou a primeira barra: ir a Recife participar da reunião da Sudene como primeiro mandatário do estado. Governava Pernambuco o irrequieto e ruidoso governador Moura Cavalcante. Qualquer visita federal ou interestadual a sua Recife, ele armava um ostensivo esquema de segurança e assim aconteceu com o governador em exercício do Rio Grande do Norte Alcimar Torquato. Era a moda. Ao descer no aeroporto dos Guararapes, Alcimar entrou num automóvel oficial preto com batedores e sirenes em alarme.

Perguntado sobre o roteiro, Alcimar sugeriu uma ligeira parada no bar do Derby. Era o seu prazer cósmico satisfeito. Barulho, buzinaço, aí o bairro entrou em agitação. Povo à porta das casas e no bar os garçons aflitos pensavam no pior quando viram o carrão estacionar. Desce o “maguinho” – como era chamado na intimidade – , acompanhado do militar ajudante de ordens. Aí o fiel garçom dos velhos tempos não conteve a preocupação: “Doutor Alcimar, o que aconteceu, o senhor está preso?”. “Preso porra nenhuma, felá da p…. Eu sou o governador do Rio Grande do Norte. Bote logo uma aí que estou indo pra uma importante reunião!”.
02) Com ternura, vale relembrar uma do saudoso Antônio Dantas ou Antônio Careca para os amigos. Toinho como diretor geral da Assembleia Legislativa durante muitos anos, tornou-se imagem e semelhança dos gregos e troianos que habitavam a casa de José Augusto ao longo do tempo pela esperteza, pela raposice e até pelo talento de haver se tornado uma unanimidade entre os seus colegas. Certa vez, a renovação da Mesa do Poder Legislativo fez perigar a sua recondução ao cargo. O seu protetor deputado Alcimar Almeida viajara para descansar após reeleito e fugir, também, do assédio dos novos pretendentes ao cargo. O parlamentar armou uma eficiente estratégia para ficar incógnito e tudo daria certo, não fosse a matreirice de Careca, aprendida nos bancos universitários do PSD e da UDN dos velhos tempos. Procurou a bondosa mãe de Alcimar, única pessoa a saber do dia, hora e voo do retorno do filho com a família. Inventou junto à senhora que Alcimar lhe pedira sem falta para ir aguardá-lo. E no desembarque, à noite, certo de que viva alma não lhe aguardava, com uma filha nos braços, o deputado escuta uma voz indisfarçável: “Seja bem-vindo, meu presidente!”. Como se de repente, adivinhasse tudo que estava acontecendo, o “mago” não teve alternativa: “Boa noite, diretor”. Estava confirmado no cargo.


03) Pra terminar, uma rapidíssima de Mário David Andreazza, quando ministro. Numa visita ministerial a Porto Ilha, foi recepcionado por vários prefeitos da região salineira, é um deles teve a ideia de levar dez crianças, cada uma com uma flor, para o ilustre visitante. Ao receber as flores, Andreazza beijou uma das crianças e exclamou: “Que coisa linda! São naturais?”, referindo-se as rosas. O prefeito Geraldo Alves aproximou-se e disse ao ouvido do ministro: “São, sim, senhor; mas eu vou registrar os bichinhos, depois…”

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