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Relembrando a ata perdida

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Valério Mesquita
Escritor

Às vezes, a verdade histórica dos fatos se extravia e o esquecimento se transforma em estatística. Assim tem acontecido com pessoas e instituições sobre as quais, vez por outra, surge alguém providencialmente para recontar-lhe a história e restituir-lhe os fundamentos. A odisséia para a obtenção do terreno onde hoje está fincado o Corpo de Bombeiros de Natal, por exemplo, teve facetas que não estão inseridas nos seus anais.

Entre 1965 e 1970 era governador do Rio Grande do Norte o monsenhor Walfredo Gurgel que se revelou amigo e admirador dessa unidade militar. À convite do então comandante da Polícia Militar coronel José Reinaldo Cavalcante, o padre sempre comparecia às solenidades alusivas aos bombeiros. Nessa época, em virtude da expansão do efetivo da polícia, o espaço físico (quartel da PM) destinado à corporação dos homens do fogo começou a se tornar insuficiente. Daí, o então comandante do Corpo de Bombeiros capitão Waldomiro Fernandes da Costa iniciou o ritmo de busca por novas instalações.


A ansiedade levou-o a descoberta do espaçoso terreno da avenida Alexandrino de Alencar, próximo ao colégio das freiras. Ao lado, funcionava o antigo serviço de transporte do governo estadual. Incontinenti, o capitão Waldomiro acionou o primeiro tenente Benedito Florêncio de Queiroz, caicoense e afilhado do padre governador, a fim de somar esforços para a cessão das edificações ao novo quartel do Corpo de Bombeiros. “Faça o ofício”, sugeriu Walfredo. Em seguida, recebida a exposição de motivos, o governador acatou-a plenamente, autorizando a ocupação da área. Esse esforço conjunto, no entanto, dos oficiais Waldomiro e Queiroz além do monsenhor, precisam ser reconhecidos e inseridos nos registros históricos do Corpo de Bombeiros de nossa capital.


Todavia, não se encerrou aí a trajetória dessa área nobre e estratégica da cidade. Ao assumir o governo do Estado em 1971, o professor Cortez Pereira recebeu insistentes pedidos e pressões do Detran/RN para construir a sua sede, bem como, da Cosern para instalar uma subestação nesse local. Ao perceber o risco iminente do Corpo de Bombeiros vir a perder o espaço conquistado, o major Valdomiro Fernandes, ajudante de ordens do governador, apelou diretamente no sentido de que se mantivesse a decisão anterior de Walfredo Gurgel, justificando para tanto, a localização adequada e técnica, além do crescimento da cidade que já exigia o aperfeiçoamento dos serviços e a qualidade de novos equipamentos, posto que, a unidade já operava no dispositivo. Depreende-se que, da mesma forma que Walfredo Gurgel, Cortez Pereira merecem, também, igual gratidão dos bombeiros pela corajosa decisão tomada em consolidar definitivamente a ocupação da área.

São atitudes ímpares e sensatas como essas, de homens públicos devotados que muitas vezes não alcançam manchetes dos jornais porque agiram no estrito cumprimento do dever. O assessoramento prudencial dos oficiais militares Waldomiro Fernandes e Benedito Queiroz oportunizou o atendimento do pleito. Eles extrapolaram os limites de sua condição militar despertando a sensibilidade dos governantes para a importância de se preservar a titularidade do terreno quando outros concorrentes ameaçavam. Não sei, se essa história que não está na história do Corpo de Bombeiros ou essa ata que se extraviou na memória da instituição, pode ser resgatada pelos atuais dirigentes. Só sei dizer que os fatos existem e por isso mesmo não podem continuar ignorados.

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