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Renegados

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O atacante Dalberto, de passagem sem brilho pelo ABC, está jogando futebol na Liga Soccer 1 norte-americana. Melhor não poderia ter ocorrido ao atacante corpulento. Está fácil demais para quem joga de menos.

Dalberto nunca fez um golaço, jamais decidiu um campeonato importante e é bem possível, não consiga fazer cinco embaixadinhas, ou pezinhos, o teste do craque quando eles se multiplicavam nos campinhos de várzea até os clubes.

Nada pessoal contra Dalberto, certamente um indivíduo cumpridor dos seus deveres pessoais, cívicos e religiosos. Umas três ou quatro vezes, o vi jogar pela televisão e seu desempenho oscilou do frágil para o comum.

Até chegar ao Mature United nos Estados Unidos, no qual fez três gols ano passado, Dalberto rodou por Mirassol, Londrina, Sampaio Corrêa, Juventude, Sport, Chapecoense, Coritiba e Paysandu.

Antes ou no tempo dele, o ABC apresentou Matheus Mathias, um menino habilidoso, magricelo quase à semelhança Mahatma Gandhi e corajoso ao driblar e superar zagueiros ruins e maldosos.

Matheus, nascido em comunidade pobre, foi vendido ao Corinthians(SP), tendo Vampeta, pentacampeão engraçado e de estilo truculento , de dublê de mestre de cerimônias: “Se for igual aos daqui, melhor ficar com os que já temos.”

Humilde, acostumado a banhos infantis no Rio Potengi, Matheus Mahias foi apresentado ao dinheiro. Para ele, bem pobre, muito dinheiro. Comprou logo dois carros importados de valor altíssimo. Jogador novo não vê imóvel, sabe que as vigaristas a cerca-los e seduzi-los preferem conversíveis ou possantes camionetes de tração 4 por 4.

E Matheus Mathias entrou na ciranda onde também dança Dalberto. Passou pelo Ceará sem ser notado, marcou três gols pelo Avaí(SC), viajou para Itapólis, interior paulista onde nada fez pelo Oeste, esteve incógnito pelo São Bernardo(SP) e o Paraná Clube(PR).

Desde 2019, sua cadernetinha empacou nos três gols feitos pelo Avaí, segundo o site especializado O Gol. No ano anterior, quando surgiu, Matheus Mathias marcou 10 vezes em 10 partidas pelo ABC, chegando até a desfocar o ídolo Wallyson.

Aos 25 anos, também esteve no Ceará, na Ponte Preta, no futebol asiático, no ASA de Arapiraca e agora no Santa Cruz. Não faz um gol em time profissional há três anos.

Mora na filosofia a explicação. No meu tempo – que não troco por nada neste mundo -, havia técnicos e olheiros nos clubes, para ensinar o jovem a ser gente e melhorar até a exaustão a parte técnica.

Hoje, a ordem é monetária e nada mais. A qualquer semana, podem pintar Matheus Mathias e Dalberto, de novo no ABC ou como “excepcionais”atrações no América.
Souza, do América, nossa última atração em nível nacional – não me venham comparar Gabriel Veron, corredor, com o talento de Souza -, nunca foi idiota. Surgiu no América, passou por diversos clubes no Brasil e no exterior onde conseguiu fazer seu caixa e sua aposentadoria.

Na contramão, seguiram Sérgio Poti, sublime zagueiro revelado pelo América e com passagem pelo ABC, que renegou a seleção olímpica do Brasil e o Vasco de Roberto Dinamite em 1979.

Reinaldo, que esteve no Santos, Internacional e é campeão mundial interclubes pelo Flamengo e Adalberto, a versão potiguar distante de Adílio do Flamengo, aprovado e prestigiado no São Paulo.

Eles cederam ao espírito nativo. Reinaldo rodou um bocado, mas padeceu de tantas contusões. No tempo dos três, é verdade, havia muito menos dinheiro. Pouco, mas suficiente para que sobrevivessem com algum sossego.

Sonho

Quero viver o suficiente para ser avô. Ter um neto é um sonho distante embora o frasista diga que longe é um lugar que não existe. Ama-se o neto em dobro, derretem-se alguns avós. Meus dois filhos, dois adultos, ainda estão no melhor momento da vida, que é o de vivê-la sem que lhes sejam apresentadas faturas materiais e sentimentais.

O meu primeiro neto, se for homem, já tem o primeiro presente guardado. Não é um brinquedo, é um símbolo de uma das tardes mais felizes do meu tempo. O meu neto conhecerá o verdadeiro super-herói ao rever o filme Pelé Eterno. O bilhete amassadinho ornamentará o berço do futuro abecedista e vascaíno.

O que eu vi transcende a lógica, a metafísica, a matemática, a geografia, a aritmética, a democracia, a anarquia, a ditadura. A Bossa Nova, o Tropicalismo, a Jovem Guarda e o Samba de Protesto. O que eu não consigo esquecer transpõe o Rio Nilo, o Amazonas, o Tejo e o Mar Morto.

As cenas não podem ser descritas porque formam algo muito além da capacidade humana de discernimento. Se existe o paraíso, seu chão foi construído pelas pisadas de Pelé. A arquitetura dos seus dribles, lançamentos, gols feitos, gols perdidos, porradas nos adversários tem a régua e o compasso do inexplicável. São duas horas que valem uma vida. Eu vi o que eu não vivi. E o meu neto verá também, abençoado seja ele amante de uma musa chamada bola, amante lasciva de um só Rei.

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