sábado, 17 de fevereiro, 2024
29.1 C
Natal
sábado, 17 de fevereiro, 2024

Revivendo uma visita

- Publicidade -

Valério Mesquita
Escritor

Roberto Pereira Varela espargiu no mundo áspero da política, sua aura de nobreza inesgotável. Passei a conhecê-lo através da opinião do meu pai, seu colega no parlamento estadual, que o definia numa frase: “Meu filho, Roberto Varela é um fidalgo”. Prefeito do Ceará-Mirim por três vezes e, deputado estadual por igual número de mandatos, chegou a ocupar o governo do Estado lá pelos idos de sessenta. Ao longo da vida pública, identificou-se como político que jamais curvou a coluna aos poderosos de plantão. Sempre mostrou-se fiel às amizades e as inimizades também. Do signo de escorpião, testemunhei em muitas de suas lutas, o exercício da coragem pessoal no chão sagrado de sua Ceará-Mirim. Roberto foi um telúrico que conduziu permanentemente nos olhos, os verdes canaviais de sua terra.


Certa vez, marchamos em passeata a Nascença, propriedade rural que pertenceu aos seus antepassados. Woden Madruga, Diógenes da Cunha Lima, Cláudio Emerenciano, Nídia Mesquita, Toninho Magalhães e eu, por oito horas, fomos hóspedes do paraíso. O verde e a quietude do vale, o rio Azul sempre renascendo ali perto, às nossas vistas, a casa centenária e hospitaleira, a galeria histórica dos ancestrais desde o Barão do Ceará-Mirim, o velho engenho e as carruagens imperiais, tudo, enfim, exprimindo ressurreição de antigos ambientes. Roberto foi um colecionador aplicado porque soube que foi também, personagem da história do seu município. Os móveis antiquíssimos da casa e a biblioteca altaneira encontravam no seu habitante, o carinho diuturno do cuidado pela preservação. Extasiado com o que vi, exclamei que a visão demiúrgica de tudo aquilo beatifica qualquer pecador solerte.


Mas, nem só de beleza viveu o vale do Ceará-Mirim. Antes de chegar a Nascença, transitamos por estradas esburacadas que conduzem ao distrito de Capela, logo quando se deixa a cidade. Trata-se de uma via municipal onde simplesmente o asfalto sumiu. O povoado pobre me parece esquecido como se punido por vontades contrariadas. E Roberto, capataz dos mistérios circundantes da política de sua urbe, conhecia melhor do que eu e do que todos, as rosas e os espinhos do seu povo. Do alto da experiência comprovada foi o homem que sonhou, que vibrou com o dia a dia da política sem esmorecer. Com essa conduta retilínea ministrou a todos os conterrâneos, lições construtivas de vida.


O Casarão Antunes, Nascença, o Guaporé, a igreja matriz, o velho mercado público, os sobradões antigos, constituem para mim motivos de encantamento porque representam o fausto e a cultura de uma época, da qual vejo Roberto Varela como cultor e expressão fidedigna, tanto do ponto de vista político, como social e econômico. Aos 76 anos, soube enfrentar com altivez as vicissitudes do tempo, as transformações da vida com a bravura indômita do homem educado que não sucumbiu as naturais perdas e danos.


Ao revisitar sua terra natal lembrei-me de Nilo Pereira, outro ceará-mirinense apaixonado que comparava a beleza do vale a das manhãs da criação do mundo. Naquela quinta-feira de setembro com Ana, Roberto e filhos, foi um dia perfeito, sem pressa nem preocupações. Tudo correu fácil e farto como nos bons tempos do saudoso casal senador Luis Lopes e Antonieta Pereira Varela.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

- Publicidade -
Últimas Notícias
- Publicidade -
Notícias Relacionadas