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Droga mostra o seu poder na campanha que começa

Cassiano Arruda Câmara

A influência do crime organizado no processo eleitoral é uma preocupação séria em muitos países. O exemplo da máfia, na Itália, é particularmente ilustrativo desse fenômeno. Na história política italiana, a máfia, instituição milenar, em suas diversas formas, tem sido notória por tentar influenciar eleições – em diversos níveis – através de uma variedade de métodos, que vão desde a intimidação até a corrupção direta.

Os métodos são todos conhecidos. A organização criminosa, frequentemente, recorre à intimidação e à violência para influenciar o processo. Isso pode envolver ameaças diretas contra candidatos que não se alinham aos interesses dos criminosos, bem como contra eleitores que possam votar contra.
Políticos e servidores públicos formam um alvo preferencial para os infratores. A organização criminosa também busca corromper políticos e funcionários para garantir que suas agendas sejam providas. Isso pode incluir subornos diretos, favores políticos e o fornecimento de financiamento ilegal para as próprias campanhas eleitorais.
Existem oportunidades em que infiltrados pelo crime atacam candidatos e as próprias estruturas partidárias. Muitas vezes infiltrando-se nos partidos políticos, colocando seus próprios membros como candidatos ou influenciando as decisões dos líderes partidários. Isso pode permitir que eles exerçam influência sobre as políticas públicas e as nomeações governamentais.
O impacto dessa influência pode ser devastador para a democracia (qualquer democracia), minando a legitimidade das eleições e corroendo a confiança do público no processo político. Na Itália, esforços significativos foram feitos para combater a tal influencia nefasta.
Aqui, até bem pouco tempo, esta era uma realidade criminosa que existia, apenas, nas telas dos cinemas, numa diversificada programação de filmes retratando diferentes fases de atentados à democracia italiana, tanto nos grandes centros urbanos, quando nas pequenas comunidades do interior.

LONGO CURSO

Agora a prática começa a chegar aos pequenos municípios do Nordeste, inclusive em exemplos registrados no nosso Rio Grande do Norte que, até bem poco tempo, não vinha sofrendo com esse tipo de influência negativa e estranha aos hábitos e costumes da nossa sociedade.
Sem ser produtor de entorpecentes, o Nordeste brasileiro está virando – de forma acelerada – um corredor para o suprimento do mercado europeu da cocaína produzida em alguns países latino-americanos, e que vem montando uma verdadeira rede de apoio a este rico mercado, que contrasta com a pobreza local.
Em termos objetivos, o tráfico de drogas começou a aparecer – do nada – no noticiário policial das grandes cidades do Nordeste com casos de apreensão de droga embarcada clandestinamente aqui, para ser levada até países da Europa, sem se saber, até então, nada a respeito dos operadores locais do negócio criminoso, que ainda demoraram mais um pouco a aparecer.
No princípio de 2019 foram apreendidos, numa mesma semana, no Porto de Natal, três e meia toneladas de cocaína. Para a Polícia Federal, em pouco tempo, a capital potiguar se transformou em ponto de partida de uma rota do tráfico internacional de entorpecentes. Uma rota de longo curso.
O trajeto marítimo é novidade, de acordo com os investigadores brasileiros, pela própria escala potencial do volume transportado.
As duas apreensões feitas, em 2019, pela PF, foram as primeiras da história do terminal marítimo aberto em 1932. Nunca uma operação policial havia descoberto drogas no Porto de Natal. Os tabletes – 998 na primeira vez e 1,832 no dia seguinte – totalizaram 2.830 pacotes de cocaína. Estava tudo escondido em meio a melões e mangas encaixotados em contêineres.

FRUTAS & DROGAS

A cocaína que sai de Natal, segue principalmente para a Holanda, e também vai muito para o porto de Antuérpia, na Bélgica, explicou um policial que atua no combate ao crime organizado.
Destes dois portos europeus, os navios apelidados de “bananeiros” também fazem paradas em outros portos da Europa.
A escolha de Natal tem dupla justificativa: pela sua posição geográfica, já que é a capital brasileira mais próxima da Europa, e porque o Porto não havia sido utilizado por grupos internacionais do tráfico, parecendo que não possuía atrativos para os criminosos, aproveitando o fato das frutas produzidas no Nordeste terem alcançado as condições competitivas, enquanto demorou o período para a conquista daquele nicho de mercado paralelo.

DROGAS S/A
Depois que foram estourados alguns embarques, em navios de frutas tropicais, para a Europa, os grandes conglomerados mundiais da droga começaram a aparecer no Brasil, enquanto os seus representantes atuavam em dois planos: A turma local e os milionários que surgiram de uma hora para outra ostentando carros de luxo e casas de alto padrão.
As empresas do crime, ainda em fase embrionária chegam ao Interior, criando raízes diversificadas em comércio que trabalha preferencialmente com dinheiro vivo (como os postos de gasolina). Assim começaram a influir nos negócios das pequenas comunidades, inclusive na administração pública. E o inevitável envolvimento na política local.
Até o presente existem casos comprovados de assassinatos de políticos por elementos que chegaram nesse mercado paralelo. Um fato recente com todo o ritual de uma execução das grandes organizações criminosas, aconteceu com a morte o Prefeito de São José de Campestre, num tipo de execução comum as organizações criminosas em geral.
Quando uma nova campanha eleitoral está para começar, entre os financiadores, o tráfico de drogas já tem um lugar de destaque, ao lado do financiamento público (Fundo Eleitoral). Enquanto o estado brasileiro ainda não ofereceu demonstrações de estar se preparando para enfrentar o poderoso inimigo, que começa a aparecer em campanhas mesmo com financiamento assegurado pelo Governo.

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