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Saudade

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Quando inventou a saudade, Deus deveria estar de mau humor ou de ressaca de vinho ruim. Quem sabe atendeu palpite de puxa-saco celeste. Ando triste, acabrunhado, melancólico. A morte de Leonardo Arruda, não consegui absorver. A sua imagem e os seus telefonemas sarcásticos não desaparecem da minha cabeça.

Fui à missa de 7º Dia de Leonardo Arruda e foi arrasador quando um dos seus netos, criancinha ainda, leu uma mensagem pra o vovô perdido.
Ao lado do altar da Catedral Metropolitana, um painel mostrava fotografias que compuseram o perfil de Leonardo Arruda. Um gaiato, como ele sempre gostava de chamar quem era atrevido ou engraçado.
Conheci Leonardo, eu menino de 11 anos. Já naqueles dias, ele e meu pai enfronhados numa diretoria perdedora, no fim da década de 1980 e início de 1990, o ABC era surrado pelo América e contratava mal. Leonardo Arruda me gozava porque costumava mandar listas de jogadores retiradas da Revista Placar, para indicar reforços para o Mais Querido.
Quando Cláudio Porpino leu o discurso em nome do ABC e citou o meu pai pela frase: “O ABC é, sem vaidade, o sorriso alegre de uma cidade”, minhas lembranças passaram como num trailer de filme. Rápidas e profundas.
Não demonstro, mas a morte de Leonardo Arruda me nocauteou espiritualmente, me deixou de moral extremamente abalada e não encontro, em nenhum livro, disco ou filme, o lenitivo para a minha dor.
Alguns podem achar que estou recordando Leonardo Arruda para aparecer. Não é. Tenho coragem para expor minhas fragilidades e, moleque criado mudando de cidade em cidade, sabe bem o quanto a navalha da saudade corta nos instantes em que, por um detalhe qualquer, a figura ausente se apresenta em pensamento.
Lembrei, enquanto o padre rezava a missa e comentava as virtudes de Leonardo Arruda, dos longos telefonemas que fazíamos à noite, conversando sobre futebol e política. Futebol, não. Sobre o ABC, seu filho mais velho e por quem foi capaz de perder um carro zero dado à Dona Graça, sua esposa, para quitar uma dívida com folha de pagamentos. Leonardo, volte.
Com o médico Maeterlinck Rêgo minha presença tem sido mais constante. Maeterlinck assistiu à missa de Leonardo Arruda ao meu lado e está dilacerado por dentro e por fora, tentando resistir à falta que Doutora Sônia Rêgo faz.
Maeterlinck Rêgo vem em minha casa, toma cappuccino e chora. Minha garganta trava, mas não posso ceder para não agudizar o desalento do hoje meu amigo mais frequente. Meterla está atordoado e eu não posso dizer a ele que me faltam autoridade e autoestima para fortalecê-lo.
Sempre ligo ou recebo ligações de Maeterlinck Rêgo. Ele expõe sua fraqueza, devolvo com meu completo esquecimento que vai se acumulando com a idade virando os 50 anos e a falta de solidariedade acabando comigo, que não deixo amigo de fé sem apoio.
As famílias de Leonardo Arruda e Maeterlinck estão passando agora o que vivi quando perdi minha avó, aos 91 anos em 2011 e a minha mãe, em 2022.
Paro para pensar e concluo, cortado ao meio: perdi todas as minhas referências e estou sozinho a lutar contra o mundo ou percorrer as estradas em ruínas que se apresentam a mim nesta fase da trajetória.
Faço o desabafo sem o menor constrangimento: devolvam a conformação às famílias de Leonardo Arruda e Sônia Rêgo. Eles provaram, na morte, a força que representaram em vida. Foram dois peregrinos que tomaram o rumo do incerto com fé e discernimento.
Ouvir Cartola seria masoquismo. Os mortos não vão por aí se encontrar para depois voltar. Deus tem sido implacável. Com as famílias em luto e comigo mesmo. A saudade machuca. A solidão é você esquecido. Se pudesse, seria voluntário para ir embora. Só para que não fossem perdidos Leonardo e Sônia Rêgo.

ABC O ABC encantou sua torcida, especialmente no primeiro tempo contra o Ferroviário, quando pontificou o meio-campista Gabriel Santiago. Em 45 minutos, ele fez muito mais do que Diego, Adryan e Samuel

Psicológico A atuação alvinegra certamente afastará o baixo astral das imediações do Frasqueirão. Os contratados de agora parecem mde melhor qualidade do que os anteriores.

Thuram Quem ainda causa espanto é o quarto-zagueiro Thuram. Depois do golaço contra marcado diante do Londrina, continuou demonstrando insegurança.

Souza A qualquer minuto, o meia Sousa do América desabará de cansaço. Corre o tempo todo sozinho carregando o time nas costas. A dobradinha com Nordeste já mostrou que funciona.

Bem na fita O Santa Cruz, de Lupércio Segundo, está conseguindo cumprir suas metas se colocando entre os quatro do seu grupo na Série D.

Baixo O nível dos narradores e comentaristas de TV nas Séries C e D.

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