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Vácuo

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Dácio Galvão
Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal

O distópico sentido na diluição, fragmentação. Redes e corporativismos são em geral propagadores contributivos na formação de conteúdos estéreis. Resultando quantidade. abstraindo qualidade. O que importa? -O ritmo acelerado da indústria cultural, da circularidade do capital, do capital, do capital… No século passado havia fora das academias -que não a excluiu do debate- forte interesse na identificada “linha evolutiva” da cultura. Nesse sentido no decorrer da década de 50, o movimento da arte concreta se alicerçava no Brasil trazendo propostas discordantes das preconizadas pela Geração de 45. Dizia respeito ao tradicionalismo da forma poética. Nesta batida a poesia concreta emergiu como mais uma manifestação do signo moderno da ruptura. Diria Haroldo de Campos, ao reafirmar o rompimento junto à tradição constituída: “a conservadora geração de 45, com seus jogos florais, era nossa adversária natural”. Foi retomado o diálogo com o Modernismo de 1922. Propondo-se vanguarda elaborou arcabouço teórico atualizador do programa formalista da modernidade onde ciência e tecnologia impunham-se no espaço urbano-industrial. Era necessária resposta criativa socializada fazendo usos midiáticos possíveis. Na ótica concreta o verso estava em crise. Era preciso alternativa. Fora encadeada leituras: da linha criativa de Mallarmé -Un Coup de Dés- e De Ezra Pound -Os Cantos-. Do Ulisses ao Finnegans Wake de James Joyce até a escritura desarticuladora do Poems de E. E. Cummings. Dos resultados estéticos das vanguardas históricas. Métodos ideográficos eram reivindicados: o da leitura de Ezra Pound e de Ernest Fenollosa este proposto pelo cineasta Serguei Eisenstein em “O princípio cinematográfico e o ideograma”. De menor grau havia interesse em resultados futuristas e dadaístas.


A proposta era formar o paideuma -método analítico poundiano- definidor de temperaturas informacionais dos textos. Um sistema hierarquizante para obras literárias. Baseado em um de seus princípios -o da “poesia de invenção”- tomou-se o plano da escritura de Mallarmé. Deixando naquele contexto Baudelaire e T. S. Eliot em importância secundária. O estatuto teórico da poesia concreta era vasto e apontava desde a estética de Max Bense aos Formalistas Russos. Evidências do Círculo Linguístico de Praga e da experiência dos acordes dodecafônicos vienenses: Arnold Schönberg, Alban Berg, Anton Webern. Se não bastasse tinha o som eletrônico serial de Michel Fano e Karlheinz Stockhausen se relacionando ao escultórico de Max Bill e ao pictórico de Piet Mondrian. Amplo leque de referências de artistas e literatos. No contexto dessas discussões, destacou-se a participação decisiva do crítico de arte Mário Pedrosa. Promoveu conferências, produziu ensaios e artigos estimulando a absorção das demandas estéticas da ordem do dia. Foi ele um dos primeiros a reconhecer a “máquina cinética” de Abraham Palatnik. Rejeitada pelo júri de seleção nacional da 1ª Bienal de São Paulo. Contrariando expectativas “a máquina” obteve o reconhecimento do júri internacional a considerando “uma importante manifestação da arte moderna”, como registrara Antonio Bento de Araújo Lima. Mário Pedrosa reverberava: …’Abraham Palatnik, nascido em Natal, em 1928, representará no grande certame internacional ponta extrema do movimento moderno. Ele faz parte da vanguarda dos pioneiros da luz direta, como meio plástico de expressão”.


Certo vazio detectável no campo do debate na construção de linguagens artísticas projeta a estagnação produtiva. Que a história nada acresce. O mercado e o consumo ligado ao entretenimento dominam stremings e… Enquanto isto o estéril se sobressai sendo alavanca. Nos resta lutar e resistir ao vácuo. Como?

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