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Vitrines sociais

Vicente Serejo
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É difícil convencer como é bom não ser nada nas sociedades de medalhas e medalhões, e prazeroso viver recolhido a si mesmo, no território íntimo da casa e da rua, e se, ainda assim, é mais fácil do que no papel das tolas representações sociais. Se o Diabo não é mais inteligente do que ninguém, é velho, sabe perfeitamente de quem são os rostos dos que estão do outro lado das máscaras. A vida em sociedade é um teatro. Na feérica ribalta brilha o falso, nunca o verdadeiro.
De resto – é bom reconhecer – os melhores atores e atrizes são os falsos humildes. Vão além do simulacro e só não são perfeitos, mesmo os que privam da intimidade com o palco, porque é impossível esconder a inveja ou a invídia claricalis, como dizem velhos alfarrábios e cartapácios no resguardo dos paredões vaticanos. São os melhores na arte da representação. Imitam, com toda perfeição, a sinceridade. E só olhos, muito agudos, argutos e penetrantes, conseguem desnudá-los.

E tudo é muito natural. Pensando e pesando bem, o falso humilde é uma espécie de novo modelo de dramatis personae, decalcado das velhas e clássicas histórias inglesas na definição dos personagens mais centrais da ficção e do drama. As mais carregadas daquela dramaticidade sempre bem urdida e, de tal modo, que pareçam a imitação perfeita da vida como ela é. Aliás, a ficção social sabe bem remover as fronteiras que separam o real do irreal, como se tudo fosse muito igual.
Depois, sabe-se, e é de um saber velho como a noite: a realidade cansa. Um grande ator e uma grande atriz sabem criar o real com palavras frias e ocupam o território do imaginário. É lá que realizam a arte da dissimulação. O mundo conhece as Preciosas Ridículas do teatro clássico e satírico da comedie française. Foi lá que Molière ensinou aos franceses, pelos dois mil e seiscentos, ou até mais, que a comédia revela a condição humana muito mais agudamente do que a tragédia.
Trocando em miúdos, se as coisas graúdas nos enganam: o ridículo é a poção e a porção da verdade. No mais, o que chega aos olhos e ouvidos é aquele frivolité das firulas e afetações tão gratas e tão gradas ao mundo social. Às vezes, chego a pensar que foi na vida soçaite que nasceu o tédio. O entediado, francamente, não parece ser personagem do pecado ou da virtude. Seu jeito é de quem quer comprar alguma coisa que a vida, por puro capricho, resolve nunca oferecer. Será?
É antiga a frase que flagra a ambição do néscio, essa rima pobre do tédio: o dinheiro não traz felicidade, mas manda buscar. Mas, ao mesmo tempo que pode, nem sempre vence as horas entediantes. Daquele nadismo, ismo do nada, do vazio, da vida que poderia ter sido e que não foi, como advertiu o poeta Manuel Bandeira num verso de talhe perfeito. Ou, ainda, como querem os céticos – será que eles querem? – o espetáculo da vaidade, nem todos percebem, é a própria vaidade.

PALCO

RETRATO – Mesmo juntos e atuantes, os poderosos, pelo jeito, não deram grande aporte de força e votos ao candidato Paulinho Freire. Já a avaliação da gestão Álvaro Dias mostrou-se muito bem.

VICE – Fonte da maior protuberância carlista assegura, bate o prego e vira a ponta: “É uma mera especulação, sem o menor sentido, o nome de Aila Ramalho parta vice de Carlos Eduardo Alves”.

AINDA – A mesma fonte também desautoriza a retirada da candidatura de Natália Bonavides pelo PT em apoio a Carlos Eduardo: “Ela na campanha do Senado negou-se a pedir voto para Carlos”.

OITENTA – No dia de ontem, 29 de junho, o jornalista Djair Dantas Pereira de Macedo faria 80 anos de vida. Um grande talento que minha geração perdeu e a quem dediquei meu primeiro livro.
VIVE – Câmara Cascudo vai reviver, com suas lições, nas ondas das redes sociais. O lançamento do charuto com seu nome vai homenageá-lo, divulgando sua genialidade para as novas gerações.

CRISE – Notícias da capital da república revelam: o grupo que liderou a marcha dos prefeitos foi encerrar a árdua luta num luxuoso cabaré de Brasília. Com muito uísque e mulheres nuas no salão.

POESIA – Da polonesa Wislawa Szymborska contra a lenda de que poeta conta sílabas nos seus dedos: ‘O poeta nasce com ouvido. Afinal de contas, com alguma coisa ele tem de nascer, não é?’.

TÁTICA – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando a pobreza planejada como tática de dominação dissimulada: “A pobreza gera dependência e dependência cria dominadores”.

CAMARIM

LUTA I – Será até estranho que a governadora Fátima Bezerra venha a tentar interferir na escolha do novo conselheiro do Tribunal de Contas, quando a vaga é da Assembleia. Seria o mesmo erro se a vaga fosse do governo e a Assembleia tentasse derrotar aquele apontado pela governadora.

LUTA II – A disputa, no âmbito da Assembleia, entre os deputados Gustavo Carvalho e George Soares, é natural, mas, submetê-la aos interesses do governo, é trama. A governadora sabe que não contará com o apoio do presidente da casa, o tucano Ezequiel Ferreira. E se tentar sairá derrotada.

LUTA III – Foi por falta de uma visão política de longo alcance que a governadora sofreu a derrota quando tentou elevar a alíquota do ICMS. Não viu com clareza que os reajustes dos combustíveis, com o tempo, compensariam a receita perdida. Colheu a derrota e pagou por excesso de tributação.

*Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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