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A “raiz” do desenvolvimento no campo

Sara Vasconcelos – repórter

Produzida de forma rudimentar desde a época dos índios, a cultura da mandioca passa por um processo de inovação no Rio Grande do Norte. O Estado é o sétimo produtor  regional de mandioca, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com 341 mil toneladas produzidas em 2010, e avança apostando na inovação, ciência aplicada e tecnologia. As mudanças  incrementam a produção no plantio da raiz e a industrialização da farinha da fécula. Garantem também um maior rendimento para  os plantadores e produtores de todo estado, sobretudo da região do Agreste Potiguar.

Apesar de conservar mulheres na atividade de raspagem manual da raiz, todo o restante do processo é feito de forma industrial, em unidade de produção de farinha, localizada no município de Vera CruzProva disso é a Agroindústria de farinha Dos Anjos, localizada no município de Vera Cruz, a 37 quilômetros distante de Natal. A Casa de Farinha com tradição de mais de 50 anos, se destaca entre  as 48 casas ativas na região, pela tecnologia desenvolvida e empregada no processamento da fécula. Desde 2006, os irmãos Jânio e Joanilson dos Anjos investiram para alterar o modus operandi repassado há três gerações na família. E criaram o modelo de planta baixa de casas de farinha, aprovado e empregado pela a Subcoordenadoria de Vigilância Sanitária do Estado (Suvisa/RN). Isto porque, embora se trate de uma cultura milenar, a mandiocultura ainda engatinha quando o assunto é modernização. 

“Levei muito o nome de louco. O processo se deu pelo método de adaptação, de acertos e erros.  Inovação e criatividade ainda despertam desconfiança. Certo é que dá retorno e assegura a qualidade do produto”, ressalta Jânio dos Anjos.

O modelo está de acordo com a portaria número 326, da Agência Nacional de Vigilância sanitária (Anvisa), que rege as unidades de alimentos no país. É fruto ainda da consultoria especializada do Sebrae, Emater e Emparn e de créditos do BNB e Banco do Brasil – órgãos integrantes do Fórum de Mandiocultura do Estado, que identificaram arranjos produtivos locais e atuam com capacitação, crédito e pesquisa, junto aos produtores.

O estudo aplicado mudou o ambiente de trabalho. Apesar de conservar mulheres no processo de raspagem manual da raiz, todo o restante é feito de forma industrial. Equipamentos criados pelos empresários, como o tanque de fibras de vidro, usado na lavagem,  em substituição aos tonéis ou tanques de madeira; um modelo de prensagem da raiz – que  aposentou as roldanas de madeira, ainda empregadas em boa parte das casas de farinha; peneiras e um depósito de friagem, a partir de fibra de vidro, onde é colocada o produto antes de seguir para embalamento, conferem higiene e tratamento enquanto alimento ao processo.

PESQUISAS

 Assessoria especializada e pesquisas desenvolvidas pela Emater e o Sebrae, deram destino para os resíduos. Um tanque destinado a decantação da manipueira – líquido amarelado extraído da moagem da mandioca – é mais um dos experimentos exitosos. Aos fundos da fabriqueta, a pequena plantação de mandioca já recebe a manipueira decantada como adubo para o solo. “O que antes contaminava o solo e as águas, hoje agrega um valor nutricional alto ao solo. Basta ter o tratamento adequado”, afirma Jânio.

A planta baixa e os protótipos serviram para implantação da nova estrutura – que representa um investimento de cerca de R$ 200 mil – em onze casas de farinha no Estado, oito na região Agreste e outras três na região de Serra de Santana.

Afora maquinários adquiridos, os primeiros passos em tecnologia naquela empresa alavancou a produção dos 457.500 quilos de farinha, em 2006, para 888.725 quilos, no ano passado, com pico de produção em 2009, quando foram  produzidos 1 milhão de quilos da farinha. Com o aumento, o consumo saltou de 20 mil para 40 mil quilos de raiz ao dia. A queda na produção, explica o proprietário, se deu em virtude da competitividade com casas de farinha ainda rudimentares, que colocam o produto no mercado via embaladores.

Técnicas aumentam rendimento

Um rendimento recorde na produção estadual da mandioca é registrado em Lagoa de Pedras, município localizado a 56 quilômetros de Natal. Tecnologias de cultivo e adubação empregadas na fazenda Córrego do Coelho garantem a alta produtividade por hectare, atingindo a média de 30 mil toneladas por hectare – o que supera em três vezes a média nacional (10 mil ton/hectare). O segredo, resume o fazendeiro José Justino Freire, de 63 anos,  é “respeitar o tempo da natureza e está aberto as novidades”.

Há 40 anos atuando no plantio da mandioca, o fazendeiro adota o sistema de rotação de solo. A cada cinco anos, áreas de plantação de mandioca dão lugar ao pasto para o gado. O uso de adubo orgânico, na proporção de quatro toneladas por hectare, também é decisivo para o desenvolvimento da planta. “A terra por si ensina como tratá-la. As tecnologias vem   melhorar essa leitura e o uso”, observa o produtor.

As discussões, a partir do Fórum de Mandiocultura iniciadas em 2008, também são responsáveis pela difusão de técnicas como a medida da maniva (talo da planta) para plantio, cujo corte deve medir entre 15 e 20 centímetros; o preparo da terra, com corte em três meses de antecedência e limpas a cada 30 dias e a necessidade de análise de solo. O crédito possibilitou a compra de uma máquina, plantadeira que aumenta em 60% a capacidade de semeadura da terra.

Mas o empresário ressalta que, além das tecnologias que melhoram a produção, a mandiocultura no estado ainda tem muito a evoluir. “A rentabilidade é boa para o grande e pequeno produtor. A dificuldade é a falta de uma política de preço mínimo. Como a variação é muito alta, com registros de preço entre R$ 0,08 e R$ 0,35, os arranques são feitos de acordo com o preço praticado”, observa.

A criação de uma política direcionada para a sustentabilidade do setor, afirma o agente de desenvolvimento do Banco do Nordeste Osmar Amorim, deve ser tratada como prioridade de governo. A discussão permeia o Fórum de Mandiocultura. “Estamos trabalhando para a criação de uma política pública que dê sustentabilidade ao mercado e assegure aos produtores rentabilidade”, observa. Atualmente, cerca de 3 mil famílias foram beneficiadas por ações do Nordeste Territorial. Somente este ano, foram destinados, em linhas de crédito, cerca de R$ 5 milhões para plantio, beneficiamento, modernização das casas de farinha e comercialização dois produtos.

Melhorias no setor reabrem “Casa”

O crescimento do setor no Estado permitiu a retomada de atividades, que já tinham dado por encerradas. No assentamento de Riacho de Sangue, em Macaíba, os plantadores resolveram, depois de um ano fechada, retomar as atividades da Casa de Farinha. Desta vez, em sistema comunitário. “Voltar a funcionar só foi possível por que conseguimos local para escoar a produção. Por meio de parcerias com Casas d farinha, de grande porte, em Cobé”, disse o agricultor Antonio da Silva. A mudança, apesar de ainda ser tímida na estrutura – que ganhou um raspador e um coador – mantendo o ambiente de desorganização e pouca higiene , tem reflexo maior na qualidade de vida das raspadeiras. “Antes a raspagaem toda era feita por nós. Hoje a máquina lava, tira a pele e a gente corta os bicos. Ajuda bastante”, disse Maria do Socorro Andrade, 27 anos, há dez anos raspadeira de mandioca.

O ganho real também se reflete no sistema de pagamento. Antes a remuneração se dava por caixa descascada, a uma média de R$ 0,20, o que rendia no fim de uma jornada diária de 8 horas cerca de R$ 10,00. “Hoje a diária passou a R$ 17,00”, acrescenta Vanilda Bernardo da Silva, 44 anos, que desde o dez anos trabalho na raspagem da fécula. Com o dinheiro as mulheres sonham em dar um futuro melhor para aos filhos pequenos, que não aceitos no trabalho da Casa de Farinha. “Esperamos é que se modernize cada vez mais para que as melhorias chegue a toda comunidade”, afirma Vanilda Bernardo.

Safra estadual pode ter queda de 23% este ano

O último levantamento mensal de produção estimada de mandioca para o ano de 2011, divulgada em abril, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indica produção de 261.285 toneladas para 2011. A prospecção é 23,6% menor em relação a produção de 2010 quando foram registradas 341.366 toneladas. O que coloca o Estado em sétimo lugar, na estimativa do ranking regional de estados produtores. O posicionamento apresenta freqüentes instabilidades, associadas a condições adversas do clima e aos preços praticados no mercado dos produtos e insumos do setor mandioqueiro e da agropecuária.

A redução de safra, avalia o supervisor de pesquisa agropecuária no Estado do IBGE Elder Costa, se deve aos períodos de estiagem no ano passado, que forçaram os plantadores a colher a raiz antes do tempo, aumentando os números de produção do ano anterior. “Por ser uma cultura de ciclo longo, 18 meses, a mandioca permite ser arrancada a partir de um ano de plantio, o que corrobora para superar a oscilação de preço no mercado”. O preço do da raiz está hoje em R$ 200,00, a tonelada.

A área plantada e colhida, também deve sofrer queda. A estimativa até abril é de 25.343 hectares, em 2010, a área foi de 30.509 hectares. Contudo, acrescenta o analista, uma estimativa mais real só será possível a partir de agosto desse ano. “Essas estimativas oscilam a cada mês e poderá haver crescimento ”, afirma.

É nisso que acreditam os agricultores. Apesar da oscilação de mercado e das chuvas, que podem “embebedar” o campo, as perspectivas são de crescimento de até 20% entre agricultores se mantem otimistas. No assentamento Eldorado dos Carajás, em Macaíba, cerca de 80 famílias que vivem da terra esperam bons resultados.

O vice-presidente da Associação do assentamento Eldorado dos Carajás, José Francisco da Silva, 47 anos, mais conhecido por “Zeca”, espera arrancar 20 mil toneladas por hectare plantado. Os agricultores que são beneficiados pelo Pronaf e por linas de crédito do BNB, iniciaram em janeiro o plantio. E ainda trabalham com o residual do ano passado.

Apesar das linhas de créditos para custeio da produção estare, mais acessíveis, a maior dificuldade, diz o agricultor “é conseguir preço justo e colocar o produto no comércio. Hoje ainda acontece via atravessador. Acaba não sendo rentável nem para o agricultor, nem para as Casas de Farinha”, observa.

bate-papo: Fernando José Medeiros  » gestor do projeto da Mandiocultura do Sebrae-RN

O que é o Projeto de Mandiocultura?

Esse projeto é uma continuidade do trabalho iniciado pelo Sebrae, em 2006, para identificar e organizar os atores e ações dos Arranjos Produtivos Locais (APL), em torno da cultura da mandioca, nas regiões do Agreste potiguar e de Santana. O trabalho consiste em identificar a atividade potencial daquele APL, suas vantagens, gargalos. E com isso trabalhar para construir políticas públicas, atrair tecnologias e financiamentos para o desenvolvimento sustentável do setor. Daí surgiu a necessidade de se modernizar o procedimento de cultivo e processamento da mandioca. Hoje existem 300 casas de farinha ativas e somente doze foram modernizadas.

A inserção no mercado desses produtos enfrenta dificuldades?

A inserção nas gôndolas das grandes redes de supermercados do Estado, ocorre via Sebrae. A aceitação do produto das casas de farinha estruturadas é muito boa, mesmo porque representantes dessas redes fazem visitas nas unidades de processos de produção e veem a segurança alimentar com que o produto é feito, a sustentabilidade da empresa. É o tratamento da produção visando a segurança alimentar.

Quais os gargalos que impedem a expansão do modelo e com isso um maior crescimento do setor?

Todo esse arranjo esbarra na comercialização do produto. Primeiro porque o investimento é alto, em torno de R$ 180 mil, por unidade no modelo como a da farinha dos Anjos, que passou por reforma. Com a estrutura arquitetônica é R$ 200, mais R$ 160 de equipamentos. E nem sempre  as pequenas unidades, as associações têm dinheiro para isso. As linhas de créditos existem, mas esbarram nas garantias exigidas pelos bancos, que quase sempre o agricultor familiar não consegue dar. Quando ocorre o investimento, o custo de produção eleva o valor de venda. Hoje o quilo da farinha sai da indústria, no preço médio de R$ 1,65, e chega as prateleiras de supermercados e hipermercados a R$ 2,10. O gargalo está nas pequenas unidades, que não passaram por reestruturação do processo, e vendem com um valor inferior e com qualidade inferior Esse produto geralmente é repassadas para as industrias, que embalam, e nas prateleiras chegam a R$ 1,60. A produção, cai de 30 a 40%, com as farinhas vindas de outros estados. É difícil manter o produto de qualidade no mercado.

Há algum mecanismo que assegure uma concorrência mais justa?

O tratamento da farinha de mandioca enquanto alimento, o que exigirá segurança alimentar. Hoje a regulamentação da farinha, pelo Ministério da Agricultura (Mapa), é dada no âmbito de produto vegetal. Um produto vegetal e não um alimento. É preciso uma reclassificação e para isso já existe um projeto de lei tramitando no Congresso. Somente quando isso acontecer é que será exigido a rastreabilidade com as informações de raiz, o selo de certificação. E isso permitirá formalização do setor e a expansão.

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