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“Com novas tecnologias, teremos condições de ampliar nossa pesca”, diz presidente do Sindipesca-RN

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O setor de pesca do Rio Grande do Norte foca agora em recuperar os prejuízos de quase 30%, registrados no fim do ano passado, em decorrência da proibição de captura do atum, e prevê um 2024 animador. É o que diz Gabriel Calzavara, presidente do Sindicato da Indústria de Pesca do Rio Grande do Norte (Sindipesca-RN). Em conversa com a TRIBUNA DO NORTE, Calzavara ressalta ainda que o Estado é referência global na pesca do atum, mas a implementação de novas tecnologias e modernização da frota para ampliar e melhorar a produção ainda são gargalos a serem superados. O empresário diz que o setor aprendeu uma lição com a proibição em 2023 e traça perspectivas positivas para o futuro. Confira a entrevista.

O sr. atua na área da pesca empresarial de atuns e afins. Pode nos detalhar como funciona essa pesca pelas empresas do Rio Grande do Norte?
São os chamados grandes migradores, espécies que ocorrem na maior parte das vezes nas águas internacionais, chamada também de pesca oceânica dos grandes migradores. São espécies que migram por todo o oceano, então ele não pertence a um país específico, por isso existe um controle internacional para manter a sustentabilidade. Há um estoque de 600 mil toneladas/ano possíveis de ser capturadas. É um peixe que a sua captura exige procedimentos muito tecnologicamente bem estruturados, principalmente na manipulação porque é um peixe que é voltado para o mercado de sushi, sashimi, ou seja, ele é consumido cru e existe um controle de qualidade muito grande. E isso nós fazemos com maestria aqui. O Rio Grande do Norte hoje é uma referência para o mundo inteiro.

Quais são as principais dificuldades do setor?
Os empreendedores, as empresas de pesca se deparam com a quase nenhuma mentalidade marítima que o Brasil tem. A população não tem uma cultura marítima e muito menos uma cultura oceânica. De certa forma, nós somos muito mais uma região da carne de charque, da carne de sol, do que do peixe. Há pouco tempo, a gente só comia peixe na Semana Santa, mas isso está mudando aos poucos. Temos essa dificuldade, não só voltado para o consumo, mas também para a atividade pesqueira. Os gestores estão muito voltados para essa cultura da pesca extrativa, que é desenvolvida em água pública, ou seja,, você tem que ter uma concessão de um governo para poder operar naquela área, você faz seu estado e cria a pesca extrativa, ela exige autorizações porque você está desenvolvendo uma atividade sobre um recurso público. A maioria dos gestores públicos da gente não tem esta cultura e pesca empresarial e pesca industrial, eles estão muito focados num trabalho voltado para a pesca costeira, artesanal. Isso dificulta muito essa visão de confundir o que é uma pesca artesanal voltada para subsistência, que é uma pesca extremamente importante para o País, mas não é só ela. A pesca industrial e empresarial tem todo um planejamento, você tem que ir sabendo onde está o peixe. Essa falta de conhecimento é uma dificuldade, fazer com que os gestores entendam isso. Como consequência desses problemas, a gente tem créditos, que são voltados para a atividade, que não são compatíveis com a realidade da atividade, você não tem pesquisas do setor público da comunidade científica, como na agricultura, por exemplo.

A pesca do atum foi proibida por uma Portaria no fim do ano passado. Como está a retomada?
Essa proibição é em decorrência dessa falta de conhecimento que citei anteriormente. Mas, isso foi superado, já passou. O impacto foi muito grande para as empresas, do ponto de vista econômico, porque era a preparação para o início de uma safra e a primeira pescaria e os melhores mercados, que são justamente na época do Natal e Ano Novo, pegando janeiro no veraneio, nós não podemos produzir e comercializar o peixe. Só pudemos sair no final da segunda semana de janeiro e os barcos estão retornando agora, então perdemos esse período todo. Na melhor época tivemos que parar. No entanto, retomamos, os barcos estão retornando agora em fevereiro para colocar os peixes no mercado. Foi um impacto muito grande, mas que serviu de lição para a gente para que a gente possa se preparar antecipadamente.

A demanda tem aumentado?
Muito. Absurdamente. São situações cíclicas. Se tem o mercado crescente porque era o período de Natal, Ano Novo e veraneio. Obviamente depois você volta para casa porque as aulas começam e a demanda do peixe. O importante é que está crescendo a demanda global e também a nacional pelo pescado, principalmente para o mercado de sushi e sashimi. Temos demanda crescente, sabemos como fazer, mas precisamos de equipamentos atualizados e crédito.

Que tecnologias as empresas potiguares utilizam nesse processo?
Nós estamos tratando de um produto que se come por arte. Não é de qualquer maneira, então é preciso ter um padrão de qualidade altíssimo. Para você ter ideia do nosso potencial e do que já fazemos aqui, há 20 anos, as empresas de pesca do Rio Grande do Norte rastreiam cada peça de peixe capturada pela nossa frota. Tem um número que diz para o cliente o dia que o peixe foi pescado, a região do Atlântico, se embarcou vivo ou morto a bordo, o tamanho, o peso, a transparência da carne, nível de frescor, textura, teor de gordura, tudo isso vai no peixe.

Ainda assim, o sr. fala em dificuldades pela falta de tecnologia. Como poderíamos avançar com uso de novas ferramentas?
Para avançar na pesca nós precisamos de duas tecnologias. A primeira é aprofundar o espinhel de pesca, hoje são 110 quilômetros no mar, com 1.300 anzóis. O oceano é dividido em várias camadas, uma que vai da superfície até 200 metros de profundidade; outra de 200 metros a 1 mil metros; e outra de 1 mil metros a 4 mil metros. Hoje nós operamos nessa primeira camada no período de lua cheia, que é quando os peixes sobem, e os atuns maiores, adultos, ficam na segunda camada. Nós precisamos de uma tecnologia que aprofunde isso, os japoneses já fazem isso. Isso seria importante por vários aspectos. A segunda é justamente sobre o armazenamento a bordo, a gente passar da situação que nós temos hoje, que é de armazenamento em gelo, colocar dentro de um avião e mandar para o exterior rapidamente, se não ele se deteriora porque como ele vai ser consumido cru, isso precisa ser feito rapidamente. São 20 dias entre a captura e o consumo, isso é um complicador. Essa tecnologia que nós precisamos de congelamento a -60º C, você mantém as condições originais do peixe, porque se congela as células. Antes dele enrijecer a musculatura, você congela. Assim, se você descongelar o peixe depois de dois anos, por exemplo, ele ainda vai se debater, como se tivesse acabado de ser pescado. Isso facilitaria muito porque teríamos uma condição de permanecer mais tempo pescando, teríamos uma competitividade maior porque você não seria obrigado a vender logo depois de pescar.

Quais são os principais mercados consumidores?
Hoje, 70% vai para o internacional e o restante fica no nacional. A maior parte vai para os Estados Unidos, Espanha, União Europeia, que há hoje uma barreia sanitária que estamos tentando desmobilizar, mas esses são nossos principais mercados. Com novas tecnologias teremos condições de ampliar nossa pesca. Nós já pescamos toda a nossa cota, mas temos possibilidade de parcerias com nossos colegas produtores africanos, que querem trabalhar com a gente, assim poderíamos pescar da cota deles.

E em termos de estrutura? Como estão nossos cais?
A nossa estrutura eu diria que é heroica das empresas. Algumas empresas têm cais aqui, a maior parte é de madeira porque não se pode mais fazer de alvenaria porque envolve questões de proteção ao patrimônio histórico, mas a dificuldade é muito grande para você poder abastecer esses barcos que chegam mais ou menos no mesmo período, e você não tem uma estrutura. Tem o projeto do terminal de pesca, que foi feito ali, mas que está lá sem encaminhamento. Esperamos que talvez haja um leilão e que alguém pegue para começar a operar ali, mas em termos de infraestrutura é muito aquém do que poderíamos ter.

Quem
Gabriel Calzavara é presidente do Sindicato da Indústria de Pesca do Rio Grande do Norte (Sindipesca-RN) há cinco anos e está no segundo mandato. O empresário da pesca e do transporte marítimo também é diretor da Atlântico Tuna.

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