A indústria brasileira deve enfrentar em 2026 um cenário de crescimento mais moderado, pressionado principalmente pelo elevado patamar das taxas de juros e pela concorrência de produtos importados. A avaliação é da economista Larissa Nocko, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que aponta o crédito caro como um dos principais fatores por trás da perda de dinamismo da atividade industrial, especialmente na indústria de transformação.
Nesta entrevista concedida à TRIBUNA DO NORTE, Nocko explica os efeitos dos juros altos, os efeitos do aumento da entrada de bens importados, especialmente de consumo, e os setores mais impactos pela desaceleração. Na entrevista, ela também analisa o comportamento do mercado de trabalho, que permanece aquecido, mas começa a dar sinais de perda de ritmo, além de comentar os possíveis efeitos da reforma tributária e o debate sobre a redução da jornada de trabalho, tema que, segundo ela, exige cautela por causa dos impactos potenciais sobre os custos das empresas.
Quais fatores explicam a projeção que a CNI faz sobre um menor crescimento industrial em 2026?
Talvez o principal fator que contribua para essa perda de dinamismo, principalmente da indústria de transformação, é o elevado patamar das taxas de juros. Então, esse elevado patamar tem vários caminhos pelos quais afeta a atividade econômica. Talvez o principal deles, o mais claro deles, seja o crédito. Com o encarecimento do crédito, esse processo fica mais caro, tanto para os empresários que querem expandir seus negócios, aumentar sua produção, adquirir máquinas e equipamentos, quanto para os consumidores. Então, todas as compras que passam por um financiamento acabam ficando mais caras.
Esses juros altos afetam a atividade industrial em outros aspectos?
Eles também afetam por um canal que a gente chama de canal das expectativas. Então, diante de taxas de juros elevadas, para os próximos meses, os empresários também acabam construindo essa perspectiva de que vai ser uma demanda mais enfraquecida, com esse mercado um pouco mais contido. No entanto, não é só a taxa de juros que explica esse comportamento, existe um outro agravante que tem sido percebido, que é essa forte entrada de bens importados, principalmente de bens de consumo, o que acaba capturando uma parte importante do mercado consumidor, que seria da produção doméstica, mas acaba prejudicando o faturamento, o mercado das indústrias nacionais.
E quais são os setores da indústria que devem ficar mais sensíveis a essas oscilações?
Há particularidades que afetam mais diretamente cada setor e a estratégia de cada negócio. Mas em linhas gerais, o que a gente consegue observar que aconteceu em 2025 e que não deve mudar muito em 2026, é que os setores que são mais sensíveis ao ciclo econômico, ou mais dependentes do mercado de crédito, devem ser mais impactados por esse processo de desaceleração como a gente já vem enxergando no varejo. Isso porque o patamar elevado dos juros, embora a CNI espere o início do comportamento de queda das taxas de juros a partir da próxima reunião do Comitê de Política Monetária, a economia ainda deve conviver com um patamar bastante restritivo até o fim do ano. A gente está falando de uma perspectiva de que a taxa Selic encerre o ano em 12% no final de dezembro de 2026. Outros setores mais sensíveis à dinâmica da renda têm vivido com o mercado de trabalho bastante reduzido e mostrado também uma desaceleração, mas de forma mais sustentável.
Caso haja esse ciclo de cortes, quando a Industria começaria a sentir os efeitos?
É importante ter cuidado quando a gente fala do período em que a taxa de juros afeta a atividade econômica, porque esses efeitos são prolongados, mas eles afetam a atividade econômica e a atividade industrial em diferentes frentes. Diante do início do ciclo de cortes, as expectativas para os próximos meses é que melhorem em alguma medida. No entanto, um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic não deve contribuir de forma significativa para o barateamento do crédito para os empresários e para os consumidores. Então, esses efeitos devem ser graduais. É por isso que a nossa percepção é que a política monetária vai permanecer sendo bastante restritiva sobre a atividade econômica ainda ao longo do ano de 2023 como um todo.
Neste cenário, quais estratégias as indústrias podem adotar para manter a competitividade e preservar empregos?
Essa é uma pergunta bastante desafiadora, porque em um momento de desaceleração em que a gente nota um comportamento mais enfraquecido da demanda, as soluções vão passar pelas particularidades de cada setor. Então, eu acho que isso também passa pela forma de acesso a crédito que cada porte, cada setor consegue ter dentro do seu nicho, mas acaba sendo um ano que talvez a cautela fale mais alto. De qualquer forma, é importante destacar que a gente está falando de um crescimento mais fraco. A gente não tem no nosso cenário um comportamento de queda da atividade econômica e sim de um crescimento mais fraco em relação aos últimos anos.
Inclusive, o índice de confiança está 14 meses abaixo da linha de 50 pontos. O que explica a persistência do pessimismo?
Então, os empresários são perguntados mensalmente a respeito das condições atuais, tanto da economia geral quanto da sua empresa, e das expectativas deles para os próximos seis meses com relação à economia como um todo e a própria empresa também. Então, o interessante do índice de confiança é que ele captura esse aspecto de informação, de expectativa. Diante de um patamar de juros elevados, da forte entrada de bens importados no mercado doméstico, os empresários olham lá pra frente e percebem um cenário de desaceleração em que a sua demanda vai ser comprometida. E isso acaba impactando o índice de confiança.
Qual avaliação se faz desse início de ano na geração de empregos na industria que teve saldo positivo, mas na comparação anual houve uma desaceleração?
É importante ter em vista que os dados divulgados nessa semana contam com com os efeitos sazonais, típicos de cada mês. O mercado de trabalho como um todo se encontra em um patamar aquecido e no final de 2025 passou a dar sinais mais claros de perda de ritmo, porque tende a responder a outras variáveis de atividades econômicas como um todo. Nós não vemos mudanças muito drásticas no mercado de trabalho. Ele permanece aquecido. Em 2025, segundo dados da PNAD, o número de pessoas ocupadas cresceu 1,1% na comparação com 2024. Mas esse crescimento diante de um cenário de taxa de desemprego bastante baixo, registrando as mínimas históricas, acaba gerando uma pressão sobre o rendimento médio, que acabou crescendo em torno de 5% em 2025. Esse é um ponto de atenção bastante relevante.
A implementação da reforma tributária tende a gerar mais insegurança ou ganho para a indústria?
A reforma tributária é um ponto que deve contribuir muito com o ambiente macroeconômico de negócios. No entanto, os efeitos positivos só devem ser colhidos no longo prazo. Então, nós não esperamos efeitos ainda em 2026 ou no curto prazo relacionados à reforma.
E sobre a discussão em torno da redução da jornada de trabalho, é um ponto preocupante do ponto de vista econômico?
A CNI tem acompanhado esse debate com muita cautela e é muito importante que sejam ouvidos todos os lados, tanto dos trabalhadores quanto dos empresários, tendo em vista que a principal preocupação é relacionada ao possível aumento de custos que isso possa ter e que isso onere ainda mais a produção. Isso se reflita, claro, na economia como um todo, mas essa discussão deve ser amadurecida e a gente tem contribuído com esse diálogo para que, na medida do possível, a gente consiga qualificar cada vez mais essa discussão e tirar disso bons aprendizados para a economia como um todo.
QUEM
Larissa Nocko é economista e mestre em desenvolvimento econômico pela Universidade Federal do Paraná. Profissionalmente, teve passagem pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (2015) e atuou como pesquisadora na Companhia de Planejamento do Distrito Federal, atual Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal de 2016 a 2021, onde contribuiu para a formulação de políticas públicas e coordenou pesquisas, boletins e análises econômicas voltadas ao desenvolvimento econômico regional.
Entre 2021 e 2023, contribuiu com o mestrado profissional de economia e finanças da Fundação Getúlio Vargas como monitora das disciplinas de Econometria e Séries temporais. Atualmente, é economista da Confederação Nacional da Indústria, responsável pelas projeções de atividade econômica da instituição e outras análises de conjuntura econômica e industrial, além de atuar na interlocução com o Banco Central e com associações setoriais a respeito das perspectivas para a Indústria.




