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Em 10 anos, negócios de saúde serão inviáveis, diz pesquisa

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Quase metade (42%) dos CEOs de empresas de saúde do Brasil acreditam que seus negócios não serão economicamente viáveis por mais de 10 anos. O salto foi grande em relação ao ano anterior, quando 27% dos presidentes de operadoras de saúde, hospitais, farmacêuticas e laboratórios compartilhavam dessa visão. Os dados são da 27ª edição da CEO Survey, pesquisa anual da PwC, que ouviu mais de 4,7 mil executivos de diversos setores em 105 países, incluindo 32 CEOs de empresas de saúde do Brasil, no último trimestre de 2023.

Marcos Novais, superintendente executivo da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), corrobora com a visão ilustrada na pesquisa de que o modelo atual da saúde suplementar (o sistema privado de saúde) brasileira não é sustentável no longo prazo, mas acredita que em 10 anos o modelo não será o mesmo e já terá evoluído para um sistema economicamente mais viável.

Ele admite que no futuro a demanda será maior por causa do envelhecimento populacional, o que consequentemente gera a necessidade de uma oferta maior de serviços de saúde. No entanto, na visão de Novais, isso não significa que a expansão será proporcional, mas que a tecnologia auxiliará a um uso mais racional dos recursos já existentes.

“Daqui a 10 anos, a demanda de saúde será maior do que a de hoje, o que estimula a uma oferta maior, mas talvez não precise de mais UTIs do que tem hoje, mas de outras coisas que não temos, como centros pra cuidados continuados, modelos de atenção primária, mais tecnologia”, exemplifica. “Vamos olhar para trás e nos perguntar por que atuávamos dessa forma que atuamos hoje.”

Dentre os fatores vistos pelos executivos ouvidos na pesquisa da PwC como ameaças enfrentadas pelo setor de saúde os maiores são os riscos sanitários, os riscos cibernéticos e a inflação. A desigualdade social é a última da lista, mas se destaca por ser uma preocupação muito maior das empresas brasileiras de saúde (10%) em comparação com empresas de saúde no mundo (5%) e todos os setores de empresas brasileiras (6%).

Em relação aos riscos sanitários, a pandemia de covid-19 foi claramente um ponto de virada para o setor de saúde. Bruno Porto, sócio e líder da indústria de Saúde da PwC, menciona ainda o avanço da dengue no momento atual. Já sobre os riscos cibernéticos, ele diz que muitas empresas já estão atentas ao tema, após o setor sofrer alguns ataques. Ao mesmo tempo, saúde tem menor vulnerabilidade em termos digitais do que outros setores, pondera.

Quanto à inflação, ele diz que as empresas brasileiras já tem reagido e conseguido repassar os custos inflacionários, com reajustes elevados. Vale lembrar que a inflação de saúde é historicamente superior à inflação média do Brasil. Novais, por sua vez, argumenta que a inflação não é risco. “É consequência das escolhas que fazemos”, diz ele, referindo-se ao aumento geral dos custos pelo uso indevido dos planos de saúde, como por exemplo para fins estéticos.

Apesar das dificuldades, Porto também diz que o setor de saúde não vai falir. “Não acontece uma ‘quebradeira’ como no setor financeiro, em que as pessoas tiram dinheiro do banco e o sistema colapsa”, diz. “A saúde suplementar cresceu em vidas e en receitas, mas não na mesma proporção. O setor não quebra, mas começa a ficar mais lento, complexo e de difícil acesso.”

Mesmo com a clara necessidade de reinvenção do setor, as empresas relatam inibidores para tal movimento: existem prioridades operacionais concorrentes – como as fraudes e a judicialização, cita Porto, “que oneram tempo e recurso para o setor ter visão de futuro”. O ambiente regulatório, falta de competências na força de trabalho da empresa, falta de recursos tecnológicos e falta de apoio dos steakholders internos foram identificados pela PwC como impeditivos para a reinvenção na saúde.

“O setor de saúde é conservador, avesso a eficiências operacionais, cortes de custos. As mudanças de custos de outros setores não funcionam em saúde, pela cultura e falta de consenso do setor”, diz.

Investimento estrangeiro
Na visão dos líderes das empresas de saúde no mundo, o Brasil, que na edição anterior da pesquisa dividia o 5º lugar com França e Japão, passou para o 9º lugar na lista dos mercados considerados mais relevantes para o crescimento das empresas do setor.

Segundo Porto, o Brasil perdeu a atratividade para investidores estrangeiros por fatores como o “custo Brasil” e a complexidade de tributação. Dentro das indústrias de saúde é possível observar os reflexos desse panorama na ausência de presença estrangeira. Depois que a UHG vendeu a Amil, “não tem mais nada em vista no setor”, ele diz, referindo-se a possíveis investidores estrangeiros vindo operar planos de saúde, hospitais ou laboratórios no País.

“O investimento em saúde parte de dentro do próprio Brasil. Temos de achar a solução com o dinheiro aqui dentro. Talvez com apoio governamental com o Complexo Industrial da Saúde”, afirma. A exceção dentro do setor são as farmacêuticas, ele diz. No entanto, apenas para distribuição de medicamentos no Brasil, não para uma produção por aqui.

Novas rotas e a tecnologia
Um claro sinal da crescente necessidade de reinvenção da indústria de saúde brasileira é, de acordo com a pesquisa da PwC, o aumento da pressão que os CEOs esperam enfrentar nos próximos três anos por mudanças no modelo de negócios. Em comparação com os últimos cinco anos, tanto no Brasil como no mundo, eles preveem que alterações associadas à tecnologia, à regulação governamental, à concorrência e a mudanças nas preferências dos consumidores e na demografia terão impacto muito maior na forma como criam, entregam e capturam valor.

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