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Fazenda em Tibau do Sul desenvolve experimentos para cultivar macroalga

Felipe Salustino
Repórter
Destaque na produção sustentável de camarões há duas décadas e de ostras há quase 10 anos, a fazenda Primar Aquacultura, em Tibau do Sul, tem apostado em experimentos para a adoção do cultivo de macroalgas. O objetivo é identificar uma finalidade para o uso desse tipo de organismo, tarefa que tem sido dividida com pesquisadores da UFRN. Os estudos, que iniciaram em 2020, ganharam um novo formato há pouco mais de 20 dias, com um experimento em ambiente controlado. Márcia Kafensztok, que administra a fazenda, pontuou que os experimentos irão permitir compreender melhor como as macroalgas funcionam, fator primordial ao bom cultivo do organismo para fins de comercialização, como se pretende. 
Márcia Kafensztok que, em 2021, venceu o Prêmio Mulheres do Agro, pela gestão da Primar, explicou os experimentos com macroalga
“O que a gente vai fazer com as macroalgas está nas mãos de pesquisadores da UFRN, que encabeçam essa análise. Elas poderão ser utilizadas para embalagem, polímeros ou desenvolvimento de plástico, por exemplo. Independentemente dessa resposta, nós vamos ter que aprender a cultivar esse organismo aqui”, frisa Márcia, que em 2021 venceu a categoria Pequena Propriedade, do Prêmio Mulheres do Agro, pela gestão da Primar. O prêmio é uma iniciativa da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e da Bayer. O trabalho da fazenda conta com parceria do Sebrae-RN.
“Esta é a primeira pesquisa com macroalgas em ambiente controlado. Com isso, nós vamos entender melhor como elas funcionam e qual é o ciclo de vida desses organismos”, explica a administradora. O experimento atual é tocado pela engenheira Maria Eduarda. Ela chegou à Primar há quatro meses, por meio do Programa de Residência Agrícola, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e com a Escola Agrícola de Jundiaí. 
Eduarda afirma que a ideia é aprender como manejar as macroalgas e descobrir quais os melhores ambientes de adaptação para elas. As pesquisas são feitas com os organismos que nascem na própria fazenda. “Queremos saber quais os locais onde as macroalgas conseguem aderência com mais facilidade – neste caso, se em um ambiente de fundo branco ou escuro. Esse mesmo experimento está acontecendo de forma simultânea, com a mesma estrutura, mas em um ambiente aberto”, diz. 
O experimento em ambiente controlado, segundo detalha a engenheira, permite o controle de fatores como salinidade, luminosidade, qualidade da água e fertilização do meio. “A ideia é saber se é possível aplicar no ambiente de lá [aberto] alguma condição que a gente controla aqui”, descreve. Márcia Kafensztok, administradora da Primar, diz não haver previsão para início do cultivo do organismo. 
“Por enquanto estamos realizando testes, errando mais do que acertando. Algumas pistas podem nos dar um direcionamento. Em alguns travesseiros de ostras que nós temos aqui, já conseguimos observar algas grudadas espontaneamente. Se isso ocorre, será que a gente não conseguiria manejar isso de alguma forma para termos uma produção nesse modelo?”, conjectura.
“Ainda não sabemos aonde  chegar, mas as macroalgas são organismos que crescem espontaneamente aqui e, utilizá-las comercialmente, vai valer a pena”, acrescenta Márcia. Também em 2020, a Primar adotou o cultivo de microalgas, utilizadas na alimentação de sementes de ostras. Atualmente, pesquisas são executadas para que o organismo seja introduzido como alimentação no organismo maturado.
Sustentabilidade como braço do negócio
Márcia  Kafensztok, de 62 anos, e o marido, o biólogo Alexandre Alter Wainberg, se instalaram na Primar Aquacultura dois anos após o casal adquirir a fazenda, que está localizada no sítio São Félix, em Tibau do Sul, a 70 km de Natal. A propriedade está situada às margens da Lagoa de Guaraíras e conta com uma área de cerca de 40 hectares de área de viveiros – a maior parte, de camarão – além de um laboratório de produção de larvas e sementes de ostras.
Primar tem uma produção anual de cerca de 3 toneladas de ostras juvenis
O casal chegou ao Rio Grande Norte em 1989, mas só adquiriu a fazenda em 1993. Os trabalhos se iniciaram com a produção de camarão convencional. Atento ao surgimento de doenças relacionadas ao crustáceo ao redor do mundo, Alexandre começou a estudar sobre produção orgânica. Foram dois anos de conversão para o novo modelo, até a certificação do Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural (IBD), em 2003.
Como a certificação não está alinhada ao monocultivo, o biólogo se preocupou em introduzir um novo organismo. “Em 2014, inauguramos o laboratório de sementes de ostra. Só existem dois laboratórios do tipo no Brasil: na Universidade Federal de Santa Catarina e aqui. Alexandre contratou dois especialistas do Sul para fazer o projeto, mas não conseguiu reproduzir de cara. Ele fez 43 larviculturas seguidas, durante um ano e meio e todas morreram. Na 44ª tentativa, ele fez 1,2 milhão e colocou na água. Três meses depois, Alexandre faleceu”, conta Márcia.
O marido foi assassinado por um funcionário da fazenda em 2015. Em seguida, ainda no mesmo ano, Márcia reabriu o laboratório por incentivo do Sebrae. Márcia reabriu o laboratório por incentivo do Sebrae. “Com a morte dele, fiquei perdida. O Sebrae Nacional se ofereceu para dar apoio. Consultei uma amiga de Alexandre que tinha um laboratório de camarão e ela me emprestou dinheiro para a reabertura. Mas eu precisava de um técnico também. O profissional que projetou o laboratório anos antes, estava como professor da Universidade Federal do Paraná com dedicação exclusiva e não podia vir para cá. Então o Sebrae entrou em contato com a universidade solicitando um técnico”, conta.
Márcia é carioca, formada em design gráfico e atuava na área até a morte do esposo. Com a ajuda dos funcionários da fazenda, ela imergiu no processo de aprendizado para conseguir tocar o negócio. Hoje, a Primar tem uma produção anual de camarão, nos viveiros, de cerca de 40 toneladas e de 3 toneladas de ostras juvenis. Os custos da fazenda, por ano, giram em torno de R$ 1 milhão, mantidos pelas vendas de camarão, especialmente as feitas por delivery.
Em 2019, a Primar firmou convênio com a União Europeia, o AquaVitae, que reúne 36 unidades ao redor do Atlântico com interesse em pesquisar organismos aquáticos de baixo nível trófico como ouriço, pepino do mar, ostras e algas. “Somos o parceiro industrial, o campo onde a pesquisa é aplicada. Entramos no projeto com dois estudos de caso e um deles é a produção de sementes de ostras”, explica Márcia.
O convênio, que se encerra neste ano, foi importante para garantir aporte de recursos para a manutenção do laboratório, cujo custo por safra é de R$ 180 mil. A safra tem duração de seis meses e ocorre uma vez por ano, com início no verão. O convênio garantiu um aporte de 120 mil euros para os quatro anos de duração. O recorde de produção foi na safra 2020/2021 (3,1 mil sementes produzidas). No ano passado, foram 1,6 mil sementes.

Kafensztok recebe Prêmio Mulheres do Agro
A preocupação com a produção sustentável rendeu diversos prêmios ao trabalho de Márcia na Primar, como o Sebrae Mulher de Negócios 2022 (etapa nacional) e o Green Destinations Top 100 2022. A Primar também tem um histórico de parceria com 18 universidades federais conveniadas para recebimento de estágio obrigatório. Em 2021, Márcia levou o 1º lugar do Prêmio Mulheres do Agro, na categoria Pequena Propriedade, da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e da  Bayer. A inscrição foi incentivada pela analista e gestora de bioeconomia do Sebrae-RN, Sergina Dantas.
“Foi essa indicação que gerou uma parceria do Sebrae com a Abag e a Bayer que a gente mantém hoje para encorajar e empoderar mulheres do agro. Márcia me chamou atenção por se aventurar ao assumir a fazenda. Ela e Alexandre foram pioneiros na agricultura orgânica no Estado e nos encheu de orgulho o prêmio”, comenta Sergina. 
Isabela Fagundes, uma das líderes do prêmio e especialista em comunicação da Divisão Agrícola da Bayer, comenta a importância da iniciativa para. “O objetivo é incentivar a participação da mulher no agro e reconhecer o protagonismo dela em termos de sustentabilidade. Este ano, o Sebrae está na parceria para fortalecer o olhar para a pequena produtora e a cultura de subsistência, que a gente entende ser uma parcela muito importante no Nordeste”, afirma Isabela.
Márcia confessa que o prêmio foi uma surpresa, mas admite que poder inspirar outras mulheres é algo que desperta  fascínio. “A gente fica aqui trabalhando e não tem a menor dimensão do que nossa história pode representar para outras pessoas. Isso significa que nós estamos no caminho certo. Me espantou muito o prêmio mas, se é para estimular outras mulheres, que assim seja”, pontua.
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