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“Não basta ter dinheiro, é preciso conhecimento e energia para empreender”, diz empreededora

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Ícaro Carvalho
Repórter

A vocação para o empreendedorismo sempre esteve pulsante na veia da potiguar Fátima Menezes, 62 anos. Aos 12, chegou a produzir saias de crochê para vender na escola, utilizando linha do algodão plantados no sítio do pai, em Jucurutu, Seridó potiguar. Passados quarenta anos, Fátima tem orgulho da carreira e é proprietária de uma das principais marcas de lingerie do Estado: a Del Rayssa, que produz quase 200 mil peças por mês. A Del Rayssa Lingerie foi criada por Fátima e seu esposo, Menezes, na década de 1990, e tem crescido no mercado com vários projetos de expansão. As lojas estão localizadas nas cidades de Jucurutu (Matriz), Caicó, Currais Novos, Mossoró, Natal (quatro lojas), Pau dos Ferros, João Pessoa, Patos e Campina Grande. O grupo detém ainda as lojas Calle, marca masculina, nos municípios de Santa Cruz, Jucurutu, Caicó, Currais Novos e Pau dos Ferros, todos no Rio Grande do Norte. No mercado há quase 30 anos, Fátima é enfática ao dizer que os recursos financeiros não são suficientes para abrir e manter um negócio. “O conhecimento e a energia, a vontade, são essenciais”, comenta. Orgulhosa ao falar da Del Rayssa, a empresária aponta que a marca fará uma ação de exportação de milhares de peças para Portugal nas próximas semanas e aposta num Centro de Distribuição em Jucurutu como trampolim de crescimento da empresa, que estima fechar o ano com 20% de superávit no faturamento. “Estou querendo também criar um Centro de Distribuição, em que lá vou atender todas as revendedoras que já compram nas nossas lojas, pois vou ter aquele estoque num local só”, revela.

Nesta entrevista, a empresária potiguar fala sobre empreendedorismo, desafios na área da indústria têxtil do Rio Grande do Norte e as perspectivas da Del Rayssa, que gera 250 empregos diretos nas fábricas e lojas espalhadas pelo Estado. Confira!

Como a Del Rayssa tem atravessado 2023? Esperam crescer quantos por cento?
Nós treinamos o nosso time. Com isso, sabemos que não é fácil, mas conseguimos crescimento mesmo diante desse período em que o dinheiro está mais “escondido”. Tínhamos uma projeção inicial de crescer 15%, mas vamos finalizar com 20% de crescimento.

Como a empresa trabalha? Há parcerias com oficinas?
Sim, temos parcerias com pequenas oficinas. A maioria são ex-funcionárias da empresa. Cortamos, criamos e fazemos o que outras empresas fazem. Só que há algumas dificuldades, pois falta fazer um trabalho de treinamento com as oficinas. Estamos querendo aumentar nossa produção e, atualmente, e estamos treinando um grupo de 30 pessoas para em janeiro começar uma nova fabricação. Será uma outra empresa nossa mesmo. Temos hoje uma fábrica nova, com quatro anos, bem estruturada e com maquinário de primeira geração. Temos uma máquina de corte que, somente 5% das indústrias possuem essa máquina. Isso nos fortalece para esse crescimento, pois temos essa expertise. Somos uma fábrica independente. Temos 12 lojas em que todos os dias abastecemos. Temos uma produção mensal de quase 200 mil peças.

Quais as principais dificuldades nesse mercado e a atuação no interior?
Temos uma carga tributária muito alta, porque às vezes pensamos: ‘meu Deus, o que vai sobrar esse mês?’ Porque é muito imposto. Nós trabalhamos tudo 100% com nota, dentro da legalidade, e são taxas muito altas. Para concorrer com quem não paga é uma dor de cabeça. Eu penso que o setor têxtil poderia sim ter mais apoio, principalmente em treinar pessoas. Hoje uma grande dificuldade nossa são as lideranças, mas devagar isso está chegando. Caicó tem o IFRN agora, mas se fosse mais forte era mais fácil. Às vezes treinamos um funcionário três meses, passa esse período e vejo que ele não me dá a produção que é viável, e aí precisa fazer tudo de novo.

A empresa produz quais peças e de quais tipos?
É um leque enorme de opções, com tecidos de algodão, microfibra, PV. Isso inclui o feminino, o conjunto, o masculino, a cueca, a calcinha, a roupa de dormir. É um leque que chega a 150 referências diferentes. Esse é um dos grandes problemas nossos, ter criado esse catálogo grande, pois não dá para tirar. Na hora que se remove, como trabalhamos direto com revendedoras, elas já alegam a falta, que é justamente ela vende, e com razão.

Avaliam franquear a Del Rayssa?
Temos lojas próprias, mas pensamos sim em franquear no futuro, inclusive o masculino. Meu foco é quase 100% a Del Rayssa. A Calle chegou e deposito muita energia nela, então pensamos em franqueá-la, para ter mais energia na Del Rayssa. Temos 250 colaboradores.

Os produtos Del Rayssa já chegam a outros estados?
Sim, vendemos para quase todos os estados do Brasil. Esta semana estaremos concluindo a primeira venda para Portugal. Será mais uma ação de venda internacional, esperamos que se torne uma venda constante.

O que a Del Rayssa tem para projetos de expansão?
Estamos com um treinamento para 30 pessoas para criar uma nova fábrica. Temos duas: a antiga, que era do Centro, e a nova com as instalações recentes na saída para Caicó. Essa antiga, que tem toda estrutura pronta, vamos refazê-la e transformá-la para fabricar só lingeries plus size. Esse produto queremos vender mais no virtual. Hoje nosso e-commerce representa 10% das vendas. Queremos aumentar, é tanto que eu digo que não quero mais abrir lojas físicas. Estou querendo também criar um Centro de Distribuição, em que lá vou atender todas as revendedoras que já compram nas nossas lojas, pois vou ter aquele estoque num local só. Porque na hora que eu pego esse estoque e divido para 12 lojas, em uma vai sobrar e em outra vai faltar. Eu concentrando ela, fica mais fácil.


Como avalia o Pró-Sertão?
Não faço parte, mas conheço o programa. Faço parte de um grupo que integra e acho muito bacana. Para o Seridó é algo riquíssimo, pois traz emprego para a região e acho fantástico.

O que lembra da época que você começou a empreender?
Quando eu comecei, fará 30 anos no próximo ano, não sabia de nada. Não tinha internet. Fiz meio que “na doida”. Eu digo hoje aos meus filhos que eles não têm direito de aprender com os erros. Quem fez isso fui eu, pois não tinha como pesquisar, não tinha nada. Foi tudo com a cara e a coragem. Hoje eu vejo que tudo é mais fácil, pois você tem um Senai que vai lá e treina, temos consultores num nível muito bacana. Comecei sozinha, mas com meu esposo sempre dando apoio, ele é muito organizado. Comecei fazendo tecelagem com panos de prato, pegando sacos de açúcar. Eu lavava esses sacos, tirava a tinta, botava no cloro. Foi muita luta, não caiu nada do céu. Mas adorava fazer. Se fosse preciso faria tudo novamente. Costumo dizer que já nasci empreendedora. Nasci na zona rural, fiquei até 12 anos e lá já aprendi a fazer esses trabalhos, pois minha mãe costurava com apoio de uma lamparina. Fazia ponto cruz, bordava a mão, fazia crochê. No sítio do meu pai, onde morávamos, tinha muito algodão e eu o transformava em fio, em linha. Fazia sainhas de crochê e vendia na minha escola. Já nasci uma menina empreendedora. Queria fazer a coisa acontecer. Meus primeiros 10 anos foram apanhando, e muito. Cortava a frente e faltava as costas, e vice-versa. Hoje é mais fácil empreender. Temos acesso à Sebrae e Senai, você chega e pede um consultor para treinar equipe, tem os financiamentos. Graças a Deus temos apoio dessas entidades, às vezes é só ligar.

Qual mensagem daria a quem quer empreender?
Quem quer ser empreendedor precisa ter muita energia e buscar conhecimento sempre. Costumo dizer que se um dia eu precisar ter um sócio, entre escolher o dinheiro e o conhecimento, seria este último. É preciso focar nisso, naquilo que se quer. Eu pulei muito de galho em galho, fiz muitas coisas, mas precisa-se do foco. Não basta ter dinheiro, precisa-se de conhecimento e muita energia. É a receita do bolo.

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