domingo, 14 de abril, 2024
29.1 C
Natal
domingo, 14 de abril, 2024

Restaurantes absorvem parte da alta no preço dos insumos para evitar retração no consumo

- Publicidade -

A alta de preços registrada em nove itens da cesta básica em Natal afeta diretamente o setor de alimentação fora de casa que, desde o período de retomada pós-pandemia busca se ajustar para evitar repassar integralmente os reajustes nos valores dos próprios insumos ao consumidor final. Em janeiro passado, o custo da cesta básica na cidade teve variação positiva de 2,83% em relação ao mês anterior. Max Fonseca, conselheiro da Abrasel Rio Grande do Norte, afirma que a entidade está fazendo um levantamento para entender concretamente os efeitos da elevação, mas pontua que o segmento segue com a estratégia de absorver parte dos aumentos para evitar retração no consumo.


Os dados recentes da cesta básica são do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema), baseados no Índice de Preços ao Consumidor (IPC). O levantamento indica que dos 13 itens analisados, apenas quatro (óleo, farinha, carne bovina e leite) sofrerem redução nos preços. Os reflexos para bares e restaurantes são inevitáveis. “A inflação do custo dos alimentos está quase 3% acima do que a gente tem conseguido repassar para os cardápios (o repasse, neste caso, está na casa dos 6% a 7%)”, esclarece Max Fonseca, da Abrasel. Segundo ele, esta é a aposta dos estabelecimentos para evitar a fuga dos clientes.


“Temos visto esta situação há pelo menos um ano e meio. A gente nota que o dinheiro disponível para o consumidor é menor porque ele está sofrendo com um achatamento de salários. Então, se a população está com dificuldade em comprar e a gente repassa o preço integral [dos insumos], nós vamos perder mercado, cliente e competitividade e os negócios sofrerão mais do que se tentarem absorver parte desses aumentos”, diz Fonseca. Na prática, ele aponta, mesmo com uma melhora dos números do setor após a pandemia, o segmento ainda apresenta dados que despertam atenção.


A mais recente pesquisa da Abrasel sobre o cenário atual de bares e restaurantes do RN, divulgada no início deste mês, mostra que mais da metade (52%) dos estabelecimentos ainda não conseguia operar com lucro em dezembro de 2023 (13% tiveram prejuízo e 39% ficaram em equilíbrio – ou seja, não tiveram perdas, mas também não lucraram). Os dados indicam um segmento em recuperação, já que dezembro foi o mês com menor índice de estabelecimentos operando com prejuízos em 2023.


Ainda assim, a notícia da elevação do preço da cesta básica preocupa a Abrasel, uma vez que o setor espera algum alívio em razão da quantidade de empresas endividadas (índice de 41% em dezembro). “Nós temos um percentual bastante significativo de estabelecimentos no prejuízo, embora isso venha diminuindo. E isso pode ser a crônica de uma morte anunciada, porque se há muitas perdas sucessivos, a empresa quebra. Sem falar que ainda um número bem consistente de empresas com dívidas”, descreve Max Fonseca.


Quem atua no setor, reclama da alta de insumos, mas concorda que é preciso reter parte dos reajustes para evitar a perda da clientela. “O que nós estamos fazendo, na verdade, são algumas substituições no cardápio para conseguir manter os preços e tiramos algumas cortesias da casa. Mesmo assim, a situação ainda é complicada”, relata Samia Barros, dona do restaurante Panela velha, que está há 19 anos na Cidade Alta.


Em um ano, a queda no lucro já chega a 80% por lá. A pesquisa sobre a alta dos produtos da cesta básica, portanto, comprova na prática os efeitos que o restaurante sente há bastante tempo. “Aqui nós também temos outro ponto que é o abandono da Cidade Alta e como o aumento dos insumos, a gente nem sabe até quando vai conseguir segurar o preço atual para os nossos clientes, que não é reajustado desde outubro de 2022”, explica Samaia.


José Sobrinho, proprietário do famoso Zé Reeira, também na Cidade Alta, demonstra receio em relação ao cenário atual, porque, segundo ele, os prejuízos com a elevação de preços têm se acumulado, haja vista, ainda, a situação do bairro. “Tenho sentido muito os aumentos, mas sem repassar nada. Os prejuízos são grandes”, indica o proprietário, que preferiu não mencionar valores. Apesar disso, ele diz preferir não reajustar os preços para o cliente. “Se a gente fizer isso, ele some totalmente”, informou.


E o consumidor está atento. O músico Carlos Zens diz que evita comer fora de casa, a não ser quando é extremamente necessário. “Hoje vim ao restaurante porque estava na rua e, pela minha logística, vim almoçar aqui na Cidade Alta”, comentou. Já o aposentado Edmilson Câmara, de 64 anos, prefere ir ao restaurante do qual já é cliente há muito tempo – o Panela Velha – em razão da manutenção do preço no local. “Venho almoçar justamente aqui porque o preço está sendo mantido há muito tempo. Então, tenho melhor garantia de que não vou pagar mais caro”, diz.


O custo da cesta básica na cidade do Natal, em janeiro de 2024, calculado pela Coordenadoria de Estudos Socioeconômicos do Idema, teve uma variação positiva de 2,83% em janeiro em relação ao mês anterior. Os destaques entre os produtos foram os legumes, que subiram 25,84% em um mês, seguido pelo arroz (8,79%), tubérculos (6,72%) e açúcar (3,95%). Além disso, janeiro também contou com aumento do preço do azeite que, segundo o IBGE, teve a maior alta da série histórica (iniciada em 2020) para um período de 12 meses (alta de 41,64%).

- Publicidade -
Últimas Notícias
- Publicidade -
Notícias Relacionadas