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“O governo anterior adotou uma atitude inconsequente”

Os construtores viveram dias tenebrosos nos últimos dois anos. Queda da procura por imóveis, elevação da taxa de juros, aumento das rescisões contratuais e muita instabilidade política. Essa combinação é o que pode se chamar de tempestade perfeita, ou conjunção de fatores negativos acontecendo de uma só vez.
Larissa Danta, vice-presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil (Sinduscon-RN, que representa 120 empresas) sentiu na pele as agruras do período, tanto por ser representante de classe quanto como empresária (ela é diretora da construtora S Dantas). Ela viveu diretamente os dramas de empresários que ficaram sem liquidez por causa da falta de repasses do de habitação do governo federal, o “Minha Casa, Minha Vida”, assim como atendeu de maneira personalizada os clientes que viram a sua renda cair e não puderam honrar compromissos com a sua construtora. E foi várias vezes a Brasília se reunir com o governo federal para ter as garantias da fiscalização dos repasses do programa.
Dantas também falou sobre a necessidade da profissionalização para a concessão Habite-se, documento que autoriza o uso do imóvel, expedido pelo Corpo de Bombeiros, mas elaborado por profissionais sem a formação em engenharia. Confiram trechos da entrevista.
Classe empresarial do setor da construção civil acredita que o governo Temer tem condições para criar um ambiente propício à recuperação da confiança
As vendas de imóveis estagnaram, os distratos aumentaram e ainda não há dados oficiais sinalizem uma melhora na economia. Que tipo de perspectiva você tem para os próximos meses?

Existe uma perspectiva de melhora em 2017. Tivemos um 2015 extremamente difícil, especialmente para as empresas que trabalhavam com o “Minha Casa, Minha Vida” (MCMV), que lidaram com atrasos dos pagamentos do Tesouro Nacional, gerando uma grande turbulência. Fizemos muitas viagens a Brasília para garantir os recursos e o medo de algumas empresas quebrarem foi bem real. Essas construtoras trabalham com uma pequena margem de lucro e, se o capital de giro é afetado como foi no ano passado, elas param as operações. Sem dinheiro para pagar a folha, o primeiro pensamento do construtor é o de demitir.

E o que o Sinduscon fez para contornar os problemas gerados pela interrupção dos pagamentos do MCMV?

Foram muitas articulações. O governo anterior adotou uma atitude inconsequente. A presidente da Caixa Econômica Federal, Miriam Belchior, foi à televisão para dizer que não havia atraso nenhum no programa, fazendo os empresários passarem por mentirosos. Imagine o construtor falar a um de seus fornecedores que não fará o pagamento porque não recebeu o dinheiro da Caixa e depois este fornecedor vê a negativa da presidente do banco, dizendo que estava tudo em dia. Gerou uma situação muito constrangedora, foi feio, estressante. A Caixa tinha o papel apenas de repassadora dos recursos. O atraso realmente vinha do Tesouro Nacional.

Representantes do setor se reuniram recentemente com o governo. Como foi o encontro, o que foi abordado com o presidente Temer?

Tivemos a oportunidade de estar em Brasília, em uma reunião com o presidente Temer, então interino, mas bem próximo da definição da posse definitiva. Empresários de todos os Sinduscon’s do país e Câmara Brasileira das Indústrias de Construção (CBIC), o novo presidente da Caixa, o Ministro das Cidades, Bruno Araújo e representantes dos trabalhadores. Nesse encontro, o presidente Michel Temer se comprometeu a fazer uma agenda a cada 45 dias com esses atores objetivando fiscalizar as obras do MCMV em atraso – a verba já estava disponível para a conclusão – e propor novas formas de alavancar o setor de construção, até porque é de interesse do poder público que ele vá bem, em função do grande número de pessoas que emprega. Se a construção não vai bem, nada vai bem. E o atual governo tem claramente essa consciência. Foi uma reunião extremamente gratificante. Parecia uma missa, pois a gente sentava e levanta para bater palmas a cada novo anúncio das medidas. Claro que Temer estava querendo garantir o apoio do setor, mas os sindicatos já tinham a noção de que ele deveria assumir a presidência, pois sofremos muito na mão do governo passado. 

Esses atrasos deixaram investidores e clientes mais receosos, mais cuidadosos com seus recursos financeiros?

Nunca se tem certeza sobre o mundo dos investimentos, mas o governo é um fator muito importante na definição do grau dessa incerteza. No ano passado, clientes perderam a confiança e, de forma geral, isso contaminou até mesmo servidores públicos que ocupam altas funções como juízes, cuja média salarial é de R$ 30 mil. Conversei com um juiz estadual e ele estava com medo de comprar por causa da crise. Veja como o desânimo se espalhou!

 Então os vendedores tiveram um trabalho extra para o convencimento da compra?

Um pouco. Não tem o menor sentido um servidor público que ocupa um alto cargo e tem estabilidade ficar com medo de comprar ou investir. É bem diferente da situação do empresário, que, se não produzir e vender, não come. Além do mais, o imóvel não é um bem de consumo qualquer, ele vai ficar de patrimônio para a família e, no mínimo, trará um bom retorno como investimento. Não vai acontecer com o imóvel, por exemplo, o que aconteceu com o confisco da poupança, no governo Fernando Collor (1990-1992). Quero acreditar que governos não confisquem imóveis com o mesmo objetivo que fizeram com as poupanças.

O Índice de Velocidade de Vendas (IVV), importante termômetro do mercado, vem oscilando no mesmo patamar há um bom tempo. Que informação esse comportamento do índice nos dá?

Muitos investidores decidiram ficar com o dinheiro em aplicações financeiras. Nosso IVV vem se mantendo mais ou menos constante em 5% ao mês. Suponha que eu tenha dois mil imóveis para a venda. Se a velocidade de vendas se mantiver neste patamar e não houver nenhum lançamento, zera o estoque em 20 meses. O que é pouco, porque, na média, um imóvel leva três anos (36 meses) para ficar pronto, ou seja, existe a possibilidade de ficarmos sem imóveis para ofertar caso os lançamentos não comecem a surgir, com esse nível de IVV.  

Depois de sete anos de atuaçãode empresas de grande porte,   como MR, Cyrela e Rossi, como você analisa o impacto delas localmente?

Essas empresas mudaram a dinâmica no setor não somente em Natal, mas em todo o país. O que está acontecendo aqui também aconteceu em Salvador há dois anos aproximadamente (adequação das empresas locais à oferta das grandes construtoras e a concorrência que isso implica). Felizmente, eles já superaram esse momento. Vejo de duas formas: a primeira é positiva porque aumentou a competitividade, melhorando a dinâmica do mercado de uma forma geral. A administração, a engenharia, tudo teve de evoluir. A concorrência é muito salutar, ou elevamos o nível ou saímos do mercado. Isso foi extremamente positivo. Certamente perdi vendas para a Cyrela, eles têm uma escala muito maior que a minha. Por outro lado, fez com que eu fosse observasse melhor o mercado, elevasse o nível e garantisse os meus clientes. A mesma coisa acontece com outros setores. Talvez pequenas mercearias tenham fechado com a chegada do Carrefour, mas ele não inviabilizou as operações do Nordestão, por exemplo. O ponto negativo é que as grandes construtoras geraram uma movimentação esquisita dos preços. A atividade econômica causou uma elevação superficial, redundando nos terríveis distratos (rescisões contratuais, devolução do imóvel por parte do cliente e devolução do dinheiro por parte da construtora).  Antes, pensavamos que a compra de um apartamento ou casa era uma coisa tão bem planejada que dificilmente teríamos distratos. E eles representam uma grande quebra no fluxo de caixa de uma construtora. Na maioria das vezes, terá de “queimar” (vender sacrificando margens) duas ou três unidades para garantir o dinheiro do cliente. 

Existe uma reclamação, generalizada, sobre a demora na expedição do “Habite-se” para novos empreendimentos. Na sua opinião, o que falta para melhorar a prestação desse serviços por parte do Corpo de Bombeiros?

Tivemos um trabalho muito intenso do Coronel Dantas na gestão anterior e agora também com o Coronel Oto. Eles sempre alegam a insuficiência de pessoal para dar mais celeridade às liberações. Um projeto de lei tramita na Assembleia Legislativa na tentativa de que os projetos tramitando nos Bombeiros sejam analisados por engenheiros. Eles exigem que o projeto chegue lá com uma ART (Anotação de Responsabilidade Técnica, registro no CREA que indica os responsáveis por uma obra), mas quem analisa no bombeiro não tem formação na área. Tecnicamente, isso é perigoso, além de ser exercício ilegal da profissão. A solução não é rápida, pois exige a realização de concursos e estes requerem dotação orçamentária. Porém, todo mundo está vendo a situação financeira do governo do Estado. Não é um problema fácil de resolver, porém, podem terceirizar o serviço, procurar outra solução. Mas tem que existir alguma forma de solucionar esse problema. É mesma coisa de um indivíduo se passar por médico sem ter cursado uma faculdade de medicina. Em uma obra, há o mestre de obras e o engenheiro. Por que não tem só o mestre? Porque a complexidade das atribuições do engenheiro são muito maiores, evidentemente. As engrenagens do setor precisam ser melhor azeitadas, sofremos muito com a burocracia. Queremos um bom relacionamento com todos os entes, mas devemos evoluir e resolver as coisas de uma forma séria. Não estamos pedindo que façam alguma coisa errada, e sim, que sejam mais ágeis. Não podemos viver sem essa celeridade porque a sua falta influi no desenvolvimento da Natal.

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